quinta-feira, 15 de março de 2012

assim vivemos nós, em despedida sempre.

quem é que nos inverteu, de tal forma
que, em tudo o que façamos, estamos sempre na atitude
de alguém que parte?
..rilke..


o desesperado querer desse exato segundo, esse verbo que teima em rasgar o silêncio nesse momento, tudo isso nunca mais. de ponto em ponto, de vírgula em vírgula a vida segue sem se preocupar com correção gramatical, coesão ou coerência. o tempo leva tudo-sempre o que deixou de ser: uma palavra, um afago, um fazer ou deixar de - contamos até... bom, até um e passou.

PÁRA TUDO. 

depois de um longo e tenebroso inverno, digo, de um breve hiato nessa voz inconvenientemente escandalosa aqui de dentro, meus dedos teimam em traduzir meus pensamentos nesse teclado ricamente iluminado (obrigada, steve, seu puto). eu poderia me fazer de super sóbria&cult, utilizar minha pouca bagagem filosófica/sociológica/acadêmica para discorrer sobre qualquer coisa, mas, se nem eu tenho vontade de ler essa merda pretensiosa existencial que ameaça sair de mim, quem terá? ah, vamos continuar com a linha essa-bagunça-sou-eu-derramada de sempre, né? prosseguir com as reflexões imprecisas, mas sinceras, de quem peca por amar de mais, pensar de mais e calcular de menos, sem qualquer pretensão literária. isso aqui é um blog, não um portfólio.

rilke é foda. fodamente fodido. se envolveu com rodin como camille claudel e como você e eu teríamos nos envolvido se fôssemos personagens de woody allen num filme inspirado ou se simplesmente tivéssemos a oportunidade. feinho, mas, ah lá em casa o tal do rodin... devia ser o traste, digo, o homem dos sonhos de qualquer ser com sede de humanidade... de erros e mais erros se constroem as grandes personalidades, famosas ou absolutamente anônimas.

mas o que realmente tenho a dizer é que assim vivemos nós, em despedida sempre. sempre partindo, e deixando, e refletindo sobre sem ter muito a fazer a respeito. a vida segue seu rumo, e o que não foi jamais será como poderia ter sido.

admiro as pessoas que fazem tudo agora, que realizam, que não temem o tombo. acho bonito dar a cara pra bater sem se fazer maiores perguntas sobre as possíveis consequências. não sou assim. penso de mais e ajo de menos. às vezes funciona, às vezes não - aliás, na maioria das vezes não. protelar é geralmente danoso, independente do motivo. o mundo é feito de decisões rápidas, e ser incapaz delas traz grandes prejuízos. eu pago por isso. pago caro, todo santo dia, e me obriguei a ver que se trata de opção consciente - assumo o fato de meu tempo ser mais lento que o tempo do mundo pra tomar qualquer atitude, porque esse tempo a mais é irremediavelmente consumido por um pensar imperativamente tortuoso e de conclusão incerta.

enfim, adeus presente, sem qualquer apego. a ordem do dia é: para o alto e avante. um navio sem rumo é melhor que errar sem chão no mar aberto. o norte está no norte, ainda que se trate de ponto cego, ainda que a bússola esteja enlouquecida, ainda que não se vislumbre amanhã digno de ser vivido. há algo, mesmo que uma porcaria inútil, pra preencher nossa existência de momento em momento. cá entre nós, de coisinhas insignificantes se constrói uma história, uma pessoa, um mundinho particular muitas vezes fascinante.

que de grão em grão cada um de nós encha o papo, os bolsos, o passaporte e o coração. que um momento próximo nos seja sublime e que tudo então pareça fazer sentido, nossos molóides corações encontrando sentido em baterem fora de ritmo até ali. amém.

terça-feira, 13 de março de 2012

velados tudos.

eu não vou falar sobre amor. não vou escrever trocadilhos cheios de graça nem analisar comportamentos ou fatos comuns para a maioria dos mortais. não vou escrever pra alguém ou sobre alguém, nem sobre mim nem sobre você, seja lá que você for. nesse mundão sem fim de palavras, falas, músicas e diálogos ensaiados, é no silêncio que eu tenho mergulhado.

pode ser o céu ou o inferno, o silêncio. só sabe o eu; para os outros, parece só um grande e gordo nada - objetivamente, é o que de fato ele é. habitando o reino da subjetividade, esse hiato pode ser tudo ou pode ser de fato nada. a mim interessam os velados tudos.

silêncio nem sempre é vazio. pode ser cheio de significados, seja porque as palavras não foram ditas, seja porque elas sequer chegaram a ser encontradas. muitas vezes não existe nome pra verbalizar o que a coisa de fato é - é aí que o silêncio é recheado de sentido. essa sutileza a gente só compreende uma vez nela imersa, sentindo. é o silêncio que trazem a chuva, a morte, algum deus, uma presença, enfim, aquele que infla o peito de um não sei o que e que todas as palavras do aurélio não seriam capazes de definir - é o silêncio do ser e do estar quando esses verbos parecem suficientes em sua precariedade para descrever o indescritível.

quer coisa mais gritante que um minuto de silêncio deliberado nas multidões? ele é manso, mas ensurdecedor. ele é paz quando querido, e, por outro lado, a solidão materializada. diz tudo em certas situações e é barreira intransponível em outras. em grande parte das circunstâncias, o silêncio fala por si - ainda que leve a mal entendidos.

as pessoas se escondem sob o sobretudo do silêncio em suas fugas ensimesmadas, e o ostentam como bandeira de protesto. questão de circunstância e de leitura, o polivalente calar-se é pau pra toda obra. o não saber ansioso, o doce esperar por, o emudecimento em face de. mas o silêncio é fascinante mesmo quando encerra esperança - não que eu seja provida dela.

no mundinho limitado e individual em que vivemos, dá vontade de seguir em frente observar as pequenas esperanças de cada um - silenciosas roletas de querer sem saber o amanhã. todo mundo quer e espera em silêncio, todo mundo tem sua televisão de cachorro mesmo sem se dar conta disso. cada micro acontecimento cotidiano em que a gente quer, seja lá o que for, e silencia à espera de, por não poder fazer algo a respeito, é um bocadinho de esperança. calamos, impotentes, pensando na sorte que seria se... pode ser a cura milagrosa de alguém querido, uma reconciliação, a loteria, um telefonema, um cabelo mais disciplinado, a paz mundial, enfim, é a combinação melancólica que resulta numa medonha resignação ou num sonho iluminado por fogos de artifício imaginários - e é aí que o silêncio se torna mais comovente: o silêncio como pausa em espera por algo sublime.

uma amiga me disse que ando serena de mais, que não me reconhece pela ausência do habitual pessimismo. não é pra tanto: continuo achando que não vai ter jeito, que tudo tende a desandar mais e mais, e a maior parte dos meus silêncios são cortantes, mas não deixo de olhar uma noite sequer para o céu porco de são paulo, como uma criança à espera emudecida dos meus fogos de artifício multicoloridos. enjoy the silence você também, amigo leitor - ainda que fingindo estar num filme no qual tudo vai dar certo no final. é de deus, se existe deus. se não, ao menos é um afago em qualquer alma cansada das pequenas guerras cotidianas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

maria berenice é deus, digo, direito de família sentimentalizado.

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tenho uma cliente em processo de separação judicial mega-litigiosa. brigam pela pensão da criança, pela casa de que o ex foi enxotado pelo senhor oficial de justiça, pela empresa, enfim, por tudo. os barracos judicias são no mínimo semanais, porque o cara evidentemente quer importunar. o que chama a atenção é o fato de a mulher volta e meia ter crise de consciência e pena do ex. ele deu um jeito de embolsar todo o patrimônio dela, quer arrancar dela o pouco que sobrou através de artifícios pouco ortodoxos, é uma puta que viaja todo ano pra vegas, joga o filho contra a mãe e se recusa a pagar pensão. e ela sente pena? ha.

o fato de uma mulher linda e loira estar tão acabada por um ex coroa e casca grossa e de pensar seriamente em desistir de lutar pelo que é seu de direito pode, sim, ter explicação. não racional, mas uma explicação plausível. o fato é: a dona fulana foi deixada e humilhada pelo senhor coiso, e é essa a razão do seu “afeto”. sim, “afeto”, porque o homem a afeta constantemente da pior maneira possível: matando seu amor próprio. aposto um rim que essa moçoila voltaria pro marido ao estalar dos dedos dele – dedos certamente sujos de profissionais do sexo e de outros pequenos pecados.

ela tem uma família estável, profissão, grana, é linda, tem um filho lindo, mas cometeu o erro de se casar com um salafrário. no belo dia em que o cara percebeu que não precisava mais daquele casamento, que tinha recursos pra se jogar na vida bandida classe a, se mudou pra um flat. cá entre nós: pessoas que após a separação se mudam para um flat estão comemorando o recomeço. daí em diante ele começou a jogar golfe, abriu uma balada bem sucedida, passou a viajar quatro vezes ao ano. ela egordou, teve que voltar a trabalhar, não tem dinheiro pra pagar a faxineira e muito menos pra fazer cabelo e unha – mas faz, sacrificando sabe deus o que pra isso. nenhum dos dois é santo, mas o ponto é: esse arremedo de mulher sofre pelo fato de não poder ter aquele homem, o seu coiso. não que não tenha se dado conta de que ele é um merdinha, mas não tê-lo disponível a está matando aos poucos.

é o mecanismo: não é que você seja grande coisa, ou talvez até seja, não importa, mas sua indisponibilidade é que me faz te querer mais e mais. mulheres… tão previsíveis e tendentes à decadência… querem o que não podem ter pelo simples fato de não poderem ter. o duro é quando esse não poder é definitivo, irremediável, irreversível por qualquer circunstância. joguinhos adolescentes são passageiros, mas ter que engolir um ex-marido-pai-dos-nossos-filhos sem caráter como o centro do nosso mundo deve ser mortal. não querer acreditar mas ter lá no fundo a certeza de que as coisas nunca vão se ajeitar deve ser estarrecedor. ou pior: ter que levar a vida mentindo pra si mesma que não quer, enfrentando uma guerra contra seu objeto de desejo, contra o homem que você queria na sua cama, isso deve ser aterrador. é um unilateral não querer querendo – todo mundo vê, menos ela.

não sei como a conta bancária da fulana vai estar ao final de tudo isso, mas estou certa de que é pouco provável que ela se recupere do baque em breve. por birra, por orgulho, por bethanismo ela ainda vai sofrer horrores pela ausência do cara que acabou com a vida dela. vai odiar amando por anos e anos, vai ligar de madrugada com o pretexto de discutir só pra ouvir a voz dele, não vai sair do lugar por não perceber o que – ou quem – é que a congela ali. pobre mulher. pobres mulheres. o mecanismo é tão óbvio, mas a gente só o vê em funcionamento em relação às outras. quanto a nós mesmas, as engrenagens nos engolem sem que o melhor terapeuta do mundo possa remediar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

como é que eu vim parar aqui?

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tem um momento fatal na vida de qualquer um, que é quando você se dá conta: eu era feliz e não sabia. tá, vou explicar melhor. é assim: você vai levando uma vida não de todo ruim – trabalha, namora, tem lazer e bons restaurantes de quando em quando, enfim, vive até bem. aí, numa bela madrugada insone você se levanta num salto com uma sensação desesperadora de que o melhor da vida já passou. é pra matar o guarda, como diriam meus parentes de pato branco.

ilustremos (não que seja o seu nem o meu caso): dois ou cinco ou sete anos atrás você não dava conta de seus compromissos pseudossociais. poderia ir a um bar diferente a cada noite da semana com a certeza de que valeria a pena de alguma forma. nessa época você tinha dinheiros, conhecidos aos montes, um caso aqui e outro ali (e outro mais além), um fígado bonzinho e uma casa em local estratégico. então, o fato de a vida não fazer o menor sentido simplesmente não se tinha evidenciado diante de seus olhos – via de regra embotados, diga-se.

nesse tempo, que hoje parece tão remoto e impossível, sua existência era uma festa. horários, obrigações e moral eram flexíveis. você até gostava de suas maiores preocupações, que consistiam basicamente em sofrimentos românticos premeditados. tá, esse exemplo não se aplica a homens héteros, de maneira geral. nem a pessoas centradas, crentes e decididas. ou seja, se aplica à maioria de nós. enfim, prosseguindo: nessa época você vivia livre e leve, sem se dar conta de que era feliz.

chega, e então, a fatídica madrugada insone a que me referi. você se vê absolutamente sozinho numa cidade estranha, ridiculamente enfiado num roupão felpudo e hesitando em se servir de uma taça de vinho porque amanhã cedinho tem que estar trabalhando. assim se opera a trágica confirmação: ah, como eu era feliz… noutro tempo estaria na enésima taça/dose sem a menor preocupação, poderia acordar a qualquer horário no dia seguinte e com certeza estaria me divertindo nesse exato horário, com perspectiva de melhora ao avançar da madrugada. ou seja: como foi que eu vim parar aqui?

meia hora (e meia garrafa) depois você com certeza estará cogitando fugir pra gringa. não importa pra onde nem pra fazer o quê: barcelona, londres ou paris; servir mesa, fazer strip ou uma pós. o fato é: nesse exato momento na sua cabeça confusa, talvez pelo mal funcionamento do seu fígado empoeirado, esse agora não faz o menor sentido. quando é que sai o próximo navio pra málaga com tripulação incompleta mesmo? como é que faz pra se candidatar à vaga? – se perguntará você.

chego à conclusão que sou uma grande molóide. nada me impede de ir, seja lá pra onde for, em vez de me contentar com doses homeopáticas de vinho noturno pra tapear a saudade do que já foi/fui. pode ser que as coisas melhorem, que tudo se ajeite sem grandes mudanças. ou pode ser que eu pegue aquele navio. cenas do próximo capítulo, que mal posso esperar pra estrelar.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu.

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lá fora, amor,
uma rosa morreu,
uma festa acabou,
nosso barco partiu.

hoje pensei seriamente em te ligar. tá, não foi seriamente, mas pensei com muito carinho em você. eu sempre penso com todo o carinho do mundo em você, embora as regras sociais me indiquem que não deve ser assim. mas o querer bem a gente não escolhe, não tem razão, não precisa fazer sentido. embora sinta sua falta eu com certeza não saberia o que fazer com a sua presença. nosso passado é cinza, nossos presentes são distintos e nosso futuro provavelmente não inclui outro encontro.

sua falta se fez mais evidente quando outro dia vi um anúncio de uma empresa de transportes com um nome que eu jurava ser seu sobrenome. um filme passou na minha cabeça, e tive muita vontade de estar com você de novo. só estar, sem falar nada relevante, talvez rir como sempre rimos, fazer alguma dancinha debochada na noite paulistana, tomar qualquer drink pra conversa fluir melhor. me deu vontade até de ser triste perto de você, porque você sempre pareceu entender minhas fugas de mim, e minhas entradas e saídas e bandeiras. chega a ser narcisista esse sentimento, mas te tenho como um espelho torto.

vivemos na mesma cidade, e nos vemos menos do que quando milhares de quilômetros nos separavam. aliás, não nos vemos at all. não sei da sua vida, mas sinto que ainda sei tão bem quem é você. não acho que voltaremos a tomar expresso atrás de expresso num café qualquer. não penso que tomaremos em segredo cervejas na bela cintra num dia de semana qualquer, mas me vem uma sensação boa ao pensar que existe essa possibilidade, ainda que remota. é uma falta de não sei o que, porque nunca tivemos realmente um relacionamento próximo. talvez falta do que poderia ter sido.

no fim das contas, acho que tenho você como uma possibilidade, uma bela possibilidade congelada noutro tempo. você ficou em mim como uma linda fotografia de sorriso com gengiva vermelhinha molhada de vodca sueca. e o cheiro que ficou é o daquele sabonete azul da loreal misturado com cigarro. tudo muito nostálgico, mas não de uma forma trágica: é o tipo de nostalgia que me faz sorrir bobamente. é assim que eu te definiria em mim: um delicioso sorriso bobo.  

se tudo fosse diferente, a gente passearia por feirinhas de antiguidade nos finais de semana e gastaria horrores com coisas inúteis, iríamos a shows presepada pra não lembrar das apresentações no outro dia, saborearíamos os melhores camarões e crepes e contra-filés, enfim, viveríamos aquela possibilidade de encontro. não deu. pena.

o tempo passou na janela e a gente nem viu. ilusões perdidas, sonhos inúteis, xícaras sujas sem café de amanhã para ser servido – me sinto à vontade pra me dar ao luxo de ser bethânia ao pensar você, que faz parte daquele algo que sempre faz falta, daquela ausência que sempre existirá e será sentida.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

hei de partir.

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ah, se já perdemos a noção da hora
se juntos já jogamos tudo fora
me conta agora como hei de partir

eu te amei mais que tudo. eu daria minha vida por você. sua ausência me doía como um atropelamento. a perspectiva de viver sem você não era viável. mas você se foi, eu me fui, já não somos nós. e minha vida segue plena, após a tempestade.

tenho me perguntado sobre o mecanismo de deletar antigos amores do coração. como é que a gente consegue simplesmente deixar de sentir uma ausência fundamental? temos mecanismos de sobrevivência, claro. substituímos amores passados por outros tão significativos quanto. mas não seria isso amar o amor em si? não seria uma forma de ter o ser amado como meio, como instrumento para atingir o que realmente queremos: o amor romântico de forma abstrata?

sob essa perspectiva, amor não é amor – é paixão. deixar de querer bem, de se importar pelo mero fato de que a pessoa não está torna o sentimento de certa forma vazio, porque passageiro. ou seja, o conformismo é capaz de um tudo apagar. os sucessivos “nós” são circunstâncias na vida de cada um. que seres egoístas somos, afinal: ilhados em nosso próprio ser, não dependemos realmente de qualquer outra pessoa. a dependência até pode existir, mas é passageira, curável como qualquer outra enfermidade. somos indivíduos definidos pela condição da solidão, da singularidade inerente ao “ser”. de resto, é tudo “estar”.

ainda que se na desordem do armário embutido meu paletó enlaçar o teu vestido e o meu sapato pisar no teu, jamais qualquer um de nós queimará seus respectivos navios. o navio de cada um é eterno, e a partida, muito provável. vivemos supostas eternidades românticas, todas elas efêmeras. acreditamos momentaneamente no que não é pra ser – e nada é propriamente pra ser, porque as escolhas determinam o ser. deixamos marcas profundas e somos marcados forte, pra pouco tempo depois estarmos novamente inteiros e com a memória falha. serial lovers, consumidores de gente, parasitas de coração – somos fundamentalmente efêmeros.

e nossos pais? nossos pais insistem , resistem, fazem acontecer sabe-se lá por quê. jamais serão unidade. apenas optaram por permanecer um par, desistiram da eterna procura por uma realidade melhor por entenderem ser suficiente o que têm. nossos pais trabalham até tarde ou assistem a novela das oito pra não pensarem de mais. fagocitaram sua realidade e a tomaram como parte de sua existência. sábios ou loucos, nunca saberemos.

só navegar é preciso; viver é saltar de romance em romance. até que

terça-feira, 19 de abril de 2011

analisando: junkie hearts

cherry

sempre parto antes que comece a gostar
de ser igual, qualquer um
me sentir mais uma peça no final
cometendo um erro bobo, decimal

havia um tempo em que minha geladeira continha somente alguns ítens básicos: cerejas, azeitonas e uma caixinha de leite pra tomar com nescau de manhã. no congelador, forminhas de gelo e algum destilado cremoso. ou seja, só o mínimo indispensável para uma sobrevivência desprovida de sobriedade. nos armários da cozinha, uma gama de produtos com a validade expirada, pó de café fresquinho, nescau (nunca toddy!) e, às vezes, um potinho de nutella que nunca chegava ao final. sim, decadente, mas, cá entre nós, que saudade daquela vida singela em que meu destino, seja lá qual fosse, não passava de uma abstração sem grandes pretensões. afinal, quando pouco se tem, mais que isso é luxo.

de lá pra cá eu amadureci, mas não posso afirmar ao certo que cresci. tomei jeito, como diria minha mãe, mas não um rumo. hoje meu corpo é relativamente saudável, meu futuro é previsível e, de certa forma, promissor e (mais uma vez) estou em vias de me tornar a senhora de alguém. tudo ocidentalmente perfeito. se é assim, de onde vem esses meus suspiros recheados de nostalgia e essa vontade de me abraçar numa garrafa de vodca e não largar que volta e meia me assedia ultimamente? sim, meu junkie heart continua batendo meio descompassado nesse peito.

junkie hearts têm menos a ver com entorpecentes de qualquer natureza que com a inquietude de existir de forma plana. seus portadores nasceram pra ser personagens esféricos de um romance vagabundo qualquer. quando a trama cotidiana se torna demasiado previsível ou toma ares de capítulo final de novela das oito, é certo que a carne pulsante do centro do peito vai se rebelar. começam então insônias, insatisfação sem motivo aparente e vontade de ir embora, sem importar pra onde. é o coração querendo puxar o tapete da felicidade calma estabelecida há tempo maior que o habitual.

analisando friamente, essa dificuldade em acomodar-se tem um quê de síndrome de peter pan. parece difícil se conformar com uma realidade de responsabilidades e rotina. é doloroso conviver com o previsível, a curto e a longo prazo. é intragável o tal do conforto por inércia. idéias sem dúvida auto-sabotadoras, mas recorrentes e difíceis de calar. se você olhar com atenção certamente verá sobre as cabeças de alguns de nós balõezinhos teimosos com os dizeres “eu quero ir embora!”, quando tudo parece perfeito pra nós.

na verdade continuo sob a mesma condição: distraindo a verdade, enganando o coração.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

o mundo pós-aniversário

velas

o primeiro capítulo descreve um casal de americanos radicados em londres. ele, cientista político; ela, acomodada ilustradora de livros infantis. vivem muito bem, obrigada, até que, numa das viagens a negócio de lawrence, irina sai pra jantar, meio a contragosto, com um amigo do casal – ramsey. ele é um dos melhores jogadores de sinuca do mundo e, pela descrição da autora, a versão cinematográfica teria hugh grant no papel – ou seja, irresistível. ao final desse jantar, que foi muito melhor que ela pudesse imaginar, e ao final do capítulo, os dois estão a centímetros um do outro, irina enlouquecida de vontade de beijar o homem, que já tinha dado sinais nítidos de admiração por ela.

a partir daí, todos os capítulos são duplos. o primeiro 2 parte de o beijo ter acontecido; o segundo, de ela ter se esquivado e voltado comportadamente para sua vidinha cor-de-rosa. a princípio, poder-se-ia pensar que os desenrolares distintos são, de um lado, ela ter feito a coisa errada e, de outro, a coisa certa. ao decorrer do livro, entretanto, vemos que as coisas não são tão simples e que uma pequena decisão pode ter o bem e o mal contidos em suas consequências – para todas as partes envolvidas. o moral dilui-se quando dá-se um passo além das aparências, e é impossível rotular quem é mocinho e quem é bandido nessa história perturbadoramente verossímil.

a vida em que irina beija ramsey é inundada por uma paixão avassaladora. o marido certinho passa a ser hostilizado por sua bondade, até o ponto de ele se desculpar por existir enquanto ela o deixa chorando na chuva pelo outro. passa então a ser a esposa da celebridade rasa intelectualmente, vivendo em sua sombra sem se  importar com isso. por aí a história vai, numa paixão vermelha, cheia de brigas explosivas entre o marido temperamental e excessivamente ciumento e a mulher subserviente. apesar dos constantes atritos e de ramsey ser cheio de manias, ele é um lord, a protege e defende e é fiel, o que traz pra ela momentos de felicidade suprema.

por outro lado, na vida em que irina não cede aos seus desejos, seu relacionamento de quase dez anos continua como sempre foi. lawrence, por quem ela agradece aos céus todos os dias, é um intelectual que a incentiva profissionalmente, embora não seja dado a sentimentalismos, recuse a cerimônia de casamento que ela tanto quer e variações no sexo de cada dia. apesar de ser um homem correto e trabalhador, em várias passagens do livro dá-se a entender que tem um caso com uma colega piranhosa de trabalho, a ponto de às vezes hostilizar imotivadamente irina e agir dissimuladamente. pelo bem da relação, ela fecha os olhos para isso, e não só finge que não vê, mas efetivamente fica cega para qualquer sinal de traição.

a insinuação de traição de lawrence não é confirmada, embora no livro 1 ele acabe se casando com a piranhosa. em nenhuma das versões a felicidade é intrincada, e em ambos os casos não há final feliz ou infeliz – há vida, com suas alegrias e percalços. em razão disso, esse é um livro para poucos: não há “moral da história” nitidamente delineado, não há maniqueísmo. há, sim, descrições nuas e cruas do humano, de rumos incertos e imprevisíveis a que cada simples decisão pode levar. é o tipo de história que faz a gente pensar – pensar muito, pensar dolorosamente –, sentir uma empatia assombrosa, e, com certa frustração tipicamente ocidental, não chegar a conclusão alguma. o que sobra, ao virar a última página, é a incômoda sensação de que deus não escreve certo nem errado, mas de que as linhas são irremediavelmente tortas.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

coco

(coco chanel)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

dddd

sexta-feira, 30 de julho de 2010

doces águas do equívoco.

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era ana, pedro, era ana a minha fome, era ana a minha enfermidade, ela a minha loucura, ela o meu respiro, a minha lâmina, meu arrepio, meu sopro, o assédio impertinente dos meus testículos.

..lavoura arcaica, raduan nassar..

amor romântico é mais um dos clichês absolutos. borboletas agitadas no estômago, sorriso bobo permantente, drogas cerebrais deleitando e amolecendo o corpo, necessidade inexplicável de estar próximo. você sabe que vai dar em nada, é sempre assim, afinal, mas nem por isso deixa de se jogar de corpo e alma no precipício da vez. sim, é sublime, é cor-de-rosa, é novidade para o ritmo do coração, mas sempre é mais um romance, mais uma paixão, talvez mais um amor – mas que inevitavelmente vai te quebrar as pernas e apodrecer o fígado ao final. ou não, diria você, pouco escolado nas armadilhas da vida aos pares. basta olhar para os lados e você verá que esse ou não não cabe. é provisório, conforme-se. nunca é pra sempre, beibe.

eu já acreditei em abraços-e-carinhos-e-beijinhos-sem-ter-fim. já enxerguei amor onde havia um cronômetro em contagem regressiva num tic-tac ensurdecedor. já elegi o melhor sexo do mundo até mudar de idéia ao último grande encontro de corpos (a propósito, sparkling: é esse o adjetivo, nessa língua, assim sonoro, remetendo a fogos de artifício subvertendo o céu norturno, é essa a palavra indicativa de perigo quando lhe vem entre lençóis). eu já mudei os rumos da minha vida por alguém e já acreditei em ser feliz para sempre como nos contos de fada. balela. é momento, circunstância, romance de folhetim. interesses mútuos até que a maré das circunstâncias tomem rumos opostos e afoguem a parte que fica pra trás – sim, alguém sempre vai encher os pulmões de água salgada até recuperar o ritmo da respiração pra se curar apesar das cicatrizes que as tragédias amorosas deixam desenhadas na gente. assim sendo, depois de certo tempo a gente passa a enxergar no espelho uma pintura impressionista mal feita, torta, derretida, sem sentido algum. e aí a gente se fecha, até que algum desavisado tão borrado quanto a gente ache graça na bagunça em que nos construímos/destruímos e outro encontro temporário se arquitete.

imagino que seja uma noção comum, essa, a de que já estamos tão avariados que a própria avaria, em sua totalidade, acaba nos deixando mais seguros. será? existirá um ponto de extrema secura em que nada mais pode nos magoar? haverá o dia em que a redoma de proteção, a bolha dos avulsos será de fato eficaz? cheguei a adotar essa possibilidade como verdade, mas os rumos do coração a gente não escolhe, mesmo sabendo de coeur o mecanismo dessas histórias, sempre a dor arenosa do deserto nassariano pra finalizar mais um equívoco. e a última queda é sempre a mais doce, a que escorre mais densa, lenta e prazerozamente, a que aos poucos nos consome a ponto de nos levar a acreditar em tudo pra logo após desacreditar no mundo e desistir temporariamente do conforto de não ser só.  

talvez realmente não possam o tempo e os caminhos tortos que a gente toma corromperem nosso consurmir-se avassaladoramente em amores incertos, talvez a lucidez seja inseparável do tormento, talvez. pode ser que só assumindo riscos e apostando inveteradamente na frágil deontologia do amor sejamos felizes e completos, ainda que aos pingos. e mesmo você que já nem sabe quem é, tantas as vezes que se reconstruiu do aparente nada, há de concordar: só os bichos são realmente fiéis, digo, cedo ou tarde alguém que lhe pareça divino vai te fazer mais uma vez perder o prumo e apostar as fichas que você já nem sabe se tem numa possibilidade – sim, uma mera possibilidade. e quem não quer? eu digo sim, eu quero sins.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

The Time Traveler's Wife

i never wanted to have anything in my life that i couldn't stand losing. but it's too late for that.

(henry de tamble, the time traveler’s wife)

tnt

 dynamite-sam

de repente te pegas acendendo um cigarro na ponta do outro que foi aceso na ponta do anterior e assim sucessivamente de maneira que já perdeste a conta das bitucas e das tragadas profundas e das horas e horas que te encontras nesse espiral de incerteza e falsa calmaria e suspiras de-va-gaaaar com essa gente de cabelo cor de fogo que te remete a lugares onde nunca estiveste e pra onde gostaria desesperadamente de tele transportar tua alma, aquela que já não tem paz há infinitos dias e noites, semanas talvez, mas já passa das cinco, hora de abrires os trabalhos com o primeiro drink da noite que ensaia sua chegada, hora de amaciares tua alma pra aproveitares mais e melhor aqueles breves instantes em que o céu muda de cor a cada minuto e que, bem sabes, só de abrir os olhos e respirar o fresco tudo parece estar no seu exato lugar, não importa muito a latitude ou a longitude em que te encontres levas a doce certeza de que o caos sempre cessa momentaneamente nos anoiteceres como que por encantamento e, infantil, repetes mentalmente passes de mágica empoeirados da tua infância na esperança de que aquele breve presente se prolongue mais e mais, de que os ponteiros da tua alma congelem ali, onde está constantemente anoitecendo – sim, anoitecendo, porque já não presencias qualquer tipo de amanhecer cheio de graça de que falam os poetas desde sabe deus quando, e isso não tem importância desde que te aceitaste como este ser feito de estranhamentos e fugas constantes, precário e altamente inflamável, és pólvora à espera de qualquer faísca pra te consumir em chamas, ou de algum líquido pra te encharcar e assim te tirar da beira do abismo em que caminhas trôpega sem pára-quedas nem rede de proteção pra amortecer a queda que fatalmente virá pra te redefinir num amontoado de cacos cortantes, partes de um todo que jamais será recomposto da mesma maneira que antes, o que não te desagrada de tudo, porque pode ser cômodo te reconstruíres em figuras inesperadas e indefinidas sem nada esperar ou desesperar, e pode no final das contas sair algo bonito, flor radioativa pra enganar algum desavisado que te colha delicadamente e aspire teu perfume mortífero iniciando a própria morte lenta-linda-dolorosa a que o conduzirá mais esse brevíssimo navegar impreciso teu, pois só sabes ser bússola enlouquecida, contramão, avesso, és o equívoco macio capaz de fazer naufragar tripulações inteiras em mares de risos e falsos festejos, és a escolha mais óbvia, a mais sedutora, a inevitável e, no entanto, és sempre um erro de cálculo para os inocentes, o atalho mais curto para o beco sem saída de uma tragédia – a tragédia que és tu –, e do belamente trágico te nutres e segues acendendo cigarros em pontas de cigarros acesos em pontas de cigarros anteriores a cada anoitecer e a cada engano sutil e a cada afago porco que ofereces quando pedes para que fiquem, para que cuidem de ti, como se fosse questão de mero reparo toda essa bagunça em que te derramas cada vez que alguém ultrapassa tua linha de segurança, e pela enésima vez juras o eterno e o incondicional a quem só legarás confusão e faltas de ar a cada breve movimento teu, e assim te afundas cada vez mais na espessa lama de culpa e miséria em que te afogarás cedo ou tarde, pois cedo ou tarde não haverá resposta aos teus pedidos de socorro e de colo e de aconchego e só te sobrará a última queda, a queda definitiva rumo ao inferno particular que cultivaste com cada mentira que disseste, com cada olhar que desviaste, com cada promessa que quebraste, com cada frase que não terminaste,

terça-feira, 25 de maio de 2010

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sometimes i've believed as many as six impossible things before breakfast.

(alice, alice in wonderland)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

once.

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and games that never amount
to more than they're meant
will play themselves out

once é filme para poucos. para a maioria pode parecer bobinho, mais um quase-musical sem final feliz. não gosto de musicais, e esse não é o caso. trata-se de uma história de amores e desamores temperada com canções de cortar o coração. nenhuma delas é feliz ou romântica no sentido hollywoodiano da palavra. coisa de europeu. enfim, de partir corações sensíveis e dar vontade de cortar pulsos dos que sofrem – com um sorriso bobo no rosto, diga-se.

há tempos eu não passava pelo soundtrack todo desde hoje. começou com kings of leon, que passou pra regina spektor que, fatalmente, caiu no once. queda livre musical dos corações desiludidos. é impressionante o poder da música de nos levar longe, longe… de trazer à tona sentimentos que nem lembrávamos terem existido em nós. e não em relação a alguém específico, mas a sentimentos em abstrato, à sensação de saber que esse tipo de céu ou de inferno pode vir (ou voltar) cedo ou tarde.

de repente, numa conversa virtual despretensiosa me veio um vontade de viver, de vomitar tudo o que de repente se evidenciou e começou a me sufocar, mas faltou coragem. até porque dessas coisas do coração nunca dá pra ter muita certeza – afinal, não estamos num filme com trilha sonora irretocável. já vivi o suficiente pra aprender que informação é ouro, mas silêncio pode ser diamante. a gente volta e meia tem um crush por alguém, mas sempre é mais seguro manter em mente que precisamos amar mais a nós mesmos. e quando a coisa é duvidosa, melhor calar. sempre, sempre, sempre. aqui vale ser racional. quer dizer, acredito eu. não sei mais nada.

no filme, ao final, cada um tenta correr atrás de amores imperfeitos deixados pra trás. se houvesse a parte dois, tipo “twice”, estou certa de que teria dado tudo “errado”, no sentido de não ter havido reconciliação duradoura. ao menos não plenamente. e, se houvesse essa segunda parte, eles se encontrariam novamente em londres pra perceber que aquele retrocesso só serviu pra abrir-lhes os olhos pra ver que não, não era nada daquilo, que quando menos se espera vem a pessoa com quem você se identifica e conversa de igual pra igual e, embora tudo pareça errado, aquele que te fez ver tanta beleza em meio a tudo o que parecia perdido é quem mais tem potencial pra te aconchegar num ninho de felicidade.

neste exato momento eu tenho vontade de correr pra muito longe, e covardemente deletar essa confusão que me veio sem que eu procurasse. neste preciso minuto eu queria não sentir tudo isso, seja lá o que isso for, nem estar lentamente naufragando em dúvidas pequenas. neste agora uma nuvenzinha cinza de procedência desconhecida me sinaliza pra arranjar com urgência uma guarda-chuva pra me proteger da tempestade que logo há de me atingir. mas eu adoro me afogar em tempestades…

resumindo o filme: se for pra me querer, que seja inconseqüente. noutras palavras: ferido de mortal beleza. resumindo meu filme: is it a choice that we even have?

terça-feira, 23 de março de 2010

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- in any case... suffering.
- endless suffer.
- the kind of suffering that never ends.
- a shitload of suffering, is what i'm saying.

(500 days of summer)

i can't go any further than this.

sife

você sai de perto, eu penso em homicídio
mas no fundo eu nem ligo

tão rápido como chegou, partiu. fogo-fátuo, estrela cadente, piscar de olhos. sem marcas ou cicatrizes, sem lembranças ou esperanças. abraços frouxos, beijos ocos e palavras fajutas. é bom de vez em quando visitar o lado b das relações que nem chegam a ser relacionamentos: fast food pra saciar a fome, enganar a vontade e seguir mal nutrida.

não adianta escrever, telefonar ou gritar. desculpa não é desculpa, e qualquer passo seu nesse sentido é perda de tempo e de energias. eu tenho um coração grande, gordo e derretido. eu sei perdoar e relevar, mas eu não quero. não agora, não você. vou fazer as coisas diferentes dessa vez. vou me preservar, me poupar, seguir adiante – não vou pagar pra ver. e por favor não escreve mais, não telefona outra vez, não grita de novo.

é claro que eu não queria que fosse assim. sempre prefiro o encontro ao desencontro, digo muito mais sins do que nãos e me deixo levar por sorrisos e canções. não, eu não tenho certeza de nada. só que dessa vez vou pegar o caminho da esquerda, aquele atalho, aquela descida. vou correr do seu amor porco, das suas meias verdades, de toda a sujeira travestida de carinho que você insiste em jogar no meu quintal. as suas xícaras sujas dos cafés da manhã ou da tarde não sou em quem vai lavar.

agora não faz muito sentido saber que aí doeu, que não era nada daquilo ou que você vem pra me ver. eu não vou mais estar aqui. a casa vai estar vazia, a porta fechada e eu mergulhando num mar verde e quentinho há milhares de quilômetros daqui. engole suas frases feitas e aborta o plano das noites perfeitas. agora sou em quem te deixa com a mão estendida em espera. não preciso de bomba, de flit ou de qualquer outra arma branca. hoje pra você eu sou um não.

domingo, 21 de março de 2010

analisando: a arte de [tentar] enganar.

perdedor

você pode ter dezessete ou trinta e sete anos, não importa, se não sabe brincar melhor não descer pro playground. escutem esse conselho, amados amadores. estamos falando de traição, de pulada de cerca, daquela escapulidinha que poucos têm talento e sangue frio pra manter em off. a arte de enganar é para poucos. ao menos pra poucos homens, porque nunca vi mulher fazer serviço pela metade, digo.

pode ser que chegue a hora em que você esteja feliz [ou não] com seu relacionamento e, apesar disso, se veja arrebatado por uma terceira pessoa. se você se permitir chegar a esse ponto, a cerquinha que protege você e seu amor de todas as filas invisíveis do mundo vai te parecer tão sólida quanto gelatina. sem que você queira ou mesmo se dê conta, seus conceitos vão se tornar mais elásticos, sua moral mais libertina, seus limites mais além. questão de tempo pra que olhares se tornem conversas ao telefone ou ao msn, pra que essas conversas se tornem encontros e pra que esses encontros se tornem sua própria cova, inocentemente cavada por ninguém menos que você. se não, vejamos.

vamos focar esta análise nos homens, que são geralmente mais volúveis e mirins nesse departamento. antes de mais nada, vamos estabelecer o básico: independente da data na sua certidão de nascimento ser impressa ou datilografada, conforme-se: você é moleque. ponto. logo, logo, portanto, vai estar pedindo pra sair da enrascada em que se enfiou. começa tudo com gosto de brincadeira, você se deixando levar por hormônios e por essa verruguinha que carrega aí no meio das pernas [que você provavelmente chama por algum apelido ridículo e inexplicável]. é um misto de esconde-esconde e pega-pega, sob medida pra sua imaturidade emocional.

acontece que a mistura de sexo, tesão e perigo tem efeito nefasto sobre o bom senso e, na falta deste, você fatalmente vai deixar rastros das suas escapadelas. vai sempre ter uma mensagem ou uma chamada no celular, vai sempre ter um log ou um e-mail no mac, sempre um atraso ou uma ausência pra te entregar. e você, ser sem muita criatividade, muito provavelmente vai pegar pra affair alguma moçoila com número pequeno de graus de separação da sua oficial, ou seja, sempre vai ter a amiga de uma amiga a par de tudo. mulheres competem, é claro, mas depois que aquela conhecida da amiga estiver satisfeita em ver o par de galhos crescido na fronte da sua namorada, esteja certo de que ela vai dar um jeito da sua cafajestagem chegar aos olhos e/ou ouvidos da sua pequena. e aí, meu bem, não sei se é pior [pra você, claro] ela te dar uma surra de tamanco salto sete ou fingir que não sabe. sim, fingir, porque particularmente as mulheres sempre acabam sabendo.

repito: não sabe brincar, não desce pro play, porque se fizer mal feito, se der a mínima brecha, esteja certo de que é questão de tempo pra que um passarinho azul leve a notícia pro lado de lá. não vai ser fácil dormir sem saber se a ave da verdade já cantou e se a vingança feminina, sempre fatal, acontece [ou já aconteceu] diante de seu nariz sem que você nunca vá perceber. porque a tamancada na cara pode até não vir, mas um sutil tapa de luva sempre vem, garanto. e aí, amador? pensando em pedir pra sair? tudo isso é pouco pra você que se acha tão esperto e, no entanto, obviamente nada entende da alma feminina ou de jogos que não de tabuleiro, bola ou baralho.

acredito seriamente na possibilidade de maquiavel ter sido nada menos que uma mulher com barba. nicolete maquiavel, guia espiritual onipresente nos corações sujos de todas as mulheres. eu disse TODAS as mulheres. portanto, nem tente se enganar com seu docinho com olhar meigo e fala macia. ou se engane e seja feliz, mas esteja certo de que quando você cogita a ida ela já voltou, tomou um banho e se enfeitou num sorriso pra manter você exatamente onde ela quer que você esteja.

sexta-feira, 19 de março de 2010

é de mágica.

 heartpillllll

pensaste que por já teres vivido tantos amores e desamores havias chegado ao ponto de controlar a situação. ledo engano… cada amor é único, e toda vez que um novo alguém despertar em ti uma revoada de borboletas naquele espaço entre o umbigo e o coração será como a primeira vez – sublime e assustador. nessa hora não importa quantos corações já partiste nem em quantos pedaços o teu já foi triturado. apaixonar-se é sempre começar do zero.

depois de ter sido madura e adulta nas tuas últimas relações-de-verdade, tudo te parecia claro e pré-resolvido. tinhas na ponta da língua a palavra certa pra cada momento e o movimento exato pra cada situação clichê que te viesse nas próximas vezes. tudo isso até noutro dia quando te perguntaram um displicente “como vai?” e sentiste um impulso arrebatador em responder “amando! nas nuvens!” ou qualquer coisa parecida. contidamente disseste um “bem, obrigada”, mas com aquele leve sorriso de canto de boca indisfarçável dos que têm um novo amor. pra onde foram toda aquela segurança e frieza de mulher bem resolvida das quais tinhas a mais absoluta certeza? se dissolveram em calafrios, meu bem – tu bem sabes.

paixão chega sem aviso prévio, vem do improvável, transformada de outro sentimento inócuo ou mesmo de uma brincadeira. e vem forte, derrubando tudo, fazendo desmoronar certezas e resoluções – irresistível. não adianta correr, porque ela está dentro, impregnada, fundida na tua carne que já não consegue descansar diante daquela inevitável presença vermelha que não sai de ti. tentarás dizer pra ti mesma que não vale a pena, que é coisa pouca, que amanhã sara, mas no fundo sabes que a partir de então o ponteiro da bússola da tua alma é unidirecional, que é pra esse norte que levam todos os teus caminhos.

pode ser que estejas cansada e desiludida ou até que tenhas acreditado por um tempo que já não há espaço pra amor em ti. talvez teu coração tenha passado um período de bater mudo, de bater fraco, tranqüilamente sem expectativas. mas quando ela vier – e é questão de tempo pra ela novamente chegar – não te enganes nem percas tempo tentando negar o que não tem remédio: estás apaixonada outra vez. ainda que te afastes de quem te tira o prumo, a teia depois de iniciada cria vida própria, e te enredará tão suavemente que quando te deres conta será impossível fugir. sonharás acordada e esperarás sempre por um encontro extraordinário que mudaria tua vida para melhor. teus dias perderão o sentido até estares na presença de, e teu sorriso já não será o mesmo a menos que teu amor esteja perto.

nunca vai ser igual, nunca vai ter resposta, nunca tua postura ou teu jeito de caminhar serão os mesmos. só a ansiedade com que esperas o telefone ou a campainha tocar numa surpresa boa nunca mudam. beijos e abraços são sempre únicos, e os últimos são sempre incomparavelmente os melhores porque temperados com aquela pimentinha vermelha mágica. e são de mágica todos os momentos, cada pequeno acontecimento, cada encontro e cada olhar. é de mágica a paixão tua de cada dia, que pelo menos por enquanto é a mais perfeita expressão do divino. a essa altura te obrigarás a admitir que não entendes e nunca entenderás nada dessas coisas do coração, que é mais fácil vivê-las sem pensar muito, que sempre vale apesar de qualquer pesar.

mais uma vez quando te deres conta, ainda que contra todos os teus projetos de vida, estarás amando loucamente. novamente teu mundo e tuas escolhas girarão em torno de. sem que tenhas escolhido, teus planos sempre incluirão aquele alguém, aquele de quem queres tudo e esperas nada, desde que perto. sonhos e amanhãs só te parecerão fazer sentido quando tua nova metade fizer parte deles. e mergulharás de cabeça numa história sem final escrito e te perderás nos caminhos de quem te desorienta e aceitarás o pouco ou o muito, não importa, que te oferecerem e terás felicidade nos mínimos não tão óbvios para os que não sofrem dessa febre vermelha pela qual foste acometida mais uma vez e da qual não tens a menor vontade de se curar. de mágica até que se torne de lágrima.

sai desse corpo, camille!

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il y a toujours quelque chose d'absent qui me tourmente.

(camille claudel)  

levanta dessa cama, vai. as coisas não podem ser tão ruins assim aí dentro e, se forem, escondê-las debaixo desse edredon não vai resolver. toma um banho, lava o rosto e a alma pra poder encarar o dia. assim, um de cada vez, sem medo do pra sempre. ontem eu encontrei uma blusa vermelha sua, que você não veste há anos. há tempos não te vejo enfeitando um decote profundo ou saltos finíssimos. há muito não te vejo gostando de si, gostando de ser. desde já não sei quando sinto falta de você.

é claro que tudo não vai se consertar num estalar de dedos, e que essa sua dor enorme não vai se curar com tylenol ou dipirona. a falta que te esmaga pode não ter fim, mas você precisa reaprender a respirar fundo e a olhar para os lados. não posso mais te ver caminhando reto rumo a sei lá o que, mesmo sabendo que esse caminho não te serve mais. e não posso te pegar pela mão e te mostrar as infinitas esquinas para outras direções a menos que você me a estenda. sinto falta de te ver chorar de rir e cantar num portunhol porco músicas do caetano e rodar e rodar até ficar tonta pra cair no sofá desnorteada e faceira. eu quero mais uma vez um sorriso nessa sua boca e brilho nesses seus olhos, mesmo que pra me enganar.

entendo quando você diz que tudo parece torto e errado e morto. acredito que você se sente doente, fraca. mas tudo isso vem daí de dentro. essas febres são somatização desse mundo torto-e-errado-e-morto que você construiu onde insiste em se esconder. sim, essa dor é só sua. sim, só o tempo leva. e sim, ninguém pode viver isso por você. mas pra onde esse emaranhado de dor e tristeza pode te levar além do ponto em que você já chegou? mais que isso é o nada, é o fim, é a porta do hospício, honey. daí pra frente não é um túnel, é um buraco sem fundo que você mesma insiste em cavar. se permite um pouco de paz, deixa essas chuvas de verão lavarem toda a sujeira. esse estrago é irremediável, mas não é o último, você sabe, e talvez nem o mais cortante. deixa seu coração voltar a bater sereno e seus pés pisarem leves na cidade sem fim outra vez.

sempre haverá alguma falta a te atomentar. sempre haverá os poréns, e sempre os quases pra te tirar o sono. dessa vez vai passar, cedo ou tarde vai passar, depende um pouco de você. mas certamente outras faltas virão, e outras pequenas ou grandes mortes, e outros irremediáveis e doloridos finais. é uma vida cadela que não controlamos e que a qualquer momento pode virar tudo ao avesso – para o bem ou para o mal. você só não pode se deixar assim, chumbada, acabada, jogada na sarjeta a espera de um caminhão pra atropelar sua miséria.

me dá sua mão, vamos sair pra uma volta no quintal, que é seguro. depois partimos pra uma volta na quadra, pra uma caminhada até o parque e assim por diante até você sentir firmeza pra ganhar o mundo com o peito inflado de vida. te quero bem e te quero linda e te quero aprendendo a conviver com os percalços que sem dúvida virão. como disse caia, alguma coisa sempre faz falta. guarde sem dor, embora doa, e em segredo. seu sofrimento não precisa transbordar e inundar tudo à sua volta. essa dor não precisa se materializar em você. zipa e esconde ela numa sub-sub-sub-pasta  do coração, num lugar que você tenha muita dificuldade de encontrar. é possível desviar desses cantos escuros da alma e prosseguir como se estivesse tudo bem – até o dia em que tudo de fato vai estar bem.

sexta-feira, 12 de março de 2010

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(love actually)

segunda-feira, 8 de março de 2010

bench

- you never wanted to be anybody's girlfriend, and now you're somebody's wife.
- surprised me too.
- i don't think i'll ever understand that. i mean, it doesn't make sense.
- it just happened.
- right, but that's what i don't understand. what just happened?
- i just... i just woke up one day, and i knew.
- knew what?
- what i was never sure of with you.

(500 days of summer)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

pulp-fiction-1

- don't you hate that? 
- what?
- uncomfortable silences. why do we feel it's necessary to yak about bullshit in order to be comfortable? 
- i don't know. that's a good question.
- that's when you know you've found somebody special. when you can just shut the fuck up for a minute and comfortably enjoy the silence.

(mia and vincent, pulp fiction)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

3

- do you know what it's like sleeping in your bed without you?
- no. what's it like?
- it's miserable. i can smell you, but i can't touch you.

(spread)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

não poesia [cachalote mon amour]

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eu me lembro de ti todos as noites e todos os dias
em meio a toda essa não poesia
e me lembro de ti especialmente
nos anoiteceres enfeitados de café e cigarros – 
tristes anoitecers sem ti, amada.

me lembro de ti cada vez que vejo olhos grandes,
bocas vermelhas ou maxilares quadrados,
nuvens, nuvens, algodões
ou amores tatuados em braços.
me remete a ti qualquer abraço.

à beira do mar aberto sem ana
eu entro no meu carro e corro exagerado,
olhos nos olhos, fera ferida,
encontros e despedidas.

amores que vacilam me lembram tu,
assim como festas e fogos de artifício,
cervejas em copacabana ou coqueiros,
marlboro na sacada ou na calçada.

meus lapsos de memória, minhas vontades de dançar,
tudo o que é vermelho, tudo o que é perfumado,
tudo o que urge, tudo o que grita dentro de mim,
qualquer gargalhada e qualquer canção
sempre um pedacinho de ti, baleia,

pois eres muito mais que terceira pessoa em mim.

sem o amor só a loucura – parte II

ca 

chegarás ao ponto de pedir pra tua nutricionista incluir uma dose de uísque no teu cardápio diário. quem sente falta de algumas colheres de arroz ou de uma barrinha nutry, afinal? madrugadas insones em companhia de johnny ou de jack são consideravelmente menos ásperas, justificarás. sim, a sobriedade pode ser demasiado dolorosa pra quem se entrega por mínimos. e ao longo dessas madrugadas sem fim perceberás que a vida não passa de uma brincadeira de roda, onde vêm e vão sentimentos e fomes. viverás um dia de cada vez, guardando cada vazio num compartimento seguro pra não ser tragada pelo enorme buraco negro em que ameaça se abrir teu peito. literatura barata pra distrair, fotografias rasgadas pra não lembrar, passeios pra te perderes, e entretanto sempre uma ausência pra atormentar e desnudar teus mais profundos vãos. um luto normalmente dura cerca de seis meses. o teu parece prometer aniversários e mais aniversários, e não tens idéia de como mudar o rumo que as coisas tomaram. pensas em desistir, em viver pra sempre de pijamas e pantufas, mas no fundo acreditas que aquele fio de esperança logo vai se tornar um barbante e uma corda e depois uma faixa de pedestres em direção a algum lugar melhor. esse depois parece demasiado longínquo, mas sempre foste de jogar, de arriscar, de pagar pra ver. e pagas, a duras penas, com teu peito rasgado e o coração estraçalhado. pagas com semanas que te parecem séculos, com ausência de paladar e de olfato – com a ausência de ti em ti. segues ignorando sinais vermelhos e placas de contramão, ultrapassando em faixa contínua e excedendo todos os limites de velocidade na vã tentativa esmagar isso que te mastiga e te engole e te vomita novamente pra realidade. segues seco, segues áspero, faminto, faminto, segues sem pára-quedas nessa corda-bamba que se tornou tua existência. deus escreve errado por linhas tortas, não há mal que vem para bem, aqui se faz aqui se dá o calote. é o que te mostram teus passeios mentais por doces mentiras ditas e promessas não cumpridas. segues sem compreender, segues roto, segues morto. segues assim meio sem sentido nesse caminho que não escolheste e que já não importa pra onde vai levar. sem teu amor só minha loucura. minha loucura só sem teu amor.  sem teu amor. minha loucura só.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

dreamers

i think you prefer when the word "together" means not "a million," but just two.

(matthew, the dreamers)

[…] prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno, veneno, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona […] dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas […]

(caio f., à beira do mar aberto)

 

 

 

 

 

hiato criativo.

domingo, 31 de janeiro de 2010

The Dreamers

yes, i'm drunk. and you're beautiful. and tomorrow morning, i'll be sober but you'll still be beautiful.

(matthew, the dreamers)

corações famintos

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o problema de ser um amante nato é ter que passar a maior parte da vida faminto.

mila f. [?]

eu amo, tu amas, ele nem tanto. acredito que amar é um dom. tem gente que simplesmente não nasceu pra isso. saber dar, ceder e dividir não é pra qualquer um, assim como não o são jantares à luz de velas, buquês de qualquer flor e dormir de colher (adoro essa expressão) sempre com a mesma pessoa. quer dizer, qualquer um pode isso, mas em nem todo mundo essas delicadezas atiçam as borboletas. se você não entendeu a qual sensação me refiro ainda não conheceu o amor romântico. meus pêsames. digo.

romance hoje em dia é raro. ele simplesmente não floresce em grande parte das pessoas. e é esse o mundo em que os eternos amadores têm que viver. pra que romantismo se tem camisinha e pílula? pra que flores se tem sms? ora, francamente! pra que uma pessoa que pensa assim se aproximar de outras? melhor ficar só nos relacionamentos virtuais, sem cheiro nem temperatura; melhor assistir a um filminho de sexo; enfim, se for pra se guardar melhor então nem vir.

o problema de ser um amante nato é ter que passar a maior parte da vida faminto. fome de gente, de afeto, do outro. fome de se dar, de amar completamente, de ver em significado cada respiro. com o passar do tempo e das inevitáveis decepções, não há love addicted que não procure uma bolha pra se esconder, pra evitar novas quedas. preferimos a fome ao tapa. escolhemos a secura de ser só pra não perder a esperança, um spa para corações obesos de bem-querer.

eu sinto fome, tu sentes fome, ele é faminto e vamos muito bem, obrigada. saber quando não amar também é um dom. com esse eu não nasci, mas tô me esforçando. sem amor nem só a loucura.  sem amor nem só a loucura.  sem amor nem só a loucura.  sem amor nem só a loucura.