Coincidentemente outra foto comigo sorrindo naturalmente...(isso é muito difícil). Não sei se alguém viu todas as fotos, mas aí tem mais ou menos os 3 anos passados da minha vida, que, como todas, pode terminar a qualquer momento. Aos que nela constaram,obrigado por em algum momento terem estado ao meu lado. Qualquer dúvida perguntem para mim. Se não for possível, perguntem aos que me conhecem ou conheceram um dia. Desejo paz e amor a todos.
Eduardo Brighente Leal Santos
ele tinha um gato preto vira-latas chamado alfredo. ele era meio caipira, do inteior do paraná, mas paradoxalmente conheceu as melhores cidades de todos os continentes [há 5 anos já usava essas cowboy boots que neste ano etão com tudo]. falava espanhol e inglês perfeitos, e arranhava um francês. à sua maneira, era lindo. tinha o cabelo fininho e sempre com cheiro de sabonete de bebê. mas o cheiro da curva do pescoço era sempre outro: givenchy, tommy, pólo, todos fresquinhos ou com fundo de baunilha. fazia tênis pra manter um corpo daqueles e estava sempre bronzeado. era uma puta e me mostrou as primerias fotos re-al-men-te pornográficas que vi na vida – eu tinha uns 13 anos; ele, uns 17.
eduardo era meu primo e um dos meus únicos amigos homens. convivemos relativamente pouco, mais em férias. de certa forma ele se tornou meu modelo de homem. era bonito, educado, inteligente e um tanto quanto cafajeste. a última lembrança que tenho dele foi um encontro logo após eu ter colocado peitos. estava toda enfaixada na cama dele aqui de curitiba. ele tinha dormido num hotel e antes de voltar para o interior passou pra me dar um beijo e conferir os novos peitos da prima. prometi mostrar quando cicatrizassem. não deu tempo. eu tinha o cabelo curtinho vermelho com franja, tipo puta francesa, e ele achou o máximo. tirou várias fotos e rimos muito. depois disso só falei com ele por telefone e internet. trago comigo até hoje o cheiro desse encontro. amor sempre tem cheiro, impressionante.
sempre quis viajar com ele, só nós, os primos devassos, pelas impagáveis histórias que me contava de seus passeios pelos quatro cantos do mundo. foi o primeiro a saber da minha iniciação sexual, e desde então passou a me chamar de “prima safada”. sempre me dava dicas envolvendo “muita língua e saliva”, e eu dizia: ah, se não fôssemos primos…. não por questões religiosas ou morais, mas mais por saber que fatalmente me apaixonaria e que os encontros em férias seguintes seriam no mínimo estranhos. sorte das moçoilas que passaram por sua cama, e que não foram poucas.
nunca vou me esquecer das nossas últimas férias, em natal. ele estava impossível. já chegou no hotel dando bafão, porque o ar-condicionado do seu quarto não ligava. ganhou a suíte mega-master sem custo adicional. ele tinha acabado de pedir uma mulher em casamento só de safadeza. encheu a casa dela de pétalas de rosa após ter tentado de tudo por semanas sem sucesso. funcionou, ao que o sem-vergonha fugiu pra natal e nunca mais mandou notícias. ele era bem assim, inconseqüente, sem noção do perigo. e, apesar disso, adorado por todos.
eduardo tinha uma doença congênita, com pouca perspectiva de longevidade. por isso, viveu como um rei. e adorava viver. fez de tudo e mais um pouco, numa vida digna de mil filmes e livros e biografias. ele não era perfeito, longe disso. mas soube devorar cada segundo em que esteve entre nós. quando se foi, aos 27, acho, tinha enfim encontrado um amor. não que isso o impedisse de continuar na vida bandida, mas ao menos parou de ser perseguido por maridos de moças que ele tinha levado pra passear em buenos aires ou havana. esse é o homem com quem volta e meia sonho. invariavelmente estamos nalgum lugar do mundo que eu não conheço e ele, sim. é reconfortante, mas sempre acordo chorando, com muito frio.
há duas semanas me encontrei com a mãe dele. fomos a um santuário, segundo ela o único lugar onde ele conseguia ficar em paz. fazia muito frio e, como era cedo da manhã, o local estava meio deserto. senti a presença dele no ar que eu respirava. pra cada árvore que olhava podia vê-lo deitadinho ali, com fones de ouvido, pensando no quanto a vida pode ser complicada – e logo após se levantando pra encontrar alguma loira digna de capa de playboy pra levar pra jantar [e jantá-la].
eduardo seguiu caminhos tortos. mandava meio mundo literalmente tomar no cu, mas era uma pessoa generosa. vestiu as melhores roupas, conheceu lugares desenhados por deus – se há deus –, comeu nos melhores restaurantes, fez as melhores mulheres, consumiu o que de melhor o dinheiro pode pagar. e ainda assim viveu sob a sombra de uma morte iminente. não podia beber, não podia fumar, não podia cheirar, e no entanto o fez com a voracidade dos que não têm certeza de um amanhã – ao menos após se dar conta disso, aos 19 ou 20 anos. nas exatas mesmas circunstâncias eu provavelmente teria feito o mesmo. die young and leave a beautiful corpse? nem tanto. mas viver tudo o quão antes, já que o amanhã é incerto.
sinto que o conheço como poucos. quando adolescente, eu era uma das poucas pessoas que podia entrar seu quarto, deitar na sua cama e assistir a qualquer porcaria na tv sem necessidade de qualquer conversa “sociável”. acho que nos entendíamos. queria ter visto mais um milhão de seriados enlatados com aquela criaturinha, e ter tido mais um milhão de conversar inúteis no msn, e ter recebido mais um milhão de ligações de aniversário ou pra pedir qualquer informação sobre curitiba que eu não tinha.
por trás daquela carapuça de moço super bem resolvido havia uma pessoa confusa. é desse homem que sinto falta todos os dias e todas as noites em que ele me vem em sonhos intercontinentais. não tenho crenças em vida além, mas já conheci o mundo sem sair de minha cama com eduardo b. leal santos. com todos as suas imperfeições e faltas e carências, eduardo ainda é meu primeiro modelo de homem [fora papai, que é café-com-leite], parâmetro para todos os homens que me vêm. não à toa meu atual esposo/namorado/amante tem nos cabelos e na casa seu cheiro exato. estranho? talvez. mas me traz uma sensação boa.
obrigada, eduardo, por tudo o que vivemos e por tudo o que embala meus sonos e sonhos. poderia escrever infinitas linhas só pra você, e seriam poucas….