viernes 11 de diciembre de 2009

closer

07

Dan: And you left him, just like that?
Alice: It's the only way to leave. "I don't love you anymore. Goodbye."
Dan: Supposing you do still love them?
Alice: You don't leave.
Dan: You've never left someone you still love?
Alice: Nope.

jueves 10 de diciembre de 2009

sem o amor só a loucura.

 Black_Juju_by_Nachan

para ballena.

chegarás ao ponto de já não estranhar o fato de estar mais uma vez insone às quatro da manhã e pensar seriamente em beber uma ou duas cervejas pra relaxar, mesmo tendo que estar de pé dali a poucas horas para a aula ou para o trabalho. isso acontecerá de novo e de novo e de novo na mesma semana, até o ponto de dia e noite já não fazerem sentido, pois tua mente confusa e sempre meio embriagada de álcool ou cafeína desaprendeu a descansar. agirás no piloto automático, atravessando dias na empresa sem se dar conta do quanto produziu, e noites em qualquer aglomeração que distraia sua miséria. e quando chegares em casa todo final de tarde ou de noite pensarás seriamente em beber mais uma ou duas cervejas pra relaxar, mesmo sabendo que isso só vai trazer mais confusão para tua já bagunçada realidade. perderás a fome e alguns quilos. fumarás dezenas de cigarros tentando preencher esse vazio que não se completa. sem o amor, enloquecerás levemente na cidade sem fim. e tramarás em segredo teus planos de vitória e recomeço, que serão adiados até o surgimento de um bom motivo que parece nunca vir. protelarás decisões e grandes mudanças à espera de. atrasarás teu relógio ao ritmo de qualquer demora, não importa qual, desde que o hoje não pareça definitivo. perderás todas as esperanças de te encontrares, pois aquela com quem te deparas no espelho nunca é a mesma de um segundo antes – aquela que incessantemente morre um pouquinho pela falta de alguém. revisarás inúmeras vezes tuas equações para tentar entender onde tudo aquilo se perdeu, e não encontrarás solução a contento. pensarás em piaf, em jane jones, em julieta e em todos teus antigos finais infelizes, e sentirás um vontade irremediável de consertá-los por mera distração, pra tapear a dor maior – tua grande dor. farás uma nova tatuagem para lembrar o que sem querer queres esquecer e que, no entanto – tu sabes –,  jamais esquecerás.

miércoles 9 de diciembre de 2009

2814635

your lipstick. very pretty. anyway... that's a roundabout way of saying: the shape of your mouth, i could probably draw it by heart.

[will, breaking and entering]

nessas telas, nessas bagatelas

Guy-de-Jean01

será que a gente
é louca ou lúcida
quando quer
que tudo vire música?
de qualquer forma
não me queixo.
o inesperado quer chegar
eu deixo.

dizem que quando menos esperamos aparece a pessoa que nos vai tirar o fôlego e noites de sono. faz sentido. quando estamos à caça de um amor tendemos a colocar no pedestal pessoas que pouco têm a nos oferecer. qualquer possibilidade nos parece uma probabilidade. sendo as relações amorosas delicadas, os equívocos são freqüentes, o que acaba por nos levar a crer que pessoas que valem à pena são raras. não é bem assim. é tudo questão de timing e, claro, de afinidades.

você gosta de homens com pinta de certinhos, preferencialmente engenheiros – que geralmente são racionais, barbudos e sobriamente vestidos. cai de pára-quedas em seu caminho um exemplar dessa espécime em pleno intervalo da faculdade. café, cinema, cerveja, cama. pára por aí. você se sente a mais injustiçada das criaturas e amaldiçoa todos os alunos de Centros Tecnológicos do universo. bobagem. possivelmente foi a pessoa certa, mas na hora errada. como confirmar isso? impossível.

você tem uma queda por homens com jeito de cafajeste, e justamente por isso tem a mais absoluta certeza de que permanecerá avulsa aé o fim de seus dias. embriagada num bar aleatório numa noite de uma dia-feira qualquer, leva pra casa um desconhecido alcoolizado. hoje vocês completam três anos juntos. sabotagem do senhor destino? pode chamar como quiser, mas com certeza foi a pessoa certa na hora certa. como dito, questão de timing. simples assim.

lá no fundo, bem no fundinho, todos queremos ser encontrados, desvendados. mas não o tempo todo. há períodos em que a solidão não é uma escolha, mas absoluta necessidade. por outro lado, de tempos em tempos estamos com a alma pronta para ser colhida e apreciada por qualquer mortal com um mínimo de identidade. é nessas horas que a magia acontece, ainda que efêmera. na maioria das vezes não nos damos conta desses momentos singulares, quando estamos abertos, disponíveis e, conseqüentemente, vulneráveis. aí brotam os traumas amorosos: nos enganamos por mera necessidade de sentir outro alguém próximo. raramente o encontro é de fato encontro, com a reciprocidade indispensável para que o amor aconteça – e aí é que nascem os grandes amores.

tendo a plena consciência de que não há meios pra prever ou ponderar, é tudo questão de deixar que o inesperado chegue. cautela sempre é bom, mas sem um mínimo de risco estamos sujeitos a deixar passar a hora certa de pessoas que podem, afinal, serem as certas para cada um de nós.

                               cinema

i think i'd miss you even if we'd never met.

[nick mercer, the wedding date]

lunes 30 de noviembre de 2009

blablablablaeuteamo

fgvsetr

eu encontrei o amor
e foi como quebrar os dentes
foi cortante e de repente
o amor foi como um acidente
e ninguém se salvou
do amor

não é o fim do mundo, é só o fim de tudo o que fomos nós. não sei de onde essas palavras. o google não me respondeu. acho que de alguma música. volta e meia me vêm à cabeça.

a gente sempre acha que é o fim do mundo quando acaba. sempre acha que não vai ter mais jeito, que não vai passar, que a ferida não fecha mais. e é sempre como se fosse a primeira vez, como se fosse novidade morrer um pouquinho por alguém. e sempre é, na verdade. cada pequena morte com suas peculiaridades. onipresentes são só o gosto salgado escorrendo pelo rosto e a retomada de algum velho vício pra distrair: café, cigarros, vodca.

minhas malas estão no carro. no guarda-roupas só alguns casacos pesados e minhas roupas de cama. ainda não derramei uma lágrima. nas situações limite a gente se faz forte, impressionante. eu poderia partir agora pra que quando você chegasse fosse recebido pelo nada, pelo vazio da minha ausência. poderia deixar um bilhete seco sobre a mesa com instruções sobre as contas do mês, ou poderia partir sem palavra. imagino sua incredulidade e uma pontinha de desespero ao abrir portas e gavetas. te imagino andando de um lado para o outro tentando me telefonar, e enfim caindo sentado em algum canto da casa pra tentar digerir o último “não”. você passaria horas atônito, se achando a última das criaturas e muito injustiçado. depois ficaria com raiva e pensaria em se entupir de cocaína ou em transar com outra mulher, pra logo se arrepender e novamente se sentir a última das criaturas. mas não vou te presentear com esse desfecho.

com a casa meio vazia te espero sentada no sofá olhando para o nada. mais que tristeza sinto sono, na verdade. não posso sair daqui até nos resolvermos. é o que adultos fazem, porque saídas dramáticas só funcionam em filmes. na vida real temos os contratos de aluguel e os bens conjuntos. temos um cachorro e passagens compradas para o verão. dar-se ao trabalho de ir pra depois ter mais trabalho pra voltar não é muito inteligente. então, até que definitivamente não cheguemos a um acordo, eu espero.

me dá preguiça pensar na dr que vem por aí. vontade de jogar a sujeira pra baixo do tapete. mas isso é só adiá-la, esperar pela próxima gota d’água. matemos esse leão de uma vez por todas. nessas horas fala alto meu sangue alemão: frieza e praticidade. embora não me pareça de todo ruim passar uma temporada sozinha, já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas não ter o seu lugar. não me prove que estou errada, ou vou me arrepender de não ter feito uma saída mais teatral.

arrasa com meu projeto de vida, bandida

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para ballena.

não me diz pra parar. não me diz pra continuar. não me diz o que falar, o que eu sinto nem pra que não me veja em você. não me pede pra ter amor próprio. não pára de preencher meu vácuo emocional sem sequer se dar conta disso. não repara quando minhas palavras cessam e meus braços não me obedecem quando tudo o que eu mais quero é te abraçar. não liga se eu choro e fico com os dedos cada vez mais marrons. não me faz seu espinho, flor. mas não deixa de fazer cara de morte quando pensa que eu não sou toda sua. e não esquece que sou sua. não queira me entender - só me queira. não me deixe sem você. nunca.

sábado 28 de noviembre de 2009

take me out!

 Helmut_Newton-TheBigNudesII_-kylie_bax

a gente vive de comparação. nenhum professor será bom o suficiente até superar a professora paula. nenhuma festa será melhor até ser mais esplendorosa que aquela gay do morro da lagoa. nenhuma mulher será mais mulher que a baleia. nenhum homem será o ideal até se tornar ocaña. nenhuma casa é mais aconchegante que a dos meus pais. nenhuma balada é melhor que as embaladas pelo princípio do franz ferdinand. nenhuma viagem é melhor que centro-coqueiros com os vidros abertos tarde da noite ao som de red flags and long nights. nenhum filme é mais dolorido que closer. nenhum sono é tão bom quando o de dormonid. nenhuma sensação é melhor que um fim de tarde alaranjado com moscatel ou café e cigarros, à beira de qualquer água – mar, lago, piscina, poça d’água.

comparação é nostalgia, é chorar o leite derramado. é desejar um pedaço de passado outra vez. é lembrar aquela tarde na praia no verão retrasado regada a caipira de maracujá e lula frita seguidos de bebel gilberto e solidão. é remastigar uma dor ou um amor. é querer mais uma vez aquela subida do morro da lagoa rumo à cida baiana num domingo à tarde, falando de ácido e de feiras de plantas. é chamar o valmor. é arrepiar-se com um passado recente ou não. é mais uma vez chorar ao assistir closer. é reviver o que de bom se gozou, e rir e chorar por isso. é sorrir ao lembrar das intermináveis aulas de direito dos contratos na faculdade, e das saidinhas pra ir ao bar dos servidores tomar só três bohemias com a sucessiva volta para a sala de aula pra achar contratos interessantíssimos. é achar o máximo pagar cincão pra entrar no tião e ganhar sauna grátis, implorando pra marrom cantar cara valelnte a pedido do gabriel barcelona. comparação nostálgica é olhar para o presente e não ver muita graça nele.

como diria o cara do franz, que tomou muito e e é a cara do clive [não o owen], TAKE ME OUT! como eu sempre digo pra baleia, lá na ipiranga com a avenida são joão, TAKE ME OUT! me leva pra algum lugar parecido com aquele tempo em que eu acordava sorrindo e era feliz e não sabia. mentira. sabia sim. meus tempos de bar… que saudade, beibe. saudade do blues velvet, da beira-mar, do mc da beira-mar, de jurerê no inverno, de santo antônio, da mari, do lê dançando pole nas placas da praça no final da noite, daquele bar na quinze, do calçadão, da escadaria e principalmente dos cafés em dias-feira com a baleia. oh, lord, please, TAKE ME OUT!

g point.

an acceptance missed by just a bit of laziness
it's only the unspeakable fear

teu paletó enlaça o meu vestido e o meu sapato ainda pisa no teu

Beauty_and_the_Beat_by_hilarity

ah, se já perdemos a noção da hora
se juntos já jogamos tudo fora
me conta agora como hei de partir

várias pessoas já me falaram sobre a “crise dos dois anos de namoro”. sempre achei bobagem, mas o fato é que nunca namorei tanto tempo. sempre chutei o balde – ou fui chutada – antes disso. me lembro perfeitamente da pessoa que me apresentou essa lenda: karitha, linda, magra e alta, com dois anos de namoro com um cara que parecia o lenny kravitz, só que mais lindo, alto e magro. sei lá se superaram ou não.

depois de dois anos respirando a mesma pessoa o ar começa a ficar pesado. as liberdades são maiores que as de um conto de fadas. os espontâneos “nãos” são mais constantes e o gosto de feijão com arroz se torna evidente, embora ainda saboroso. partir, ficar ou saborear um escondidinho? sei lá. escodidinho sempre me foi indigesto e partir é trabalhoso. mas ficar pode ser amargo de mais.

uma vez vi uma entrevista com uma psiquiatra no jô soares que me foi esclarecedora. segundo a especialista em relacionamentos, tudo se pode resolver através de uma boa conversa, desde que não se deixe acumular excessivamente a sujeira. até então isso funcionou. até então. mas e quando a pessoa não está disposta a dialogar? quando se acha dona da verdade? quando tudo o que se diz entra por um ouvido e sai pelo outro? aí não é conversa, é monólogo, e não funciona.

sabe aquelas situações limite, em que se fosse “uma amiga” em vez da gente a aconselharíamos largar tudo e ir pra londres fazer strip e lavar pratos? poistentão. mas não é uma amiga. sou eu, que já tenho um diploma, um cachorro e um projeto de vida. sou eu, que tenho um coração maior que o mundo. sou eu, que tenho medo. sou eu, que apostei todas as fichas num sujeito indeterminado, tentando em vão decifrar seu índice de indeterminação [com o perdão pela metáfora sintática].

e me flagro ouvindo o chico e pensando cá com meus botões do pijama: com que pernas devo seguir? “me atirei assim de trampolim fui até o fim, um amador”, e “eu sou seu incesto, sou igual a você, eu nasci pra você, eu não presto”, e “foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não se instalou feito posseiro dentro do meu coração”, e “já lhe dei meu corpo, minha alegria. Já estanquei meu sangue quando fervia. Olha a voz que me resta, olha a veia que salta, olha a gota que falta pro desfecho da festa”. pois é… nosso mais-que-perfeito está desfeito?

vai, arrasa meu projeto de vida, bandido, que sou dessas mulheres que só dizem sim, feito um gato aos pés da dona. mas qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água. e me sinto mais uma vez eternamente me guardando pra quando o carnaval chegar.

quem sabe eu volte cedo ou não volte mais

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confesso, acordei achando tudo indiferente
verdade, acabei sentindo cada dia igual
quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante
quem sabe o amor tenha chegado ao final
não vou dizer que tudo é banalidade
ainda há surpresas
mas eu sempre quero mais
é mesmo exagero ou vaidade
eu não te dou sossego,
eu não me deixo em paz

[…]

não é um fato isolado. é a maneira como você vai agir pro resto da vida quando situações semelhantes acontecerem. se pra você isso é companheirismo, acho que sua visão de mundo é equivocada. quando você precisou eu limpei sua bunda e cuidei da casa. agora, você não está aqui, e quando estava vivia bufando e reclamando da sujeira do nino, da máquina de lavar, do lixo que se acumulava, de tudo, como se estivesse me fazendo o maior favor do mundo em manter a SUA casa em ordem.

este homem que vejo agora não é quem quero pra passar a vida ao meu lado. bofe de balada e amiguinho pra dividir a casa eu arranjo em qualquer esquina. SEMPRE estive ao seu lado nas horas ruins, que têm sido muitas ultimamente já que você vive estressado e de mau humor. agora penso nas meninas que têm vergonha de te apresentar pros pais e penso que a coisa vai além dos seu pescoço tatuado. você é perfeito pra um casinho, mas pra construir uma vida de verdade muitas vezes se mostra imaturo e egoísta. apesar disso, tenho apostado todas as minhas fichas em você.

o fato é: eu não deveria ter que pedir pra você estar ao meu lado agora. isso deveria ser óbvio e evidente pra você. não adianta me ligar dizendo que me ama como se nada estivesse acontecendo. eu não consigo ver nem sentir esse amor de que você fala. eu deveria ser a prioridade na sua vida, não qualquer outra diversão. é isso que quer dizer aquele "na saúde e na doença".

dar, receber e dividir. vc só me dá o que te dá prazer e só divide o que te convém. é fato. estou falando de programas, de dinheiro, de filmes, de comida, de tudo. não quero demorar vinte anos pra perceber um eventual equívoco. não quero filhos com um cara que nem o próprio filhote de cachorro suporta cuidar, embora o ame. não quero alguém economicamente inviável, que todo santo fim de mês precisa de um empréstimo meu embora ganhe o dobro do que eu. não quero um projeto de desilusão tão próximo de mim. espero que você tenha maturidade e discernimento pra se colocar no meu lugar e ver que não estou inventando nem imaginando coisas.

não sou de guardar rancor e em nossa próxima briga nem vou me lembrar de tudo isso. mas pode ter certeza de que isso vai marcar inconscientemente, e inconscientemente vou começar a olhar para os lados, e aos poucos vou passar a me dedicar tanto a você quando você se dedica a mim. penso nos bafões que você já fez por muito menos e me sinto absolutamente amélia em te permitir tanto espaço em mim. sabe "tolerância", aquela palavra feia? é a isso que você está me submetendo.

se isso fosse um filme, você seria o anti-herói bonachão e eu a boa esposa. mas aqui se faz, aqui se paga. que outra lhe dê em dobro se eu não for escrota o suficiente pra fazê-lo.

talvez eu passe um tempo longe da cidade
quem sabe eu volte cedo
ou não volte mais

jueves 1 de octubre de 2009

analisando: crise conjugal dos vinte e poucos anos e menos de 65 quilos

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de repente as coisas não fluem mais. as noites não são tão prazerosas como antes e falta assunto e apetite pra tecer planos pra um futuro agora improvável. ninguém cede pelo simples motivo de não ver razão para tal: não parece valer à pena. o sexo rareia. já não se pensa em nomes pra filhos ainda não concebidos nem em endereços ou plantas para residências ainda não construídas. eis a crise conjugal.

as pessoas tendem a seguir inertes, como se nada estivesse acontecendo. tentam ignorar o desinteresse e buscar fugas fora do relacionamento: vou sair sozinho, aumentar minha carga de trabalho e estender ao máximo meu tempo só pra mim e tudo vai se ajeitar. sim, porque de início aparentemente é esse o problema: o desconforto vem do fato de eu não dedicar tempo suficiente para mim. essa vida a dois sufoca, me anula, confunde minhas prioridades. abdico de um pedaço de mim pra viver a vida do outro, com o outro, para o outro. mas porque é que durante anos isso me pareceu maravilhoso? resposta não tão óbvia assim: pela paixão que hoje não mais se faz presente.

o fato é que freqüentemente as pessoas são apaixonadas pela paixão em si, e não pelo alvo desse sentimento. o que atrai é a taquicardia, o frio na barriga, os riso sem motivo e não a outra pessoa. a paixão é inevitavelmente efêmera e, quando acaba, é difícil saber o que fazer com a pessoa que nos despertou essa sensação. percebemos o outro ser como supérfluo, uma pedra no caminho, e nos parece inviável reavivar aquele sentimento, voltar ao início. muito mais cômodo procurar um novo muso, uma nova fonte de calafrios. subitamente você nota que seu vizinho tem um charme de doer ou começa a cogitar uma noite de sexo com aquela sua ex gostosona que vive te dando mole. uma escapadinha  provavelmente teria como resultado uma (ainda que momentânea) aproximação com seu companheiro. mas isso se daria por culpa, não por qualquer outro sentimento nobre.

a paixão acontece naturalmente – e naturalmente chega a seu ocaso; o amor se constrói com muita paciência, generosidade e, principalmente, vontade. amor não brota de uma hora para outra – não o conjugal. é preciso se agarrar com unhas e dentes àquela resolução de querer passar o resto da vida com o outro, muitas vezes fechar olhos e ouvidos para o que não é espelho, ter fé de que a balança de prós e contras pende para o lado favorável. é preciso tolerância, que não é uma coisa bonita. é preciso saber relevar e ter jogo de cintura pra contornar situações pelas quais ninguém merece passar, mas que acontecem entre os seres imperfeitos que somos. é preciso autocrítica para admitir que além do outros também nós temos faltas e defeitos.

depois de certo tempo de convívio, não é fácil se imaginar sem o outro. entretanto, muitas vezes acúmulos de sensações nos tornam um ponto de interrogação para essa pessoa, e ambos já não conseguem lembrar os motivos pelos quais estão juntos. quando você diz que me ama eu não consigo mais acreditar porque nem mesmo acredito quando eu digo que amo você. tudo parece desprovido de sentido, e a única explicação plausível para a continuidade da parceria é o passado em comum, mas dele não se pode construir um futuro. 

vejo casais com vinte e cinco, trinta anos de casamento e um amor absurdo, às vezes beirando a paixão adolescente de começo de namoro. certamente não foi sempre um mar de rosas, mas não me é atraente a idéia de “suportar” fases ruins. sacrifício nunca é interessante, principalmente quando se tem vinte e poucos anos e menos de 65 quilos. é bem mais cômodo tirar do fundo do armário mais um par de sapatinhos de cristal e sair por aí à espera de um novo encontro extraordinário, daqueles que nos causa vontade de soltar balões coloridos em pleno trânsito da seis da tarde.

para as crises conjugais não há alternativa certa. há a possibilidade de escolha recíproca por continuar e reconstuir permanentemente, e tornar isso de alguma forma encantador. a outra escolha possível é abadonar o barco e seguir em outra direção. não há certa resposta, não há gabarito, não há manual de instruções – ao menos quando se tem vinte e poucos anos, menos de 65 quilos e muita imaturidade.

jueves 17 de septiembre de 2009

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think i’ve always been lost in translation.

miércoles 2 de septiembre de 2009

me and you and everyone we know

Sem Título-1

para susi.

- you think you deserve that pain, but you don't. 
- don't think i deserve it.
- well, not consciously, maybe. people think that foot pain is a fact of life, but life is actually better than that.

durante meses, anos sofri por amores. esparsos, vá lá, mas com certeza a soma final ultrapassou os anos. amei, desamei, amei de novo e, claro, como todo amante que se preze, não aprendi a lição. isso de se poupar, de reduzir eventuais danos futuros é para os fracos. os fortes acreditam e agarram as oportunidades com unhas, dentes e alicates. talvez nãos os fortes, mas os teimosos – e é impressionante: todo romântico é teimoso, cabeça dura.

sempre encarei cada pé na bunda, cada amor mal amado como a coisa mais natural do mundo. todo o sofrimento e a rejeição me pareciam parte do jogo. no pain, no gain, pensava eu, o que é fato até certo ponto. vale sim apostar todas as fichas, desde que o panorama seja no mínimo de possibilidades concretas. arriscar-se numa partida perdida, entretanto, é burrice. o problema é que os apaixonados, em regra, não têm a visão dos fatos em toda a sua amplitude: enxergam somente o que seu emburrecido coração quer que seja visto, e aí reside o motivo da maioria dos tombos e das fraturas expostas.

o termômetro amoroso de cada um de nós ganha precisão à medida que amamos, somos amados e, principalmente, desamados. não há livro de auto-ajuda, amigo ou psicólogo capaz de regulá-lo de antemão. só atravessando relacionamentos ele é capaz de regular-se a ponto de ter alguma utilidade, e isso é assim porque, céticos que somos, só acreditamos vendo – ou sentindo. não sendo o amor palpável, não tendo cor nem cheiro, somente somos nos é possível apreender sua medida – se é que há medida – através da convivência com candidatos a amantes. não sendo tais candidatos passíveis desse tipo de envolvimento, entretanto, o termômetro tende a ter como padrão aceitável o “de menos”, o que nos faz parecer natural conviver com dores e percalços longe do desejável ou mesmo aceitável.

um amor é “de menos” quando as faltas são evidentes. se não para os amantes, ao menos para os que bem os conhecem. qualquer que seja a falta – as necessidades variam de pessoa para pessoa –, se uma boa conversa não resolve é sinal de alerta. carinho, diálogo, cumplicidade, sexo, atenção, fidelidade, consideração: qualquer que seja a carência,  a partir do momento em que ela se evidencia é hora de repensar se vale à pena. em se tratando de relacionamentos duráveis, um pequeno vão com o tempo pode se abrir num abismo fatal sem que os envolvidos se dêem conta. o resultado certo é engolir inconscientemente a infelicidade ao ponto de ela tornar-se algo natural, e isso é mais comum do que se imagina. triste…

quando algo parece errado, mesmo que não se saiba o quê exatamente, quando há uma inquietude, quando faltas irremediáveis se evidenciam é hora de mudar de direção, sem medo e sem olhar pra trás. todos podemos fazer por merecer um “felizes para sempre”. um companheiro pra vida toda ou ao menos até que essa mesma vida o leve é nossa maior chance de escolha no campo do convívio. bobagem desperdiçá-la por comodismo ou resignação.

 - your whole life could be better. just starting right now.

my old fashioned heart

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já dizia o poeta: quem tem alma não tem calma. isso se torna cada vez mais verdadeiro na fluidez em que vivemos. as pessoas demoram 35 anos pra se casarem e menos de cinco pra descasarem. é o fast romance, modalidade de relacionamento preferida dos modernos. a justificativa para esse padrão de comportamento reside em buscar a felicidade ao máximo, ainda que numa seqüência de doses mínimas. não vejo probelma nisso – pelo contrário: nada melhor, nada mais humano que ter fome de gente. tem um pequeno porém: quem vive amores líquidos acaba perdendo uma das partes mais bonitas das ligações afetivas – as celebrações.

hoje em dia não se comemora mais aniversário de namoro simplesmente porque ele não é lembrado. são tantos inícios que a data passa a ser mais uma qualquer no calendário. bodas, então, nem se fala, pois elas nem chegam a acontecer. não falo de uma comemoração cafona com setenta parentes distantes parabenizando por anos de tolerância, mas da lembrança de que duas pessoas construiram algo bonito e assim o mantiveram durante meses, anos. trata-se de celebrar o humano, a vida e a convivência – esta principalmente, por raramente perdurar em nossa modernidade pastosa.

festejamos natais muitas vezes sem saber direito o porquê, e isso os fazem datas especiais. por que não celebrar datas que marcam algo realmente extraordinário na vida de cada um de nós? por que limitar-se aos nascimentos? com champanhe ou guaraná, vale a alegria de sentir-se capaz de afeto, de deixar-se afetar pelo outro. talvez seja esse o xis da questão: hoje em dia ninguém mais se deixa descobrir. é mais fácil ficar em começos, nas primeiras descobertas sem deixar que o lado imperfeito do outro se revele. pra que cobranças e carências se há outro corpinho disponível logo ali? pra que calma e compreensão num mundo em que a superficialidade se mostra tão atraente por sua leveza? muito mais cômodo consumir pessoas da mesma forma que consumimos tecnologia ou peças de vestuário da estação.

cada um sabe de si, e há fases em que amores não cabem. há os períodos de resguardo, de rehab para o coração, mas há corações que simplesmte desaprenderam (ou nunca aprenderam) a se deixar bater por alguém. por esses eu lastimo. não por conservadorismo ou idealismos de um romantismo inadequado, mas por acreditar que ter alguém capaz de nos fazer reunir forças pra mover o mundo é um sentimento único, uma razão pra encarar cada dia com a bravura de um gladiador.  na verdade, talvez até seja inadequado esse meu romantismo, mas por entender que não há maiores explicações sobre de onde viemos e pra onde vamos, algo pra preencher cada respiro com significado pode sim ser de maior valor que qualquer coisa. ridículo? sim, como toda carta e amor. mas afinal, ridículo é quem nunca escreveu uma carta de amor – provavelmente por nunca ter sentido essa sensação orgasmática que descrevem como “carregar borboletas no estômago”.

contra a fluidez da modernidade não há remédio, nem desejo que haja. interações instantêaneas podem ser muito positivas e prazerosas. ao lado de toda a efemeridade torço para que perdure aquele pedacinho de passado em que as pessoas acreditavam em poderem ser felizes para sempre ao lado de um par eleito; desejo com toda minha alma não ser uma das poucas últimas românticas de todos os litorais; rezo para que os amores perfeitos e imperfeitos se perpetuem além de poesias e canções. sem medo de ser clichê, e sem dúvida o sendo, desejo que todos os corações se embriaguem ao menos uma vez dessa coisa cafona que chamam de paixão. assim sendo, estou certa de que todos entenderão minha old fashioned ode às bodas. porque de descartáveis já chegam embalagens e artigos de higiene…

lunes 3 de agosto de 2009

de tarde anoiteço

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eu queria ter uma casa auto-limpante. mas não é um desejozinho de momento ou meramente literário. realmente tenho pensado nisso, sonhado com pratos e tapetes eternamente limpos. além disso tenho imaginado como seria se a quadra dos fundos da minha casa não existisse. isso pra ter uma vista decente de um bosque bem verdinho. ando pensando em coisas estranhas ultimamente.

são aproximadamente cinco e meia da tarde. acabo de voltar de um breve passeio à sacada do meu apartamento acompanhada de um cigarro e de uma xícara de café. é quase pôr-do-sol. se eu virar bem a cabeça consigo ver lá longe o sol se pondo e desenhando a silhueta de velhas araucárias. mas só a copa delas, porque abaixo disso os prédios não permitem. o céu aqui não fica alaranjado neste horário. fica cor-de-rosa. bonito, melancólico. mas o barulho de mil carros e ônibus em ritmo de rush tira qualquer poesia da cena. sem contar com o cheiro de poluição que me embrulha o estômago. tudo isso me faz pensar em ir pra casa.

fecho os olhos e os ouvidos e me imagino deitada numa rede num final de tarde. tudo muito bucólico, o cheirinho de grama recém cortada misturado com o de terra molhada. os únicos barulhos são o de passarinhos em festa, o de mosquitinhos chatos que começam seu banquete e o da própria rede indo e vindo. o céu estaria de um alaranjado cor de fanta, talvez um pouco de fumaça de queimadas ressecando o nariz, mas nada insuportável. temperatura amena, a certeza de que em poucas horas seríamos uma família completa tomando cervejas e comendo queijos diversos em volta de uma mesa nos fundos do quintal. meu paraíso perdido. sim, os verdadeiros paraísos são os perdidos – impressionante...

acordo do meu transe com o barulho ensurdecedor de um ônibus obscenamente desregulado. continuo aqui nessa cidade porca morando ao lado de uma via rápida e longe de qualquer possibilidade de um final de tarde digno. voltar para o norte do país, lá onde nem é brasil, praquele estado que muitos duvidam existir, não me parece de todo ruim. ao contrário: essa perspectiva me coloca um sorrisinho de alívio no canto da boca, me remete um sentimento de paz. deve ser a idade ou a tpm batendo, pois, como os senhores podem perceber, tenho pensado coisas re-al-men-te estranhas ultimamente.

martes 21 de julio de 2009

solstício

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virá o dia em que já não haverá pesares. chegará a hora em que esse osso duro de roer que a vida se tornou será mero pó de estrela. há de acontecer aquele momento mágico em que as dores do mundo serão uma faísca efêmera em todos os corações. hoje a noite não tem lua nem astros refletindo desejos, mas noites mais luminosas estão por despontar no horizonte. enquanto não anoitece assim, teço frágeis planos de algodão para caminhar segura e macia sobre esse duro chão de concreto.

até que nenhuma luz me reflita, sou mais um poço de faltas e misérias errante, sou humana. distraio os dias que se vão com açúcares e perfumes pra tornar as coisas mais mais suaves. nesse quase suportar a imensidão de um mundo indecifrado espero por aquela noite que há de vir, por aquela noite iluminada, ainda que por luzes de vaga-lumes. até lá, ao menos até lá, a truculência do mundo não há de me derrubar. sou invencível só até esse amanhã.

em esperança se alicerçam existências inteiras. em fé se apóiam infames e banidos. sobre crenças sem fundamento constróem-se civilizações. eu também me dou ao luxo de acreditar. não sei se em deus-pai-todo-poderoso, mas em minha noite clara com ar adocicado acredito. ela virá impávida para levar todas as minhas aflições e incertezas. me trará de presente um sorriso permanente e toda a leveza que um ser é capaz de suportar. nessa noite todas as poças do mundo refletirão o dourado do meu clarão, e será tanta a minha luz que todos à minha volta terão também o brilho dos felizes.

faço questão de não deixar migalhas no tempo pra não lembrar do caminho que percorro até meu momento. prefiro só as lembranças e que meu presente escuro se torne um passado sem volta. que o intangível não me derrube até meu solstício, até minha noite-dia sem fim. que até lá sirvam minhas lamparinas pra atenuar minhas escuridões. que eu não me perca na vastidão do terreno dessa esperança. que eu consiga digerir o real e livrar-me do mal. amém.

à flor da pele

                           birdie

o que será que me dá
que me bole por dentro, será que me dá
que brota à flor da pele, será que me dá
o que não tem medida nem nunca terá
o que não tem remédio nem nunca terá
o que não tem receita


chego em casa sozinha e começa a chover. silêncio avassalador e um frio de cortar. penso nas criançasmudastelepáticas, penso na grandeza da miséria humana, penso em piaf. padam, padam. deitada na cama toda embrulhada em cinco cobertores, o teto me expulsa do quarto. é muita brancura para os meus olhos, muito vazio pra minha alma. quem sabe um chocolate quente pra amolecer esse osso. ou fumaça de cigarro pra desenevoar meu coração partido em dezesseis pedaços, cada um levado pra uma direção da rosa-dos-ventos. os minutos passam de-va-gar e o papo do jô soares já não consegue diluir meus pensamentos.

espelho, espelho meu, existe alguém mais sensível do que eu? hoje nem clarice, meu bem. neste exato segundo o é da coisa me pegou de jeito. me revejo presa em silêncios antes de palavras que eu não disse. sinto o peso de todos os quases que se foram, de todos os meus prestes a. é muito pretérito imperfeito, muito futuro desfeito. não que isso importe agora, mas depois de tanto respeitar invisíveis sinais vermelhos já não sei pra onde ir. a cidade é grande, o mundo me sorri em convite, mas não há pernas pra fugir de si, e nesse momento, nesse preciso momento a existência me é uma bofetada na cara. talvez seja isso sentir-se viva. talvez seja essa a grande iluminação: perceber a absoluta ausência de porquês. partir, ficar, que diferença faz? na verdade, no seco da verdade sem enfeite nem confete, não faz diferença alguma. o mundo vai continuar girando, as pessoas vão continuar nascendo e amando e morrendo.

inspiro forte e fundo até ficar tonta. o pensamento flui desenfreado. penso em minha mãe, em letícia, em carolina dos olhos tristes. lembro de praias com areia fofinha, meus pés afundando e a língua lambendo o sal. talvez um mergulho em água morna resolvesse tudo. ou um pedaço de nega maluca quentinha com cheiro de infância. um telefonema inesperado, quem sabe… mas o telefone não toca e não há mar nem bolo recém saído do forno ao meu alcance. tenho vontade de ir, não importa pra onde. vontade de sair por essa porta que me encara inerte e desaparecer: puf! ir sem chegar a lugar algum, partir pela partida, pra deixar algo, não sei bem o quê, pra trás. sair desse estado de auto-consciência que me corrói.

ser e estar definitivamente não é facil. não quando isso é palpável. já cortei os cabelos, comprei regatas, pintei a pele, mudei os móveis de lugar e nada remediou. continuo sendo-estando e sentindo isso de forma pungente. nem todos os quebrantos, toda alquimia pra fazer cessar ou reverter esse estado a que a gente chega quando se dá um início de compreensão do funcionamento das coisas, que apenas serve pra embaralhar ainda mais qualquer possibilidade de clareza.

tateio no escuro em meio a toda a sujeira do mundo, em meio a toda a minha imundície, caminhando sobre essa calçada encardida pra não ser atropelada por respostas que já não procuro. tento enganar as invevitáveis perguntas com afirmações bobas, pequenos engodos pra facilitar: é assim mesmo, quando casar sara, amanhã vai ser outro dia. e outro dia virá, e outra vez calarei, e novamente tomarei minha dose cavalar de resignação, e se não passar, passarinho.

sábado 18 de julio de 2009

the devil wears pink

                        mo

eu não queria nada. negando a negação, conforme a lógica, queria tudo. andei perdida, confesso, errando só por errar, pra ter do que rir depois. e eu até era feliz assim. nunca cheguei a me encontrar, até porque não me estava procurando. mas tudo tomou um rumo mais suave – suave até de mais. num tetris imperfeito, minhas peças se acomodaram num bloco gigantesco, mas com alguns vãos impossíveis de preencher. pequenos detalhes que fazem toda a diferença: vitais – e fatais. não é uma maré negra. é uma maré rosa, plácida. e essa calmaria dos que muito têm pode ser o inferno. yes, the devil wears pink.

ao entrar no meu apartamento sobriamente decorado sinto falta de cores gritantes, daquela bagunça que eu sou – porque o lugar onde a gente habita deve ser uma projeção de nós, penso eu. ao perseguir uma profissão burocrática mato meu eu criativo, que é maior parte de mim. ao ser de um único homem, prendo uma devassa esperneando aqui dentro. ao correr atrás do futuro promissor com que meus pais me presentearam deixo as pequenas alegrias instantâneas pra mais tarde. ao reproduzir a lógica medíocre dos que sem saber pra onde ir seguem a manada, edifico um embuste gigantesco que pode a qualquer momento ruir. o inferno definitivamente não são os outros. não pra mim.

tenho sentido uma saudade egoísta. saudade de que eu fui, de quem poderia ter sido, de coisas que nem existiram e que não são nem estão. em cada esquina há um outdoor iluminado oferecendo o caminho de uma possível realização, mas o preço é excessivo para minha alma. e covardemente aceito projetos arquitetados por meu inimigo número um: o senhor destino. dizem que ele pode ser derrotado através de táticas inusitadas, como mudanças de sexo, inseminação artificial ou cirurgia plástica. no meu caso, falta encontrar um meio pra tingir seu traje cor-de-rosa de um vermelho-puta ou algo que o valha, mas não encontro um endereço acessível para tinturarias que façam tal serviço.

essa pantomima que alimento todos os dias com resignação cresce rápido. tenho medo que se torne maior que eu, uma fortaleza blindada contra fugas para os quereres. faz um tempo já não sinto aquele frio na barriga sem motivo, aquele tesão de estar vi-va, vontade de gritar pra espantar as borboletas agitadas dentro de mim – ou agitá-las ainda mais. nem branco, nem encarnado: é qualquer coisa no meio, meio triste, meio abandonado… cor-de-rosa pálido é a tonalidade dessa estação infinita. que não seja eterna... até que a vida nos separe.

sábado 20 de junio de 2009

corra, lolita, corra!

         gartebv

temos as maria-gasolina, as maria-chuteira, as maria-bandinha, as maria-panela… maria-panela? sim, essa é uma nova modalidade de mulher em evidência nos dias de hoje. o ramo da gastronomia anda super “hypado”, e meninas loucas pra serem co-pilotas de um fogão de grife é o que não falta. por trás de um chef há sempre um bando em polvorosa de candidatas à chefia master. se você tem a oportunidade de vez ou outra degustar um prato de mais de 50 reais deve entender o motivo. não que essas moças sejam comilonas, mas ter a manha de preparar quitutes que valham suspiros tem lá seu charme – e rende dólares – e ser a senhora de uma pessoa nessa posição pode parecer um bom negócio.

não estou falando aqui de chefs franceses pançudos, mas de aspirantes a alex atala ou a checho gonzalez, jovens com certo charme-tatuado e paladar apurado. não é à toa que comandam restaurantes badalados e freqüentado por público não conservador. é a tal fusion cuisine, que só pelo nome já parece modernosa, e vale um programinha no gnt. agora pensem nas meninas-modernas: mais luxo que ser a primeira dama do rock, ser a do master cooker.

o fato é que chefs de restaurantes [aspirantes a] da moda tendem a ser verdadeiras putas. se chegaram até lá, devem ter sido verdadeiros bon vivants, morando em mil lugares, experimentado de tudo – eu disse tudo –, e gente assim é inegavelmente interessante. mulher, nesse rol, é detalhe. não que isso seja ruim. é parte da vivência, do crescimento, do desenvolvimento da sensibilidade. a conseqüência, depois de algum reconhecimento, é o efeito “mini-celebridade” [se não perante os clientes, ao menos perante os subordinados]: um olhar atravessado pra qualquer assistente, garçonete ou mesmo pra gerente é passaporte pra uma noite de lou-cu-ras.

nota-se, entretanto, um fenômeno interessante na cidade de curitiba. sendo este um local conservador por excelência, temos restaurantes da moda comandados por verdadeiros manés. sim, um cara pode ser até bonitinho, ter currículo gordo e espírito de liderança suficiente pra coordenar uma cozinha decente e, ainda assim, ser o típico curitibano machista – principalmente em se tratando de comida exótica, que pode ser uma bela porcaria sem que ninguém note. o cara fabrica sabores inusitados em layouts inovadores mas acha que marília gabriela, por ser quem é, deveria ser queimada numa fogueira. de tirar o apetite de qualquer um… o duro é que tem mulher que, mesmo a par desses fatos, se deixa levar pelo glamour do dolma.

mulheres do meu brasil, controlem-se! assistentes de cozinhas chiquetérrimas: menos… pensem que é só mais um cara bem-sucedido. ou nem isso, porque ser chef de restaurante japonês de curitiba é beeeeeeem meia-boca. ah, mas saiu na veja, dira você, maria-avental. beibe, pagando bem até a rata sai na veja [ou na vip, como de fato saiu]. caso seu interesse seja obter um escravo sexual/cozinheiro vale a tentativa; caso deseje um relacionamento, entretanto, tenha em mente que manés são sempre manés, independente da profissão. bundões machistas não querem uma mulher de verdade, mas uma boneca de cera pequena a ponto de suportar a grandeza de seu ego. portanto, corra, lolita, corra!

jueves 18 de junio de 2009

ocaña

memo081200-1-2

para leandro.

aquela agonia de não pertencer a lugar algum, de estar sempre de passagem, os dias-meses-anos fluindo e as malas sempre limpas e prontas pra alguma mudança abrupta. o mundo continuamente me sacode com suas guinadas e reviravoltas, não importa pra onde ou por quê, tudo sempre se desfaz e começa de novo e de novo de um jeito que eu não desenhei ou desejei, e tudo aos poucos se ajeita, e me acalmo, e pessoas vêm, e construo pra logo depois tudo se destruir numa nova manobra do destino que me leva pra outro lugar que eu não escolhi.

mais uma vez eu me vejo parada na sala de um apartamento qualquer, a cor do sofá nunca é igual, mas os entardeceres são sempre carregados do mesmo ar de alívio. badaladas de alguma igreja próxima, cantos de pássaros que não sei, o céu alaranjado anunciando mais uma noite que cai mansa. e me obrigo a uma mansidão que não é minha, aceitando novos conhecidos e novos porteiros que cumprimento já sem me dar ao trabalho de memorizar nomes ou fisionomias. à colcha de retalhos em que aos poucos me fabrico acrescento partes que nem sei, e vou tecendo, tecendo, tecendo, sem idéia de onde isso vai dar, sem idéia de onde eu vou dar. sou uma mistura de sotaques não sei de onde, a tal ponto que ouvir falas carregadas de acento já não me dão vontade de viajar.

sou eu, é ocaña, é o peso de ter uma alma e não saber direito o que fazer dela, porque tudo flui, tudo invevitavelmente flui, e essa fluidez que se derrama desmonta e carrega pra longe cenários aos quais nos tinha obrigado a mapear e conviver com, pra logo depois trazer outros palcos sem texto nem fala nem roteiro nem personagens pré-projetados. e temos que encarar as tardes de domingo, as infinitas tardes de domingo, sem tv a cabo nem mãe pra fazer bolinho de chuva, o faustão berrando da tv, o churrasco-pagode de algum vizinho feliz. nessa hora o esforço pra não desabar é patético: pijamas-pantufas-e-uma-xícara-de-chá-na-mão, o olhar alternado entre o domingão e o horizonte infinito que se exibe na janela, o pensamento sempre perdido em algum pedaço de passado.

hoje revisito uma sala antiga que já não é a mesma. chego a pensar que as salas têm vida própria, conforme as pessoas que ela habitam ou desabitam. aqui já não é minha casa, não há risos, não há cheiros, não há vida. as listras do meu sofá se tornaram outro local de passagem, a solidão berrando de todos os lados, eu já surda, os movimentos todos sem motivo, lembrando e esperando inutilmente a água ferver pra rechear meus suspiros com café e dividir um cigarro com ninguém, sabendo que tudo isso é anunciação dos próximos dias, quando terei outra sala a decifrar, com outro café e outro cigarro, tudo novo e diferente – e tudo sempre de uma semelhança assombrosa.

sem o menor indício de um possível hiato ou de alguma pausa significativa nesse moto-contínuo não planejado, resigno-me a ser engolida pelas correntes de ar que, com sadismo ímpar, me movem feito joguete. sem resistir, aceito o que me é dado e caminho sobre as frágeis tramas que desenho um dia após o outro, à espera da próxima sala, do próximo café, da próxima reviravolta, do proximo começar de novo e de novo e de novo…

sábado 6 de junio de 2009

eduardo, mi corazon

edu

Coincidentemente outra foto comigo sorrindo naturalmente...(isso é muito difícil). Não sei se alguém viu todas as fotos, mas aí tem mais ou menos os 3 anos passados da minha vida, que, como todas, pode terminar a qualquer momento. Aos que nela constaram,obrigado por em algum momento terem estado ao meu lado. Qualquer dúvida perguntem para mim. Se não for possível, perguntem aos que me conhecem ou conheceram um dia. Desejo paz e amor a todos.
Eduardo Brighente Leal Santos

ele tinha um gato preto vira-latas chamado alfredo. ele era meio caipira, do inteior do paraná, mas paradoxalmente conheceu as melhores cidades de todos os continentes [há 5 anos já usava essas cowboy boots que neste ano etão com tudo]. falava espanhol e inglês perfeitos, e arranhava um francês. à sua maneira, era lindo. tinha o cabelo fininho e sempre com cheiro de sabonete de bebê. mas o cheiro da curva do pescoço era sempre outro: givenchy, tommy, pólo, todos fresquinhos ou com fundo de baunilha. fazia tênis pra manter um corpo daqueles e estava sempre bronzeado. era uma puta e me mostrou as primerias fotos re-al-men-te pornográficas que vi na vida – eu tinha uns 13 anos; ele, uns 17.

eduardo era meu primo e um dos meus únicos amigos homens. convivemos relativamente pouco, mais em férias. de certa forma ele se tornou meu modelo de homem. era bonito, educado, inteligente e um tanto quanto cafajeste. a última lembrança que tenho dele foi um encontro logo após eu ter colocado peitos. estava toda enfaixada na cama dele aqui de curitiba. ele tinha dormido num hotel e antes de voltar para o interior passou pra me dar um beijo e conferir os novos peitos da prima. prometi mostrar quando cicatrizassem. não deu tempo. eu tinha o cabelo curtinho vermelho com franja, tipo puta francesa, e ele achou o máximo. tirou várias fotos e rimos muito. depois disso só falei com ele por telefone e internet. trago comigo até hoje o cheiro desse encontro. amor sempre tem cheiro, impressionante.

sempre quis viajar com ele, só nós, os primos devassos, pelas impagáveis histórias que me contava de seus passeios pelos quatro cantos do mundo. foi o primeiro a saber da minha iniciação sexual, e desde então passou a me chamar de “prima safada”. sempre me dava dicas envolvendo “muita língua e saliva”, e eu dizia: ah, se não fôssemos primos…. não por questões religiosas ou morais, mas mais por saber que fatalmente me apaixonaria e que os encontros em férias seguintes seriam no mínimo estranhos. sorte das moçoilas que passaram por sua cama, e que não foram poucas.

nunca vou me esquecer das nossas últimas férias, em natal. ele estava impossível. já chegou no hotel dando bafão, porque o ar-condicionado do seu quarto não ligava. ganhou a suíte mega-master sem custo adicional. ele tinha acabado de pedir uma mulher em casamento só de safadeza. encheu a casa dela de pétalas de rosa após ter tentado de tudo por semanas sem sucesso. funcionou, ao que o sem-vergonha fugiu pra natal e nunca mais mandou notícias. ele era bem assim, inconseqüente, sem noção do perigo. e, apesar disso, adorado por todos.

eduardo tinha uma doença congênita, com pouca perspectiva de longevidade. por isso, viveu como um rei. e adorava viver. fez de tudo e mais um pouco, numa vida digna de mil filmes e livros e biografias. ele não era perfeito, longe disso. mas soube devorar cada segundo em que esteve entre nós. quando se foi, aos 27, acho, tinha enfim encontrado um amor. não que isso o impedisse de continuar na vida bandida, mas ao menos parou de ser perseguido por maridos de moças que ele tinha levado pra passear em buenos aires ou havana. esse é o homem com quem volta e meia sonho. invariavelmente estamos nalgum lugar do mundo que eu não conheço e ele, sim. é reconfortante, mas sempre acordo chorando, com muito frio.

há duas semanas me encontrei com a mãe dele. fomos a um santuário, segundo ela o único lugar onde ele conseguia ficar em paz. fazia muito frio e, como era cedo da manhã, o local estava meio deserto. senti a presença dele no ar que eu respirava. pra cada árvore que olhava podia vê-lo deitadinho ali, com fones de ouvido, pensando no quanto a vida pode ser complicada – e logo após se levantando pra encontrar alguma loira digna de capa de playboy pra levar pra jantar [e jantá-la].

eduardo seguiu caminhos tortos. mandava meio mundo literalmente tomar no cu, mas era uma pessoa generosa. vestiu as melhores roupas, conheceu lugares desenhados por deus – se há deus –, comeu nos melhores restaurantes, fez as melhores mulheres, consumiu o que de melhor o dinheiro pode pagar. e ainda assim viveu sob a sombra de uma morte iminente. não podia beber, não podia fumar, não podia cheirar, e no entanto o fez com a voracidade dos que não têm certeza de um amanhã – ao menos após se dar conta disso, aos 19 ou 20 anos. nas exatas mesmas circunstâncias eu provavelmente teria feito o mesmo. die young and leave a beautiful corpse? nem tanto. mas viver tudo o quão antes, já que o amanhã é incerto.

sinto que o conheço como poucos. quando adolescente, eu era uma das poucas pessoas que podia entrar seu quarto, deitar na sua cama e assistir a qualquer porcaria na tv sem necessidade de qualquer conversa “sociável”. acho que nos entendíamos. queria ter visto mais um milhão de seriados enlatados com aquela criaturinha, e ter tido mais um milhão de conversar inúteis no msn, e ter recebido mais um milhão de ligações de aniversário ou pra pedir qualquer informação sobre curitiba que eu não tinha.

por trás daquela carapuça de moço super bem resolvido havia uma pessoa confusa. é desse homem que sinto falta todos os dias e todas as noites em que ele me vem em sonhos intercontinentais. não tenho crenças em vida além, mas já conheci o mundo sem sair de minha cama com eduardo b. leal santos. com todos as suas imperfeições e faltas e carências, eduardo ainda é meu primeiro modelo de homem [fora papai, que é café-com-leite], parâmetro para todos os homens que me vêm. não à toa meu atual esposo/namorado/amante tem nos cabelos e na casa seu cheiro exato. estranho? talvez. mas me traz uma sensação boa.

obrigada, eduardo, por tudo o que vivemos e por tudo o que embala meus sonos e sonhos. poderia escrever infinitas linhas só pra você, e seriam poucas….

jueves 4 de junio de 2009

amaldiçoados

                                      home_birds

vai passar, tu sabes que vai passar. talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? […] contidamente, continuamos. e substituímos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar".

a gente reclama dos amores que nos deixaram. agora imagine um amor que realmente se foi pra não mais voltar. não falo de um amor antigo, mas atual; de um amor que irreversivelmente ficou no passado, levado pelos braços da morte. nesse caso temos a real solidão, fim de quem ama. sem volta, irremediável, sem sequer uma pequena-esperança pra amenizar a dor. essa é a verdadeira maldição de qualquer amante.

quando jovens geralmente não tivemos ainda que lidar com o fim definitivo de uma pessoa próxima e, sendo assim, em qualquer circunstância que ele aconteça a dor é dilacerante. não há aviso ou manual de instruções capaz de nos preparar par tal acontecimento trágico. é sempre de certa forma inesperado e, ao mesmo tempo, uma fatal certeza. dói mais quando é súbito, sem explicação – e quando acontece com pessoas mais novas geralmente é assim.

a morte de uma pessoa amada não significa o ocaso d0 amor. para os familiares isso é evidente. já para quem ama romanticamente essa pessoa, as coisas não são tão óbvias assim. pelo contrário. um acontecimente como esse mergulha qualquer mortal num mar de confusão. pra onde seguir? o que sentir? que mensagem mandar para o coração? não há respostas. há apenas um sentimento de vazio irreparável. a desorientação é a ordem, até que o tempo ou alguma outra coisa inexplicável aplaque a dor da perda. sarar? acho que nunca. sempre vai ficar uma cicatriz. ainda que a vida siga, o pensamento volta e meia vagueia pelo que poderia ter sido.

situações como essas são a exceção ao nunca diga nunca, a menos que se tenha algum tipo de crença numa vida além desta. e aqui sente-se o peso esmagador dessa palavra: nunca. caio f. fala que a perda de um amor em vida dói mais. discordo. enquanto há vida há esperança. a morte é never, jamás, é it’s over. barreira intransponível. é sentir na pele todos os dias ao acordar o que é perder alguém. essa dor não desejo a meu pior inimigo. planos inconcretizáveis são a materialização das limitações humanas. aprender a viver – não sobreviver – com  isso é superar os próprios limites. é tirar forças não sei de onde pra viver cada dia não sei como rumo a não sei quê. enfim, é um pesar cheio de pesares. são pêsames a si próprio sem perspectiva real de alívio.

partir é o fim. ficar é procurar um novo começo. é a busca outras motivações, porquês e para quês. é procurar algum querer que faça tudo valer à pena. é tentar transformar o mais absoluto não em possiblidades de sins. força. nessas horas essa é a palavra necessária a cada segundo. talvez distrair a verdade para encontrar a tal força nalgum canto escondidinho da alma, porque tudo parece indicar que desistir é caminho menos penoso. talvez seja, mas temos o ímpeto de pagar pra ver, de continuar, de arriscar tudo no amanhã – e isso move o mundo. esperança apesar de todo o desespero. a busca de outra asa, ainda que de papelão. navegar é preciso, viver…

nessas horas penso em olhar para os lados, em procurar placas indicativas antes de qualquer envolvimento mais profundo. mas via de regra não há placas. amar é sempre um risco, um excesso. caso encerrado por desamor? dos males o menor. o último fim, que pode não ser o fim para quem fica, esse raramente manda aviso. é de repente, não mais que de repente, e tende a se eternizar em quem o viveu.

a palavra viúva vem de vidua, que quer dizer solitária, arrancada de seu estado natural, dividida. efim, metade, não inteira, e ser pedaço é desumano. força e alma para os que enfrentam tamanha aflição.

da triste solidão, a rubrica

                    memo080302

começou de súbito
a festa estava mesmo ótima
ela procurava um príncipe
ele procurava a próxima

assim foi o começo, como todo começo que se preze. ela reparou nas vírgulas, ele sequer deu-se ao trabalho de oferecer-lhe um ácido. sim, ela teria achado aquilo o máximo. não sei se ele procurava álibis, mas ela flutuava lépida. por certo ele sucumbia ao pânico. era mais uma história de amor em seu formato mínimo, que samuel rosa em sua genialidade letrística descreveu com precisão cirúrgica.

ela era nova na cidade. ele se sentia o dono do mundinho em que vivia. ela ofereceu-lhe um mundo maior. ele preferiu as ciladas da vida noturna. ela lhe abriu o coração. ele bateu-lhe a porta na cara. ela aceitou sem reclamar e partiu para tudo o que o rock tem a oferecer. e ofereceram-lhe ácido, alcalóides, baladas nababescas, cafés de todas as qualidades e sexo com quem ela imaginasse. ela gostou da brincadeira. ela enfim apaixonou-se por mais um homem sem coração, que ao menos deu-lhe sexo de qualidade e um coração partido com muita poesia, ao que ela novamente partiu para o lado negro da força. disso sobrou uma de suas mais verdadeiras amizades. o medo redigiu-se ínfimo e ele, o primeiro, percebeu a dádiva. chamou-a para um café e – nestas palavras – declarou-se dela o súdito. desenhou-se a história trágica.

ela achou tudo aquilo bonito, como no princípio. em sua ingenuidade, achou que um vaso quebrado pode ser consertado. oras, um vaso colado será sempre um vaso colado, disforme. ele também acreditou que um vaso quebrado pode ser consertado. tentaram, ele mais que ela. anunciou aos quatro ventos sua mulher. ela já não era de ninguém, pois a tão falada fila mostrava-se cheia de gente interessante e interessada. ela sucumbiu aos prazeres sem compromisso – e sem maldade também. ele não se deu conta. ela demonstrava isso. ele e a amarrava com incensos, passeios e canções. ela tomava dormonid pra não lembrar. ele desenhava quadros pra não esquecer.

ela tentou não deixar mortos e feridos. ele a afogou em suas lágrimas. ela recorreu ao método e-mail/fuga. ele a fez jogar pela janela seu chip do telefone. ela escolheu sexo a cinco pra colocar um ponto final. ele gastou rios de dinheiro em telefonemas pra amigos dela. ela contava com o carinho desses mesmos amigos. ele não era convidado pras praias de fim de semana. ela conheceu um moço magro que a abalou. ele soube disso antes dela.

pela primeira vez na vida ela esteve do lado de cá: i don’t love you anymore. goodbye. ele não entendeu, mas foi obrigado a saber o que é perder irremediavelmente alguém. ela não tinha maiores pretensões. ele a amaldiçoou. ela nem se importou. ele disse que ela jamais conseguiria amar, porque o mundo era seu. ela sem saber trouxe pra morar na sua casa parte cobiçada de seu mundo. ela hoje é feliz. ele, dizem, hoje destrói sistematicamente seu nariz.

amor em suas mentes épico – primeiro numa, depois noutra –transformado em jogo cínico. na dela virou jogo sem cinismo e sem querer. na dele já não sei. game over.  pra ela não há perdedor. ele sempre veio do lado oposto sem gosto de viver. pra ela foi mais um caso típico. pra ele um caso atípico. pra ambos, disso nada sobrou.

no love, no glory, porque closer é a bíblia da solidão humana.

o certo, o errado e todo o resto

                                          250

certo e errado são convenções que confirmam-se com meia dúzia de atitudes. todo o resto é muito vasto. é nossa porra-louquice, nossa ausência de certezas, nossos silêncios inquisidores.

abro uma revista cláudia e vejo a clássica listinha de in e out, seguida de um manual de como conquistar seu homem e mantê-lo ao seu lado. acesso um blog e leio a revolta de uma moça com homens mulherengos e com sexo casual. vou a um boteco e tenho que engolir a amiga de um amigo dizendo que jamais daria uma stripper pro namorado só pra parecer legal. e tudo isso acaba com um comentário do tipo abaixo-o-machismo.

cá entre nós, as redatoras da cláudia não devem ser lá mulheres convencionais. a figura do “homem mulherengo” é apenas o cara que faz sexo casual, e que poderia também ser uma mulher nos tempos de hoje, a quem a moça do blog provavelmente rotularia de galinha/biscate. já a moça do boteco não tem envergadura moral pra pôr o dedo no nariz de ninguém, porque seu próprio nariz recatado está constantemente branco de cocaína – e, inobstante esse seu lado pseudo-moderninho, aposto que só faz sexo papai-e-mamãe. esse hipócrita não ao machismo apenas o reafirma numa vã tentativa  de traçar uma linha entre o certo e o errado para atitudes que são marcadas pela subjetividade.

por essas e outras a gente vê como as pessoas são confusas, se perdem no que acham ser um grito de liberdade quando na verdade estão tentando impor seu ponto de vista. mais: são contrárias não ao machismo, mas à liberdade individual. oras, o fato de uma mulher gostar de assistir a outra mulher dançando sobre o balcão de um bar não deveria causar revolta. tampouco a liberdade sexual alheia. se não gosta, procure outras pessoas pra ter perto de você, mas não venha empurrar pra todo mundo sua cocaína, seu manual da moda da estação nem seu sexo-só-depois-de-dois-meses-de-namoro.

acho que cada vez mais me torno individualista. não no sentido de passar por cima de todo mundo, mas de respeitar cada um com suas escolhas e crenças. intolerância em qualquer campo me parece uma coisa tão mesquinha, de gente pequena. gay pride, nerd pride, virgindade até o casamento, straight edge, vida loka, vinícius way of life, cada um na sua, desde que a bandeira não se torne uma barreira. pense como quiser, faça o que quiser, desde que não atropele outras pessoas, e me deixa aqui no meu cantinho com as minhas verdades, que amanhã provavelmente serão outras.

sábado 23 de mayo de 2009

o coração dispara e eu paro

                  475044072_l

o coração dispara
mesmo depois de tanto tempo
segura minha mão
e eu seguro dentro o sentimento
a sua mão segura o momento
e eu presos dentro dos seus dedos
o coração dispara e eu paro
sem nem um pensamento
e foi só perder um compasso
e eu quase caí nos seus braços
um simples movimento
e eu esbarrei em tanto que é passado
não segura mais minha mão
não sei o quanto ainda guardo
o coração dispara e eu paro
já não me sobra espaço
pro que passa
e isso passa
isso vai passar também
é questão de tempo
o coração diz: pára
mesmo depois de tanto tempo*

reencontros de amores não sabidos. digo não sabidos pra não dizer perdidos, porque é mais digno não saber que encarar como perda. nisso sou phd e, apesar de estar muito bem amada atualmente e não ter do que reclamar, confesso que sinto uma faltinha masoquista de estare prendida en los dedos de alguien com o coração em disparada, perdendo o passo ao esbarrar no passado. confesso mais: com meu último bem-amado só me entranhei por ter a mais absoluta certeza de que ele partiria [meu coração] – mas o destino teve a bondade de me sabotar da melhor maneira possível. a gente nunca tá satisfeito mesmo….

sejamos francos: dor de amor, depois do período crítico, é um contentamento descontente. sim, porque acima da falta ou de todos os pesares, estamos apaixonados, e paixão não consumada, só em pensamento, dá história pra mil roteiros de suspirar antes de dormir. expectativa – isso define esse estado em uma palavra. estamos sempre esperando por algo encantador, por um futuro surpreendente, por uma guinada no devir. saímos de casa com o peito permanentemente em sobressalto face à possibilidade de um encontro casual, quem sabe um café ou uma cervejinha no final de tarde – que pode acabar em final de noite e enganar de maneira deliciosa, ainda que efêmera,  nossos pobres corações.

talvez pra alguma coisa boa sirvam os amores mal resolvidos, afinal. talvez não: definitivamente servem. não há como negar que qualquer reencontro desse gênero que traga frio à barriga tem seu lado bom. endorfinas, meu bem. acompanhadas de culpa, mágoa ou afins, elas inegavelmente estão ali, dando aquela sensação de que o tempo parou no ponto exato em que gostaríamos de estar. não sei se é unanimidade, mas ao menos pra mim e pro sr. pedro ali segurar mãos conhecidas de longa data podem despertar sensações que nos fazem sentir vivos, amantes, humanos, que nos fazem pensar e sonhar e saborear o agridoce de momentos incertos.

apesar de tudo, quando não há mais espaço pra algum sentimento guardado mas não planejado,  o peito latejando de amores mal vividos, essa é a  hora de usar toda a força do mundo pra tentar se convencer de que não vale à pena se jogar naqueles braços mais uma vez. é a hora de recolher todo o desejo e ter fé de que um dia o tempo leva, de que isso também passa. certo? não sei. é o que diz nosso senso de auto-preservação, mas, como dizem, enquanto não encontramos a pessoa certa da vez, o jeito é se divertir com as erradas – desde que isso não ocasione um ônus emocional excessivamente alto, claro. no fim das contas, quando o coração dispara e diz pára numa enorme placa vermelha, ficando ou seguindo em frente mortos e feridos são inevitáveis.

 

*letra da música quesão de tempo, da tom bloch, escrita por pedro verísssimo. família mais digna do brasil.

jueves 14 de mayo de 2009

i said hey, what's going on?

                      qc

twenty-five years and my life is still
i’m trying to get up the great big hill of hope
for a destination

vinte e cinco anos e nenhuma grande certeza. branca de neve adormecida ou cinderela desencantada? sei lá. a gente vai levando como pode e, quando não pode, espera a banda passar. ela sempre passa, cantando coisas de amor ou de qualquer outra coisa que faça valer o dia.

a vida vai lenta, e todo dia quando eu acordo e entro no elevador pra fazer qualquer coisa banal na rua vem uma esperançazinha de que aquela caixa metálica levante vôo e me leve pra qualquer lugar realmente extraordinário sem barulho de carros nem gente apressada. vinte e cinco anos de quê? de elevadores convencioanis e escadas rolantes enguiçadas. nas vitrines a gente vê manequins com corpos e vestes perfeitos, sente o cheiro do café e o sopro fresquinho dos ares condicionados – mas sempre do lado de fora. pra quê entrar? esse mundo não sou eu.

talvez a vida seja um carrossel encantado que não para pra eu subir. e talvez os outros brinquedos desse parque de diversões estejam me parecendo muito distantes, fora do meu alcance. ou talvez eu já esteja acomodada em um deles que de tanto girar me deixou tonta, com vertigens, sem senso de direção. aqui do meu cantinho, sem looping nem gravidade zero, vejo os outros girando e se divertindo, todos felizes e risonhos no bonde da alegria, fazendo fila pra girar e girar e girar. girar sem sair do lugar – talvez seja esse o problema, seja essa a falta essencial: um rumo.

sem rumo a gente só se mantém, isso quando não se detém. sem grandes excessos, sem grandes esperanças, carregando dentro de um corpo vadio um coração gordo e uma mente à beira da estagnação. a sorte de um amor bandido? uma casa tok&stok? família de comercial de margarina? leitura pra cutucar a ferida? dinheiro pra cerveja e pro café? o que é que me falta, meu deus? um norte? ou algo pra me desnortear e me defenestrar dessa monotonia? me faltam respostas pras perguntas que eu não sei. me falta um onde e um quando, me falta o áspero da caminhada. me falta aquilo que não é palpável e para o qual  nenhuma seta aponta a direção. falta aquele estado de bagunça transcendente em que o sentido é nada fazer sentido – o sublime.

i take a deep breath and i get real high and i scream at the top of  my lungs: what's going on?

martes 28 de abril de 2009

sonhos sonhos são

                            ckuhwaldfy5

em macau, maputo, meca, bogotá
que sonho é esse de que não se sai
e em que se vai trocando as pernas
e se cai e se levanta noutro sonho

eu estava  em uma estação de esqui fantasiada de michelle obama: base escura no rosto, cabelo e vestido chanel negros. bebia um vinho adocicado no gargalo e descia à toda velocidade a neve branca e lisa num snowboard cor-de-rosa. ao pé do morro dei um abraço quentinho num primo querido já falecido. eduardo tinha o cheiro de sempre – cheiro de verão – e o sorriso mais acolhedor do mundo. seu cabelo fininho balançava ao vento dos alpes ou de bariloche, não sei, e tomamos um banho de tinta de todas as cores, como num trote de calouros espetacular, cinematográfico. eu falei de quanto o amava e da falta que ele me faz, lembramos nossa adolescência e rimos muito. saímos de mãos dadas na neve que já não era neve, mas um gramado muito verde infinito, e no lugar da mão de eduardo eu segurava a mão de vanessa.

vanessa sokoloski, assim, bem russa, foi minha melhor amiga durante alguns anos no ensino médio. ela era muito alta e magra, pele morena, olhos absurdamente azuis contornados por cílios gigantes. o que eu mais adorava nela era sua risada, que era na verdade gargalhada, sempre. ria com a boca muito aberta e o som de sua alegria debochada enchia qualquer cômodo. há anos não a vejo. vanessa segurava minha mão e gargalhava olhando nos meus olhos. não disse nada. só riu enquanto corríamos como crianças naquele gramado rumo à augusta. sim, à rua augusta, são paulo.

a augusta, as usual, caótica naquela noite morna. gente de todo tipo caminhando com garrafas na mão, muita fumaça e inferninho ao lado de inferninho de portas abertas aos passantes. entrei sozinha no wonka, que na verdade  fica em curitiba, não em são paulo. encontrei minha garrafa de vinho dos alpes e também um desconhecido da alemanha: cristian. ele estava em sephia e absolutamente imóvel sorrindo com uma mão ajeitando o cabelo. não tinha altura nem voz, mas cheguei bem perto pra conferir se não era um cartaz em tamanho real, e não – era o próprio cris, com brilho nos olhos e roupas de tecido molinho. abracei-o como quem reencontra um amigo há muito distante, mas não me abraçou de volta. sequer se moveu, como que preso em uma fotografia antiga.

o tal wonka é muito colorido, meio wonka factory mesmo, mas subitamente uma luz muito forte tingiu tudo de branco. agora eu estava numa exposição fotográfica em qualquer lugar da argentina. fatal era o nome da exposição. percebi que vestia um sobretudo preto apenas. outro desconhecido veio em minha direção e substituiu minha garrafa de vinho por uma taça pela metade. era pablo, um fotógrafo de mendoza. tinha rugas ao redor dos olhos e barba de três dias. a iluminação indireta do local fazia os olhos dele faiscarem. me parabenizou pelo meu aniversário e, já na casa  dele, também toda branca, me mostrou o telefone branco de onde tinha me ligado no meu aniversário de 2005. diferente daquela vez, agora nos entendíamos perfeitamente em nosso portuñol. eu disse que aquele telefonema foi a coisa mais delicada e surpreendente de toda a minha vida e senti um clima de bocas se atraindo, quando pablo perguntou se eu poderia me juntar às outras bonecas de cera brancas no canto da sala. olhei pra trás e a sala era copacabana.

na copacabana deserta, uma escada em espiral rumo aos céus. achei melhor não subir. me atirei no mar e nadei, nadei, nadei. na outra margem nena me pegou pela mão, me embrulhou na minha toalha da mônica de capuz e me serviu vários pedaços de nega maluca com extra cobertura de brigadeiro.

viernes 17 de abril de 2009

carta ao senhor f.

                                         klmcs

quando você entrou na minha vida eu deixei de me sentir uma ilha, e aquele papo de que quando não dá certo com uma pessoa é questão de tempo pra encontrar outra melhor passou a não mais me parecer verossímil - você elevou o nível do meu "homem mínino" drasticamente. me fez perceber que jantares em bons restaurantes, muita risada e sono de conchinha são o mínimo a se esperar de um relacionamento - só o mínimo, não a melhor parte. me mostrou que amar loucamente é cafona sim, mas que não tem nada de errado nisso. me fez entender na prática que tudo vale a pena se a alma não é pequena - e me mostrou que a sua alma tem espaço suficiente pra abrigar todo o meu mundo. você, todo pequenuxo, dia a dia se mostrou pouco continente pra tanto conteúdo.

depois que você foi embora dei pra contar o tempo em minutos, porque minuto a minuto sinto a urgência de te ver entrando por essa porta. minuto a minuto essa cama vai parecendo maior e o seu cheiro vai ficando mais fraco no travesseiro. minuto a minuto o mundo gira num movimento surdo e meio sem sentido porque você não está. minuto a minuto o tempo passa va-ga-ro-sa-men-te até o dia em que seus braços vão poder enfim me confortar num abraço.

a vida pode, sim, ser cor-de-rosa.

m.

jueves 2 de abril de 2009

analisando: mal discreto

                                        bor

quanta gente que ri, talvez existe,
cuja a ventura única consiste
em parecer aos outros venturosa

sabe o rapaz de preto que anda meio de lado, aquele charmoso com barba por fazer? luxo? quem garante… a belíssima moça, sempre sinteticamente alegre e muito sociável em baladinhas? diva? vai saber… pode ser tudo fuga, disfarce, simulacro. se tudo o que punge, tudo o que devora o coração no rosto se estampasse

viver em grandes emoções súbitas sem sentido algum: é esse, não a solidão, o verdadeiro mal do século. raimundo corrêa, vinícius e wally “sailormoon” alertaram sobre os carnavais: sempre acabam na quarta-feira – tristeza não tem fim, felicidade sim.

o mal secreto já não é tão secreto assim. está mais para discreto, dependendo da personalidade do amaldiçoado. não há prozac, cachaça ou grande amor capaz de por um fim àquela velha angústia dos que vivem na eterna sombra da depressão. ao menos não definitivamente. li uma vez que aquela tristeza enorme é como uma bromélia, a bela planta parasita capaz de envolver uma árvore centenária e sugar todas as suas energias até torná-la madeira morta. desespero silencioso sem glamour algum.

a gente pensa que conhece as pessoas. teimamos em rotulá-las, em sistematizá-las, e construímos personalidades hipotéticas com base em roupa, cabelo, sorrisos ou maquiagem. ora, tudo isso é temporário, é momento, é fruto de esforço para parecer. na nudez e na solidão estão os verdadeiro eus. sob essas circunstâncias sobra o que há de verdadeiro – e o que ninguém vê. o pior: muitas vezes nem o próprio indivíduo consegue enxergar, porque um espelho mostrando olhos sujos vermelhos nada diz, e a bile negra, quando bate seu ponto invisível, o faz de modo silencioso. não há uma bromélia pra indicar de modo concreto que as coisas não vão bem.

o depressivo não necessariamente passa o dia todo de pijama jogado num sofá esperando o próprio fim. pode levar uma vida como você e eu, com a diferença de que não vê sentido algum nisso. se pararmos pra pensar, poderemos concluir que realmente não há sentido, mas acabamos por dar um jeito de conviver com esse fato. quando não se consegue lidar com a angústia da existência, quando as cores parecem todas iguais, quando a alegria só existe de maneira instantânea, quando a comida perde o sabor, o amor é indiferente e as noites são de um vazio aterrador é sinal que o peso está maior que o “normal”, e a persistência desses sintomas é sim motivo de alerta.

as coisas não precisam ser trágicas. o mundo não é cinza. se a agonia é maior que tudo, realmente a vida não vale a pena, mas não precisa ser assim. quando se está num beco aparentemente sem saída, há modos de construir um caminho, a way to vent our spleen. não é fácil, pode não ser de todo prazeroso, mas é uma possibilidade. tristeza pode ter fim e, aqui, esse fim justifica os meios – sem mitos nem preconceito.

miércoles 25 de marzo de 2009

analisando: pequenas mortes

                                          ccc

outro dia encontrei numa balada uma conhecida recém separada. mesmo sem conhecer o casal muito bem nem saber dos detalhes do rompimento, a expressão da moça deixava óbvio: "terminei um namoro de 34983 anos e não, não vou nada bem". não sei dizer se pela roupa discreta, pela ausência de maquiagem ou pelo cansaço estampado no rosto, mas acredito que qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade que olhasse para aquela criatura poderia deduzir os fatos recentes. o ex também estava no local, e os muitos quilos a menos, a roupa também discreta e a igual ausência de maquiagem também não deixava dúvidas de que algo não ia bem. ao "tudo bem?", ele nem fazia questão de esconder: "fora a tristeza enorme, tudo bem". de partir o coração.

quando casais de amigos se desfazem parece que dói um pouquinho na gente também. parace que falta um pedaço de cada um deles. durante meses, o período de adaptação, eles não sabem exatamente como se portar socialmente um sem a companhia do outro, e isso é triste de assistir. dá vontade de abraçar forte e dizer baixinho pra um e outro: "vai passar. antes do que você imagina. logo a vida vai tomar um rumo suave, sem esse aperto no peito", mas geralmente isso é meio invasivo, e assistimos silentes àquela agonia que tão bem conhecemos.

as dores de um final de relacionamento são inenarráveis, principalmente para a parte que fica. quem vai embora também tem que se adaptar, mas é dono da decisão de ir, e isso ameniza as dificuldades. já quem levou o pé não tem pra onde correr, e tem que conviver com aquela sensação terrível de não ter o controle dos fatos - e justamente por isso não ter os meios para reverter a situação de penúria em que se encontra. a casa em silêncio, as gavetas vazias, os objetos deixados pra trás. chôro incessante, terrores noturnos, dificuldade pra se alimentar. total desalento. a sensação é de uma pequena morte, e o luto é proporcional à dependência emocional de quem sofre.

tanto quanto o amor, o drama dos rompimentos amorosos é universal. pessoa nenhuma merece a tortura de um desamor, mas atravessar uma situação assim pode mudar o modo de se encarar os relacionamentos. aprende-se [da pior forma possível, va lá] sobre cuidado, lealdade, honestidade, enfim, aprende-se a ser mais humano no tratamento de pessoas queridas. quer dizer, pode-se aprender tudo isso, porque há os egoístas crônicos, que simplesmente não conseguem manter a alma no corpo quando se relacionam com outras pessoas. esses sempre serão aquele que parte - e sempre irremediavelmente infelizes.

jueves 19 de marzo de 2009

a cor do invisível

                                   negraflor

qual é o ponto exato em que o peso da existência se torna insustentável? qual a medida da agonia que faz todo o resto não valer a pena? quanta tristeza é preciso pra se afogar num mar de lágrimas? quando é que o amargo se torna o único sabor acessível ao paladar?

a gente levanta todos os dias e diz na frente do espelho, meio se enganando, meio tentando se convencer: tudo vale a pena quando a alma não é pequena. mas vez ou outra a fala não convence, e sentimos a alma do tamanho de uma noz, pronta pra partir pra qualquer lugar bem longe. sem saber bem o porquê, lutamos incessantemente contra esse desalento. até quando?

é de se perder a linha quando a vida mais parece uma colcha de retalhos, todos da mesma cor. é de se perder o fio da meada quando parece que não vai passar. é de se perder o prumo quando nem todas as pequenas bênçãos trazem um pouco de graça. é de se perder a temperança quando não há esperança.

até quando nenhum grito for capaz de aliviar, até quando não houver saída de emergência, quando não houver plano b. até quando não houver porta nem fuga nem desvio. até quando não houver mais caminho. até lá, persistimos; além, negras flores que se abrem sob a chuva.

domingo 22 de febrero de 2009

o calcanhar de cristina

                          makd

tem uma piada machista infame que diz: "a mulher se casa de branco porque o dia do casamento é o mais feliz da vida dela. não é à toa que o homem se casa de preto". é uma idéia pouco romântica do casamento, mas a parte do homem até faz sentido. na verdade, seguindo esse raciocínio, ambos deveriam estar vestidos de preto, pois o casamento de fato corresponde à morte de cada um para as infinitas possibilidades de amor com outras pessoas.

o inquietante vicky cristina barcelona ilustra bem essa idéia. mais precisamente, ilustra a aversão a esse ocaso. cristina tem maría elena e juan antonio, que são mais do que ela jamais sonhou, mas isso lhe parece pouco. é insuficiente porque limitado, fechado, constante - é um beco sem saída. esse é o grande medo dos que juram amor eterno a uma única pessoa: ver todos os quintais do mundo, cada um com a grama de um verde diferente do outro, e privar-se de todos eles. desse ângulo, assumir um relacionamento estável é suprimir, ainda que temporariamente, todas as demais chances de felicidade a dois [ou a três, enfim].

dizem que esse desassossego só se faz presente quando nos sentimos incompletos. entendo que este é o grande equívoco, pois parte-se da premissa que o outro deve nos completar. ora, a incompletude é de cada indivíduo, acaba-se em cada indivíduo, e nada pode fazer o outro para remediá-la. se falta algo cabe a cada um compreender suas carências a fim de saná-las no máximo com a ajuda do outro, mas nunca no outro. teoricamente é muito simples, mas quando vêm os sobressaltos não há penélope cruz que dê jeito.

toda pessoa quando solteira tem uma listinha mental dos fazíveis/ficáveis/comíveis/namoráveis, certo? e sempre tem também uma vizinha gostosa ou um veterano delícia, não é mesmo? poisentão. estamos falando em rasgar aquela lista, em colocar as tentações que moram ao lado na geladeira por tempo indeterminado e, ainda, em fechar os olhos e os ouvidos para todas as pessoas interessadas e interesantes que com certeza despencarão no nosso caminho. é esse o "calcanhar de cristina". se vale à pena conviver com ele, vai do tamanho da alma de cada um.

viernes 20 de febrero de 2009

diário do cárcere privado

                                    raIN

curitiba, sexta-feira, oito da noite, trinta e dois graus celsius [!] e ninguém pra me acompanhar numa cervejinha amiga no boteco ali de baixo. sim, eu moro em cima de um bar, e hoje é dia de jazz.  na verdade o jazz é da casa de charutos ao lado do bar. como a banda toca na calçada, o som sobe até o décimo sétimo andar em que me encontro. e nenhuma alma pra me acompanhar na cerveja. noutras circunstâncias eu iria sozinha e me sentaria no balcão, mas ei, isso aqui é curitiba.

vim de floripa pra cá pra passar seis meses, mas pelo visto a coisa vai se prolongar por no mínimo mais seis. minha rotina aqui é de reclusão absoluta [mas não é rehab, não. quer dizer, até é, de certa forma, já que meus consumo de  álcool, cigarros e afins está zerado há um bom tempo]. curitiba é uma cidade bonita. o problema são os curitibanos. me perdoem as exceções [e tenham a bondade de se apresentar], mas esse povo é um atraso para a humanidade. gente preconceituosa, mal-educada, conservadora.

outro dia fui ao salão com minha irmã mais nova. a manicure passou o tempo todo me olhado com cara de cu. lá pelas tantas falamos algo sobre minha mãe, e a maldita profissional da cutículas esboçou um sorriso: "ah, vocês são irmãs. achei que fossem namoradas.", e daí em diante melhorou um pouco a fisionomia. pior meu namorado, que, embora doutorando com tenros trinta anos, não consegue dar aula em nenhuma faculdade daqui pelo fato de ter os braços tatuados. a gentalha que não diz por favor nem obrigada com quem a gente tem que conviver...

me admira o fato de nas últimas eleições municipais o prefeito daqui ter se reeleito com mais de 75% dos votos em primeiro turno. nada contra ele, mas é muito conservadorismo. acho que isso aconteceu porque a outra candidata viável era do pt, e aqui ainda acham que os vermelhos são comunistas comedores de criancinha. aí vem um governador e vende todas as estradas por pedágios a quinze reais e acham ruim. ou não, porque nunca vi um curitibano se dar conta do absurdo dessa situação. bom, cada povo tem os governantes que merece.

são absurdos em série, mas o que mais me deixa atônita é o trânsito desta cidade. nos ônibus uma gravação com uns dez anos de idade alerta: "cuidado com furtos no interior do veículo". como assim? ainda não resolveram esse problema? mas isso é o de menos. uó mesmo são os motoristas, que não tem cnh, mas porte de arma. gentileza e cortesia não fazem parte da rotina. presumo que são todos daltônicos, porque não respeitam semáforos nem dão seta antes de mudar de pista - o que fazem com toda a violência do mundo. a falta de educação no trânsito é tão absoluta que quando se quer atravessar uma pista pra dobrar a esquina estende-se o braço pra fora do carro pra indicar, porque é certo que nenhum motorista vai abrir espaço se a indicação for luminosa. na estrada daqui pra santa catarina então, chega a ser cômico. passam carros e mais carros a mais de 150 km/h forçando ultrapassagem e jogando outros automóveis para trás de caminhões. não precisa nem esperar pra olhar a placa: todos de curitiba.

dizem que por serem do sul são um povo culto. aham. a universidade federal do paraná, segundo o mec, é a única federal de segundo escalão do sul do brasil. os 15 cinemas da cidade exibem absolutamente os mesmo filmes. todos acham as tenebrosas praias do estado maravilhosas - evidentemente por não conhecerem nenhuma outra. e aquela história de cidade ecológica ficou no passado, porque não contentes em jogar lixo apenas na rua, até nos corredores dos prédios se pode encontrar papel de bala e afins.

aqui ainda se vê morador humilhando porteiro, grupos de rapazes rindo de um gay que passa, gente mal vestida sendo mal tratada em estabelecimentos comerciais. não que essas coisas não existam em outros lugares, mas posso afirmar que vi mais barbaridades desse nível nos últimos oito meses do que nos seis anos anteriores.

antes meu sonho era voltar pra desterro. hoje, saindo deste estado, qualquer lugar é ótimo. melhor se perto do mar, mas até o interior de minas seria mais agradável que aqui. pensando bem, nem quero tomar cerveja no bar ali embaixo. vou me contentar com uma latinha de coca light bem gelada e economizar meus dólares pra torrar em qualquer bar fora desta cidade assim que um feriado me permitir.

martes 28 de octubre de 2008

cérebro, pra que te quero!

                                              cal

de um lado, duas prostitutas aposentadas. de outro, duas modelos. esse era o cenário de um debate do nada cult programa da luciana gimenez de um dia desses. a ordem do dia era humilhar tanto quanto possível as ex-profissionais do sexo: a discussão girava em torno do fato de algumas garotas de programa se anunciarem como "modelo", o que seria ultrajante para os reais cabides-ambulantes. para espanto e deleite do povão, inclusive esta que escreve, uma das ex-profissionais do sexo era absurdamente inteligente, e durante os 40 ou 50 minutos em que esteve naquele palco reduziu a pó os peões-de-agência que tentaram em vão demonstrar sua superioridade.

valéria [ou vanessa] fez programa durante alguns anos e deixou a profissão para escrever um livro. foi tão bem sucedida que continua escrevendo até hoje e vive disso. na surra verbal que deu nas modeletes não defendeu a prostituição nem diminuiu a profissão de modelo. com opiniões sensatas e educação singular no debate, demonstrou que a inteligência feminina supera qualquer outro atributo quando se coloca frente a frente seres pensantes. no começo do programa ela era pequenina, feinha ao lado das divinas bonecas-de-cera; ao final do bate-boca reinava soberana naquele palco. colaboraram pra isso o narcisismo, a arrogância, a ignorância e, acima de tudo, a grosseria das beldades.

primeiro as profissionais da moda se mostraram indignadas pelo fato de algumas prostitutas se intitularem "modelos", ao que valéria respondeu ser mais comum o fato de modelos se tornarem garotas de programa do que garotas de programa se apresentarem como modelos. depois disserem que seu trabalho era de altíssimo nível, enquanto o de uma das ex-prostitutas - cinema pornô e fotografias eróticas - carecia de dignidade e valor estético. valéria lembrou-as de que ambas tinham feito ensaios sensuais, deixando subentendido que isso não é propriamente fashion. polida, deixou de comentar que o portfolio de uma das modelos era muitíssimo semelhante ao da atriz. em seguida o ataque foi à indignidade da profissão do sexo, à degradação e à agressão dela decorrentes, ao que valéria, sem pudor algum, rebateu afirmando que na época em que trabalhava gostava do sexo pago. que mal há nisso? o tapa de luva final de valéria foi a pergunta à belíssima modelo de lingeries sobre o que ela faria quando se aposentasse, já que estava completando 32 anos. a loira prontamente afirmou que abriria uma clínica de estética, mas que não, não estava estudando pra isso; que não, não conhecia coisa alguma sobre o assunto; que não, não faria uma faculdade com os mais de 30 anos que tinha- que absurdo uma pessoa com essa idade estudar!, devia passar pela cabecinha oca e maquiada da moça -; e por aí prosseguiu a auto-sabotagem.

valéria em momento algum se insinuou superior às demais mulheres, embora a certa altura do barraco essa superioridade fosse gritante. poderia ter apedrejado o teto de vidro da estúpida mulher que vive de mostrar a bunda em ensaios sensuais e desfiles de roupa íntima, o do poço de narcisismo de beleza meia-boca e língua mais ágil que o cérebro, e até o da divina modelo que acertou na loteria ao se entregar aos prazeres da cama com mick jagger num dia fértil - teria sido ela contratada pra enfeitar um after show dos stones?

eu não defendo a prostituição da forma como ela ocorre no brasil, mas não a condeno como opção de vida. condeno sim a  hipocrisia e o equivocado senso de superioridade de certas mulheres - geralmente as bonitas. não vejo tanta diferença entre anunciar a venda de sexo e namorar os donos do pão de açúcar. acontece que os pegadores de modelos seriais desse naipe têm um padrão de exigência estética elevado. como conseqüência, às que não foram abençoadas com a beleza sobrenatural de uma cicarelli, resta recorrer a meios menos sutis de fazer seus corpinhos renderem algum conforto material. no fim das contas, fica claro que enquanto algumas mulheres vivem do corpo sem saber que poderiam ser muito bem sucedidas às custas de seu intelecto, outras se enganam profundamente ao acreditarem que passarela e flashes são opção sua - e não a única possibilidade que lhes resta face ao seu baixo desenvolvimento humano e intelectual.

miércoles 22 de octubre de 2008

os dois lados do fim - beijo, me sofre.

                                    134932

passear pelos mínimos óbvios sempre me custa um suspiro. dessa vez me fez lembrar de amores que me tiveram sem que eu os tivesse de fato e, por outro lado, dos meus amantes mal amados. as realidades são semelhantes, mas as situações, diametralmente opostas. 

não há necessariamente explicação precisa para o final de um amor. continuo lhe querendo bem, mas quero o resto do mundo também. você é lindo, sua voz me arrepia, seu jeito de me olhar me dá vontade de viver, mas já não me sinto sua mulher. qual o nome disso? qual a palavra pra esse não-querer-querendo? se nem eu sei, como vou poder te explicar de maneira clara? não vou. você com certeza não vai entender. de uns tempos pra cá, passei a ver nosso castelo como uma prisão sem grades, e qualquer coisa em mim move minhas pernas em direção ao sol. se continuarmos aqui, você vai fatalmente passar de rei a mais um súdito, e assim as coisas não podem funcionar. subvertendo toda a lógica de nós dois, é a sua disponibilidade que te condena. quando você entrar por esta porta, conforme o protocolo vou lhe oferecer o sofá e uma xícara de café pra em seguida vê-lo engasgado com as minhas palavras: "eu não quero mais...". se você facilitar as coisas, não precisarei dizer a frase completa:  "eu não quero mais você", e espero esse mínimo de sutileza me seja permitido, porque com certeza isso vai doer muito mais em você do que em mim.

"eu não quero mais", acabei de ouvir de você. não quer mais o que? como assim? se não estivesse nesse sofá com certeza teria me esparramado no chão, porque perdi as pernas. ao menos você teve a fineza de não completar a frase. só agora posso ver as proporções do nosso amor supostamente tranqüilo, e a medida é dada pelo estrago que ele fez em mim: não há distração deliberada capaz disfarçar essa fratura exposta, não há chôro capaz de lavar tudo o que foi derramado, não há porre capaz de apagar o hiato que fica. espero que você chegue aos 40, aos 50 absolutamente sozinho no mundo de mãos dadas com o seu egoísmo. sua cabeça numa bandeja, é essa a visão que eu quero ter, é isso o que você merece por me fazer sentir tão triste e mal amada. junto com meu ódio eu ainda mastigo a vontade de viver com você tudo o que deixamos de viver, o que me causa mais ódio ainda. me sentindo dentro do closer, pergunto sem entender: por que o amor não é suficiente?

disso tudo nada resta, nem pra mim nem pra você. já não importa se um dia houve amor. não importa quem partiu, não importa quem ficou pra trás - porque as direções de agora em diante são outras. com o tempo se vão significante e significado desse pedacinho de nossas vidas em que fomos um para o outro. com uma simplicidade assombrosa, o que foi já não é.

martes 30 de septiembre de 2008

analisando: loucura vermelha

                  k298

tenho pensado sobre os extremos da paixão. falo daquilo que beira a loucura, da cegueira vermelha, daquele sentimento que se faz notar desde o momento em que a gente acorda até o último pensamento antes de o sono vir. a paixão em seu extremo é uma mistura de dor e realização - é o tal contentamento descontente. é um sentimento único que ocorre numa circunstância específica: nos amores platônicos. a loucura acontece também no caso de abandono, mas aí também existe geralmente o platonismo: aquele que é deixado sente, sofre, ama e cria expectativas  completamente em desacordo com o real cenário de desamor em que se encontra.

a paixão unilateral pode durar meses, anos até. acontece mais ou menos como na propaganda do bombom: você se apaixona não por uma pessoa, mas por uma projeção. a paixão só chega ao fim quando essa projeção acaba e você percebe que o que a pessoa de verdade tem a lhe oferecer não é suficiente pra fazê-lo feliz. acontece que, como seu amor é platônico, você tem pouco contato e convivência com seu amado, o que leva a projeção a se prolongar indefinidamente. com isso, aquele ser ideal tende a crescer em sua imaginação e a adquirir um poder sobrenatural sobre você. veja bem: é o ser perfeito da sua fantasia quem te encanta e te leva ao céu. o indivíduo de carne, osso e banha que encarna aquela representação é uma coisinha insignificante como qualquer mortal -  mas, claro, você está cego para esse fato.

a paixão flerta com a loucura no momento em que o ser amado se transmuta num NÃO. pode ser um NÃO simbólico, como estar com outro par ou não estar naquela balada em que você está unicamente pela certeza de que iria encontrá-lo; ou pode ser um NÃO literal: não, eu não quero sair com você; não, eu não quero namorar; não, eu não amo você. muda a forma do golpe, mas ambos são fatais. acredito que foi numa situação como essa que muita gente teve a oportunidade de entender o real sentido da expressão "nó na garganta", porque é esta a sensação quando algo assim acontece: dói no alto do pescoço, como se a garganta estivesse sendo espremida por todos os lados. depois disso a coisa só piora.

quando sai do estado de choque e se dá conta da amarga realidade, você se sente absolutamente sem razão, sem porquê, sem nada que o justifique. porque o que dava sentido à sua vidinha está definitivamente fora do seu alcance. não que a projeção tenha acabado. pelo contrário: ela continua desfilando nítida por seus pensamentos. só que agora você percebeu que não pode tê-la, e isso dói em lugares que você nem imaginava que existiam. nesse momento você começa a pensar em suicídio, em homicídio, em atear fogo na cidade. assediado pela insanidade, absurdos passam a lhe fazer sentido. aquele filme em que o menino bebe um vidro do xampu que a mocinha usava, por exemplo, super dentro dos padrões de normalidade - era o cheiro do cabelo dela, afinal. até aquele seu amigo que trocou alimentos por cocaína e líquidos diversos desde que a namorada se mudou para berlim deixa de lhe parecer inconseqüente. e você se lembra do caio fernando: te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente.

seu sofrimento, por ser romântico, não é de todo ruim: te faz um ser meio poético, com aquele charme próprio dos que carregam uma dor de amor. o tempo passa e quando você está quase convencido de que sua escuridão, por não ter fim, não é um túnel coisíssima nenhuma, passa a enxegar o mundo com olhos de desencanto. tudo parece cinza e sem graça. por quê? porque você já não está apaixonado, oras. comemorar é difícil, mas essa é uma boa hora pra fazer esse seu ar de cão sem dono lhe render algo de bom. sim, eu estou falando de outro amor, de outra paixão arrebatadora. dessa vez, se possível, correspondida. se não, outra platônica pra derramar seu coração, porque apesar dos ocasionais pesares, é nos episódios de loucura apaixonada que a vida se faz sentir com maior intensidade.

miércoles 27 de agosto de 2008

o grande amor [mentira]

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sou, digamos assim, uma serial lover, e vejo como grandes todos os meus falecidos amores - embora nenhum deles tenha durado mais de quinze meses e onze contos de réis, digo. talvez por isso ache engraçada a mania que as pessoas têm de ver seus amores do passado como uma coisinha à toa. fomos ensinados desde pequenininhos pela disney e pelo cazuza que o amor-meu-grande-amor da vida de cada um de nós é único e que vai chegar sem hora marcada para nos fazer felizes para todo o sempre. convenhamos: seria muita sorte [ou muito azar] você acertar de primeira a pessoa ideal, e só acertando de primeira poderia ter "o" grande amor - único. o mais comum é viver um certo número de amores até que, por qualquer circunstância, decida perpetuar um deles - o que não quer dizer que os anteriores não valeram nem que a resolução a respeito desse seja irrevogável nas instâncias do coração.

tomemos por exemplo você, leitor. hoje você tem uma namorada. ela é a mulher da sua vida, perfeita pra você, amor-i-love-you. mas beibe, não era exatamente isso o que você sentia pela sua primeira namoradinha de dez anos atrás? e também pela ju [se você tem entre 20 e 30 anos muito provavelmente namorou pelo menos uma ju]? a diferença é que você já não é apaixonado pelas ex. fora isso, sinto abalar seu platonismo, o que você sente hoje pelo seu docinho é exatamente a mesma coisa que sentia pelos docinhos já consumidos. paixão é sempre paixão, amor é sempre amor, enfim, os sentimentos são os mesmos. o que muda de romance pra romance é seu objeto de adoração - a moçoila por quem você suspira. isso não quer dizer que você esteja se enganando ou a enganando nem que seu sentimento não seja verdadeiro. pelo contrário: é muito real, assim como foram todos os seus crushes anteriores.

ao aceitar essa realidade você fatalmente se surpreenderá olhando para o grande amor da vez e pensando: quantos dias faltam pra eu deixar de te amar? sim, porque tudo indica que é questão de tempo para isso acontecer. o eu-sei-que-vou-te-amar-por-toda-a-minha-vida-desesperadamente dos apaixonados passa a não lhe fazer muito sentido porque você já não tem certeza de que todo verso seu será pra dizer isso ao seu amor. posso afirmar com bastante propriedade: cabe unicamente a você escolher o destinatário desses versos. sim, você só vai deixar de querer essa pessoinha que te esquenta numa colherbarraconcha na hora de dormir caso se permita. mas nas outras vezes eu não escolhi que acabasse, pensará você. olha, a menos que tenha levado um pé na bunda, escolheu sim senhor, ainda que inconscientemente.

você começa a desamar alguém quando o que essa pessoa tem a oferecer deixa de ser suficiente pra fazê-lo feliz. acontece que, geralmente, não é caso de a pessoa ter mudado, mas de você ter passado a vê-la com outros olhos - foi você quem mudou, e o muito que lhe passou a parecer pouco o leva a escolher não mais amar. quando isso acontece, a tão falada fila, que tem vida própria, inevitavelmente começa a andar rumo a um novo amor. portanto, quando você tiver aí pra você que está vivendo enfim o grande amor, já sabe: [mentira, digo] é mais um amor e, como todo amor, do tamanho que você quiser, sua alma puder e seu coração permitir.

martes 29 de julio de 2008

a fuga

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num  belo dia você olha à sua volta e percebe que desterro é ripongabarramano demais pra toda a sua urbanidade e, pior que isso, culturalmente falida. vá lá: as pessoas são loiras, altas, e bronzeadas, o clima é agradável na maior parte do ano, o trânsito flui [quando não é verão] e o visual é estonteante. mas de que adianta tudo isso se você tem uma pele que não pega cor - os surfers vão te rotular de colona a menos que você se cubra com tatuagens, caso em que vão te chamar pejorativamente de rockeirinha-ó-ó -, prefere o frio intenso das elevadas latitudes [ou altitudes] ao calô-do-maranhão, só anda a pé e não tem cacife pra morar com vista pro mar? é, colega, a saída é arrumar as malocas e se jogar em alguma Capital, porque ter praia e shopping  como únicas opções de lazer é de cortar os pulsos [e só lhe resta cortar os pulsos MESMO, já que floripa anda mal de locais onde se possa auto-induzir uma overdose alcóolica sem ter que ouvir o hip-hop-rap do momento nem gastar uma considerável parcela de seus magros rendimentos mensais].

face ao panorama desesperador, você toma a decisão: "vou-me embora pra curitiba". sim, porque é ali ao lado, tem uma qualidade de vida boa, um monte de teatro, cinema e restaurante - tudo mais barato que na ilha dos juízes aposentados. dizem que as pessoas são fechadas, mas você também não é de muitos sorrisos. a perspectiva de morar numa cidade chuvosa sem ser cinzenta e cheia de cafezinhos no centro te anima - você pode fingir que está em buenos aires e usar um cachecol diferente em cada dia da semana. mais: pode até revisitar sua infância usando aquelas galochas da moda sem parecer funcionária de laticínio.

decisão tomada, você arruma suas trouxinhas e chega à metrópole paranaense. opa, paraná - você tinha esquecido que esse é um estado meio tradicionalista não num sentido muito bom, já que no interior coisas como nome de família e virgindade são muito valorizadas [volta e meia se ouve por aí o intimidador "você sabe com quem está falando?", muito eficaz nessas paragens]. mas você está numa capital - ufa! -, não numa cidadela retrógrada. não vai ter problemas com sua agitada vida sexual nem com o fato de seu sobrenome representar apenas - não é óbvio? - o nome da sua família. aqui a Tradição deve estar mais que capenga, certo? tsc, tsc. quanta ingenuidade, beibe. você fugiu da opressão do provincianismo-bronzead0-classe-média-alta-ilhéu e veio parar no local com maior concentração de meninas-de-família e playboys-de-sapatênis no brasil. pra se ter noção, nem o "paradigma caras" chegou aqui ainda: as colunas sociais continuam exibindo fotos de debutantes gordas e endinheiradas [ou pseudo-endinheiradas-neo-falidas] em vez de célebres globais. desanimador, mas não criemos pânico. você com certeza vai encontrar gente legal, assim como em floripa ou em qualquer outro lugar - mas  pra isso vai ter que procurar atentamente, já que a maioria dos curitibanos sequer se dá ao trabalho de responder o seu bom dia.

passa-se algum tempo e você vai conhecendo um pouco mais a realidade curitiboca - para o seu desgosto e início das saudades da paradisíaca florianópolis. cedo ou tarde fatalmente vai ouvir de algum forasteiro sarcástico que "curitiba se considera a londres brasileira". cof, cof - ironizará você. é nublada, poluída e congestionada como londres, mas a semelhaça pára por aí. não tem chá das 5, humor afiado ou pontualidade britânica e muito menos a madge saltitando de prada em prada. além disso, o sotaque predominante é caipira - de charme duvidoso, portanto - e a estética em geral, digamos assim, deixa a desejar. a verdade é que curitiba é uma pato branco gigantesca, conclui você. sim, uma pato branco trinta vezes maior que a original. dizem por aí que o passeio público em tempos remotos era um jardim de propriedade de uma família que morava nas redondezas - o que, sinto dizer, NÃO remete ao château de versailles, mas a uma pato branco com quintais gigantescos adornados por lagos artificiais habitados por cisnes cafonérrimos. enfim, curitiba tem muitos dos atrativos de qualquer cidade de seu porte, mas indiscutivelmente mantém um ar de interior tipicamente paranaense.

¿y ahora, josé? agora lhe resta se adaptar a esse way of life "limpinho" [e, por que não?, gostar disso] ou procurar os meios onde reina o way of life alternativo local - aquele da minoria esclarecida, liberal e liberada , que existe em qualquer cidade - ou, ainda, voltar pra sua gay island. sim, beibe, a essa altura você se obriga a dar o braço a torcer: la isla bonita era digníssima de sua presença. se dá conta também de que qualquer cidade no mundo [paris, london, san-fran-cis-co] tem seus ônus e bônus - algumas mais ônus, outras mais bônus, claro - , e  que cabe a você eleger suas prioridades para, de acordo com elas, optar pelo lugar mais apropriado pra passar períodos de sua vida - períodos, porque quem não se muda é planta. ai, que saudade do pôr-do-sol deslumbrante da beira-mar-morte [fatalmente congestionada: hora de rush]...

martes 3 de junio de 2008

de mentirinha

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eu não entendo muito bem o porquê da necessidade das pessoas de mentir em seus relacionamentos. não falo de coisas pequenas, de educação, de sutileza. se você não agüenta mais ouvir aquele semi-conhecido chato que encontrou por acaso falar, vale dizer que tá atrasado pra um compromisso inventado pra se retirar sem ser indelicado. se sua cunhada tem um gosto duvidoso pra se vestir, vale convencê-la em pleno verão de que ela vai passar frio com aquela mini-saia de paetês. vale também tomar o suco de beterraba da sua avó com um sorriso no rosto e cumprimentar o filho da puta do seu ex-namorado. tudo isso, mais que falsidade, é civilidade. fora essa hipótese, nem adianta tentar me explicar, porque pra mim mentira, enganação e omissão deliberada são maneiras de passar por cima dos outros - o que não é nobre aqui nem na china.

você odeia uma pessoa que faz parte do seu círculo social, por exemplo. não há necessidade de agredi-la todas as vezes que vocês se encontram - você não é um ogro, afinal -, mas é o fim da picada você dar tapinhas nas costas dela, perguntar como vai a família e telefonar no aniversário pra dar parabéns. qual o motivo pra isso? não sei, mas bom não pode ser. o tipo de pessoa que age assim, na minha humilde opinião, não é lá muito confiável. vai saber com quem mais está sendo falsa...

hipótese número dois, muito comum: casais inseparáveis onde, entretanto, reina a infidelidade. não falo de relacionamentos abertos, mas de relações apodrecidas pela deslealdade. ela não sabe das gatinhas dele e/ou ele não sabe dos bofescândalos dela - a sujeira jaz inerte sob o tapete da desonestidade. olhos não vêem, coração não sente, certo? é, até é verdade, mas no dia em que bater um ventinho, não é pouca a poeira que vai subir. e aí... bom, aí não tem amor que sobreviva à ausência de respeito. tentar consertar com mais mentira é consolidar a desonestidade como base do relacionamento e, se é assim, pra que continuar?

temos, ainda, um terceiro caso, misto dos dois anteriores: o triângulo amoroso. o namorado engana a mulher com a ju [amiga safada sempre atende por ju, impressionante] ou o docinho do cara tem os costume secreto de matar aula na faculdade pra fazer expedições à cama do amigo do futebol daquele. maravilha. chega um dia em que o namorado ou o docinho decidem acabar com o triângulo pra se mudarem definitivamente para seus respectivos playgrounds. cá pra nós, só sendo muito burros quaisquer dos envolvidos vai acreditar que um relacionamento desses vai ser diferente do anterior: a ju e o valdivia passaram a perna nos amigos, enquanto o namorado e o docinho, por sua vez, não agiram corretamente com seus amados. ora, se a pessoa agiu de forma, digamos assim, filhadaputinha com o namorado anterior, por que seria diferente com o atual? ou: se a pessoa não viu problema em se envolver com o namorado da amiga, por que respeitaria os amigos do novo namorado? ninguém é especial a ponto de mudar o caráter de outra pessoa.

as mentira que eu não entendo são, enfim, aquelas que funcionam como  artifício para ocultar de alguém o comportamento de que se tem vergonha. representam fugas das conseqüências das próprias escolhas. a mentira materializa a desonestidade do mentiroso em relação a alguém querido - claro, porque se fosse uma pessoa desimportante não haveria interesse em "poupá-lo" de qualquer informação. digam o que quiserem, mas gente que acha que os meios condenáveis justificam os nem sempre nobres fins de seu interesse eu não engulo - não dou tapinha nas costas, não pergunto da família e muito menos telefono pra das parabéns no dia do aniversário.

miércoles 14 de mayo de 2008

meus anos de pollyana moça, that's not over

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primeiro concluí meu curso superior. depois, comecei a engrossar as coxas com mais facilidade do que antes. quando me dei conta, passei a receber convites pra chás de panela das minhas amigas de infância - que eram, na verdade, pontos finais simbólicos às vidinhas desfrutáveis que elas levavam até então. agora, a coisa degringolou de vez: nas próximas férias em que voltar pra minha cidadezinha do interior, o resto dos meus soldados de boteco estarão oficialmente perdidos. minha adolescência querida que os anos não trazem mais acabou e eu nem percebi.

passaram-se vinte e quatro anos desde que o mundo foi contemplado com minha brancura e, veja só, tenho a impressão de que mal comecei a crescer. o tempo voou e a tradição ocidental começa a se exibir diante de meus olhos: meus pares adquirindo casa própria, assinando contrato com noras que escolheram pras senhoras suas mães e engordando a poupança pra educar as crincinhas catarrentas prestes a serem concebidas. as meninas encarnaram a dona amélia: sem a menor vaidade, já não mostram a barriguinha não tão enxuta nem se preocupam com piastra ou depilação. nos meninos, a mudança é mais assustadora: estão em plena metamorfose rumo à forma tiozão-careca-barrigudo-bebedor-de-cerveja-com-os-amigos-do-futebol-de-sábado.

mas calma aí! eu ainda sou muito jovem e não pretendo parar com a depilação enquanto tiver pêlos nem esconder minha [ainda plana] barriga. ademais, a vida sem baladinhas adolescentes ocasionais tende ao tédio. não que eu queira ser um ícone do anacronismo em meu círculo social de origem. até tenho um [nada] distinto senhor esforçado em me mostrar uma felicidade possível entre cama, mesa, banho e a até então sempre florida rotina dos casados e acredito que isso pode durar indefinidamente desde que dona amélia e tiozão-cintura-150 não se apossem de nossas vidas. só não vale chá de panela nem despedida de solteiro, que, bem sabemos, equivalem a um debute ao contrário, ou seja, o ocaso alegórico da vida social.

mundo mundo vasto mundo... que eu tenha sempre essa lua e esse conhaque  pra me botarem comovida como o diabo, porque  me recuso a ter uma roda feminina de chimarrão como ápice da minha vida social. e agora, josé? ora, nem tudo acabou, nem tudo fugiu, nem tudo mofou; ainda posso beber, ainda posso fumar, outros risos virão. é agora, josé!

jueves 8 de mayo de 2008

e hoje?

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hoje eu quero varrer toda a minha sujeira pra debaixo de um tapete mágico que a leve pra bem longe. quero o peito esgaçado num rasgo do exato tamanho do meu amor e a alma de malas prontas pra qualquer viagem sorridente - não importa pra onde, desde que seja sorridente. quero rabiscar páginas em branco da minha agenda com vagos planos e construir com toda a calma um mundo de amanhãs. quero ver florescer meu infinito de possibilidades e passear por todas as vielas que me vierem. quero ser lúcia, clarice, joana, maria das dores e dos amores. eu quero um samba, um rock, um tango vermelho pra dançar até doerem as pernas. e quero acesso permanente a um cômodo quentinho com cheiro de café e passagens secretas pra todas as livrarias do mundo. quero pele macia e muitas balas de hortelã. quero aprender a caminhar sobre a corda bamba da minha precariedade sem me esfarrapar tantas vezes. quero não deixar passar olhares cheios de significado nem portas abertas pra mim. hoje eu quero estar onde o mundo é insustentavelmente leve sem sair de dentro de mim.

miércoles 7 de mayo de 2008

o ponto negro vigilante do caetano

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sobre toda estrada, sobre toda sala
paira, monstruosa, a sombra do ciúme.

depois do ultraje a rigor também o rei, os titãs, los hermanos e até o felipe dylon se morderam de ciúme. aquela história de levar uma vida moderninha realmente não é para qualquer um - assim como o amor, o ciúme é um sentimento universal. quem é que nunca sentiu aquela agoniazinha por não ter poderes de big brother sobre o ser amado? ninguém, creio eu.

ciúme, como diz o seu aurélio num arroubo poético, é aquele sentimento doloroso que as exigências de um amor inquieto [!], o desejo de posse da pessoa amada, a suspeita ou a certeza de sua infidelidade fazem nascer em alguém. ora, se envolve dor, exigências, inquietude, suspeita de infidelidade e sentimento de posse, boa coisa não pode ser. cá pra nós, aquele papo de tenho-ciúme-porque-te-amo-loucamente é história pra boi dormir. o ciumento é, na verdade, um grande inseguro sob o domínio de sentimentos nada nobres.

o que me impressiona é o tipo de pessoa que acha bonitinho ter um namoradinho ciumentinho que costuma dar pitizinho. pior que isso: encara o comportamento do descontrolado como lisonjeiro. respeitável público, vejam que o ciúme não é racional, mas passional - burro, portanto, como qualquer paixão. mais: uma manifestação calorosa desse sentimento tende a evoluir para insultos e outras formas de violência, de modo que o tal do amor inquieto acaba sendo relegado a segundo plano em favor de uma angústia egoísta. o que é que tem de de bonitinho nisso? rien de rien.

somos pessoas inteligentes, maduras e civilizadas. admitimos que o ciúme é um sentimento maléfico, sinistro, from hell e desejamos expedir seu atestado de óbito de uma vez por todas. inexistindo fórmula mágica de um veneno capaz de ceifá-lo de nossos imundos corações, o jeito é adotar o plano b: a técnica da distração deliberada, que consiste em contar até um-milhão-mississipi quantas vezes for necessário pra conter os chiliques que com certeza virão pra cada um de nós. se maturidade, inteligência e civilidade não lhe forem suficientes pra motivar esse tipo de atitude, pense que auto-controle é sinônimo de não descer do salto - um luxo.

seus vinte anos de boy, that's over beibe

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primeiro você concluiu seu curso superior. depois, começou a ganhar peso com mais facilidade do que antes. quando se deu conta, passou a participar de despedidas de solteiro dos seus melhores amigos - que eram, de fato, despedidas da vidinha livre, leve e solta que eles levavam até então. em seguida, a coisa degringolou de vez: a maioria dos eventos sociais que você freqüentava eram casamentos, batizados e churrascos-família-de-domingo. o rock acabou e você nem percebeu.

passaram-se trinta anos desde que o mundo foi contemplado com sua presença e, veja só, você tem a impressão de que mal começou a crescer. o tempo passou, meu caro, e a tradição ocidental começa a pesar sobre suas costas. você passa a se preocupar com a casa própria que ainda não adquiriu, com a nora que ainda não arranjou pra senhora sua mãe e com a poupança pra educar as crincinhas catarrentas que ainda não concebeu. ei! calma aí! você ainda se sente jovem e não se incomodaria em continuar aprontando presepadas adolescentes all life long. mas em companhia de quem? dos universitários? das ninfetas colegiais? - você se pergunta. assumir a identidade de tiozão é o que lhe resta para manter seus costumes noturno-sociais, já que seus amigos recém-casados têm coisa mais interessante pra fazer e estão destinados a muito em breve se tornarem babões pais de família. e agora, josé? sim, a festa acabou.

você não quer ser um ícone do anacronismo em seu círculo social. decide, então, reservar parcela do dinheiro da balada para a construção de um futuro bonitinho. algumas cervejas a menos não vão doer tanto assim. agora só falta encontrar uma mulher que te encante de maneira espetacular e queira as mesmas coisas que você neste exato momento - sua futura senhora, o tesouro que vai te mostrar uma felicidade possível entre cama, mesa, banho e a nem sempre florida rotina dos casados. putz, não vai dar certo... - pensa você, num misto de molecagem teimosa e amargura machista. não vai mesmo, porque essas coisas ou acontecem naturalmente ou dificilmente funcionarão da maneira desejável. mundo, mundo, vasto mundo, se você se chamasse raimundo... mas provavelmente não se chama, porque a maioria dos homens de trinta anos de hoje em dia responde pelo nome de rodrigo ou eduardo. ê, dureza... 

seus vinte anos de boy, that's over beibe, e a bagunça que isso causa nem freud explica. a você, resta se jogar num pano de guardar confete - traduzindo: continuar na vida bandida até que o destino ou quiçá o acaso dela o separe.

lunes 5 de mayo de 2008

montilla sky e outras pequenas "milancolias"

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você é uma pessoa feliz. em tese. você é bonito, saudável [apesar dos pequenos excessos habituais - café, cigarros, drinks e comprimidos variados], só passa fome quando quer, tem uma cama quentinha numa casa colorida, uma vida profissional cheia de possibilidades e um grande amor pra viver.

eu sou uma pessoa feliz. em tese. tenho tudo isso e mais um pouco, mas certas coisas me doem de uma maneira inexplicável. o céu de outro dia, por exemplo. era de um azul morto, fosco, tosco, habitado por nuvens paralíticas. no final da tarde eu olhava pro horizonte numa busca inútil por aquela cor de fanta que é a minha preferida para os anoiteceres. caiu a noite e o teto do meu mundo parecia sujo: marrom com população estelar zero. aquele céu me esmagou. cadê a felicidade que estava aqui? nem sinal.

tristes também as primeiras noites de verão, quando o ar quente toca cada pedacinho da pele acompanhado da umidade de uma chuva recém caída e do cheiro das coisas vivas. tem algo mais melancólico que isso? talvez por materializar a passagem do tempo, a chegada de mais uma estação - a morte de mais um ciclo gelado -, não sei, tudo isso me traz a sensação de luzes se apagando na hora errada. ou de um vaso caindo prestes a se tornar o que não era pra ser - disformes cacos cortantes. cadê a felicidade que estava aqui? mais uma vez, nem sinal.

talvez o problema seja comigo. talvez eu seja a única pessoa do mundo a sentir o nariz arder ao ouvir a markéta irglová sussurrando qualquer canção. e talvez a única a ouvi-la sabendo que o nariz vai arder. talvez tudo isso não seja um problema, mas uma maneira torta de sentir o mundo. e talvez essa obliqüidade seja a resposta para os mistérios dessa "milancolia" que se me repete incessantemente.

martes 29 de abril de 2008

nefasto delineador

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vamos falar sobre lápis de olho. mais especificamente, sobre a má aplicação desse artefato.

o lápis preto pode fazer maravilhas numa produção: evidencia olhos claros, aumenta ilusoriamente os pequenos e ameniza os saltados. até aí, tudo bem. o que tem me feito rir ironicamente por aí é a falta de noção de algumas miguxas: desde que amy winehouse fez-se um ícone, seus olhos felinamente contornados viraram uma febre. a pessoa pode estar de cara lavada e sandálias havaianas em pleno sol do meio-dia - os três gramas de lápis estão sempre lá pesando sobre os olhos. são cleópatras em série: um exército delas, cada uma com seu estilo de roupa e cabelo, mas unidas pelo uso de gosto duvidoso de seus delineadores avon.

na era pré-amy, esse tipo de pintura [sim, porque não chega a ser maquiagem um troço desses] era usado exclusivamente pelo tipo de mina que vai a bailes de formatura, debutante [?] ou casamento fantasiada de repolho gigante com um ninho na cabeça e brilho em excesso. se estivéssemos nos anos 80, com certeza mangas bufantes completariam a catástrofe. os olhos de poderosa ísis eram um complemento até óbvio pra cafonice toda. tô falando alguma barbaridade? no, no, no.

é sério: uma mulher com um rosto lindo e sensatamente vestida inevitavelmente vai parecer saída de um desenho do paintbrush se não souber fazer bom uso de um estojinho de maquiagem. portanto, a menos que você esteja fantasidade de amy, mulher gato, cleópatra ou poderosa ísis, controla o lápis de olho, meu bem. ou siga a manada e seja feliz. aproveita e faz um coque de doze centímetros de altura com a raiz não retocada dos cabelos e usa como bolsa. prático e super in.

analisando: vip de balada

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uma da manhã, você azul de raiva na fila quilométrica de entrada daquela festa disputadíssima, passam por você umas pessoas que nem são aquilo tudo e, ignorando a aglomeração ordenada, adentram o local na frente de todo mundo. não, não são mal-educados quaisquer: além de não ter que esperar, eles recebem beijinhos sorridentes da hostess e uma pulseirinha de livre acesso a mezaninosbarracamarotes que os isentam do pagamento da taxa de entrada. nessa hora a revolta bate nos mortais indianamente alinhados que não se conformam com o tratamento desigual e que, invariavelmente, se perguntam em silêncio: "quem são essas pessoas que eu nunca vi na globo?".

resposta: das duas, uma - ou elas são very important persons ou são mini-celebridades-arroz-de-festa. no primeiro caso trata-se de convidados do dono da festa, ou seja, gente cuja presença é desejada por quem manda no local e tem o poder de decidir quem é e quem não é very important na ocasião - e que nem precisa ser amigo do seu globo ou tão important assim. na segunda hipótese, mais curiosa, trata-se daquelas pessoas que são praticamente lustres da balada: têm o direito adquirido de passagem devido à altíssima freqüência no local. pra estes, a moça da porta entrega a comanda já com o nome, o barman traz o drink antes mesmo do pedido e o caixa pergunta sobre a existência de alguma doença quando em vez de qualquer álcool forte tem que cobrar água perrier.

os vips de segunda categoria, digo, da segunda categoria são os mais interessantes de se analisar. não fazem necessariamente parte de uma micro-panela dos ditos descolados, mas são conhecidos por todos os freqüentadores de uma macro-panela. são figurinhas carimbadas com números assombrosos de visitas a páginas virtuais - fotolog, orkut, myspace, flickr... - e, embora na maioria das vezes não sejam atores-modelos-dançarinos-músicos-poetas notáveis, têm nome e fisionomia conhecidos e comentados em mesas de bar por meio mundo de desconhecidos. em decorrência disso, acabam por se tornar um tanto quanto devassos já que a facilidade de acesso a qualquer cama é máxima - o cara ou a mina dá uma piscadela pro "fã" aleatório e este, cara a cara com seu sonho de consumo, se sente todo especial. aí, já viu... não precisa nem do eu-te-amo-qual-seu-nome-mesmo?.

assim sendo, o carão de ignorar filas em inferninhos é apenas uma das regalias inerentes às celebridade menores. é meio que "o segredo": a pessoa se acha a última delícia, age como se a última delícia fosse e, vejam só, acaba por entrar de fato para o grupo das últimas delícias - e gente deliciosa é bem-vinda em qualquer lugar do mundo. [eu achava que isso era peculiaridade daqui da ilha decadente, pero no. são paulo é muito pior. e tem no rio também, apesar do onipresente seu globo. aliás, nem acho mais a ilha decadente. aqui, pelo menos, as pessoas são bo-ni-tas e educadas, de modo geral, e maquiagem estilo amy não é febre].

a verdade é que, a menos que você seja um célebre filho da noite, conheça as pessoas "certas" ou tenha um cartão de crédito apto a comprar qualquer coisa, só sendo íntimo do seu globo vai escapar de mofar em filas noturnas. ou sendo gostosa e pagando peitinho, claro.

miércoles 9 de abril de 2008

simples assim.

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não vai dar tempo? aperta o passo e pede desculpa pelo atraso.

não tem chão pra dar um passo adiante? dá um pulinho.

mudou de idéia? parabéns, sinal que você pensa.

tá apaixonado? decide o destino das borboletas.

não quer desistir ainda? força no salto doze.

não gostou? cospe, vomita, põe pra fora.

quer brincar? não assume compromisso.

tá preso no quase? dá um passo adiante.

tá em dúvida? pensa mais um pouco.

tá diante do nariz? abre os olhos.

começou uma guerra? concilia.

tá com medo? foge ou enfrenta.

não tem saída? dá meia-volta.

não quer saber? não procura.

não tem conserto? joga fora.

a festa acabou? vai embora.

tá sem cor? joga tinta.

não quer? não come.

tá ruim? põe um fim.

estragou? conserta.

tá doendo? chora.

não sabe? estuda.

tá difícil? facilita.

 

a ordem é: simplificar.

carta resposta para a menina que vê borboletas pela casa

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olha só, fê, tô sabendo que sua relação com a matilde anda áspera, mas não tenho nada com isso. é coisa de vocês, e não sou ninguém pra julgar e muito menos pra condenar alguém. o modo como te vejo ou o que sinto por você não mudou. só me resta rir de tudo isso, que na verdade é nada, pelo menos no que diz respeito a mim. seu sonho, que também era meu - nosso café das 5 -, aconteceu e foi lindo. continuo te querendo muito bem, tudo inabalado em mim. aliás, pra mim você não tem que pedir desculpas. conversamos aqui e o que eu tinha pra te dizer, que era apenas minha opinião [não sou dona da verdade], te disse com todas as letras. sem estresse, sem mágoa, sem meias palavras. a gente não pensa igual em tudo, o que é perfeitamente natural. não podemos curar as feridas do mundo nem decidir pelos outros. enfim, quanto a mim, continua tudo igual apesar do passo em falso, se é que houve um.

sinto pela sua treta com a matilde. se pudesse te aconselhar, te diria pra respirar fundo e atropelar tudo isso. acho que, a essa altura, não adianta nadica de nada você sofrer, se desgastar, falar, enfim, dispender energia no caso por um simples motivo: a paixão deixa a gente cega, surda e burra. eu, você, a matilde, a baleia, o napoleão, a hebe, todo mundo. e não é ruim. tem que viver até a última gota, até acabar. e, se acaba, nem é sinal que não deu certo, mas que se esgotou, chegou ao fim. ponto. ferida sempre vem, mas é o preço. procurando bem, todo mundo tem pereba [?] [tô ouvindo a ciranda].

há três anos eu tinha um sonho. que sonho era esse [com bracinho de tereso insano]? o sonho de te ver, de estar perto de você. não me culpo nem lamento pelo leite que só foi derramado na sua cabecinha excessivamente preocupada. sem drama, sem rancor, sem imaturidade. somos mulheres fodásticas e não alimentamos picuinhas. temos mais o que fazer do que remoer desentendimentos mínimos. isso é um esporro com a finalidade
de tirar qualquer coisa ruim do seu peito e de te fazer levantar essa cabeça paulistana e ver o mundo colorido. eu queria poder te falar mil coisas olhando nos seus olhos pra te dar um pouco de paz, te sacudir e simplificar o que, na verdade, não tem que ser complicado.


fica bem.
e se controla.
ou se descontrola.
[faz de conta que tô te dando um abraço gigaaaaaaaaante e  passando a mão nos seus cabelos perfeitos e rindo muito e te trazendo um café e tudo e tal.]

 

mila.

lunes 7 de abril de 2008

qual bem?

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tenho pensado nos atalhos que a gente toma pra se enganar nos caminhos do amor. volta e meia aparece alguém especial, mas sempre tem um porém ao qual a gente se adapta. quando se trata de uma barriguinha um pouco saliente ou da inexplicável paixão pelo futebol na tv, vá lá. o duro é quando a gente se conforma a aspectos realmente incômodos do outro pra poder ter alguém pra chamar de meu bem. o cara te esbofeteia, mente pra você dia sim dia não, só conhece sexo de minuto, nunca deslizou a mão pelos seus cabelos ou costas; a mina tem o costume secreto de chupar outros bofes todinhos, não sabe falar de assunto mais relevante que a bolsa prada que o dinheiro do papai vai comprar pra ela no natal, te proíbe de ter amigas mulheres por mero capricho. meu bem o que, beibe? se não faz bem não é bem coisíssima nenhuma!

iniciar um relacionamento com alguém menos que ótimo é buscar feridas e cicatrizes, é correr atrás de pesares, é pegar o mais ou menos pra criar - e olha que ele cresce... se a atenção não é suficiente, se as afinidades são mínimas, se não surge com o tempo um sentimento de me-dei-bem-pra-carajo é sinal que as coisas não vão nada bem e, sinto dizer, estão condenadas a permanecerem desse modo. oras, você é exigente com o jeans que compra no shopping ou no brechó super cult, com o local que escolhe pra comer uma macarronada na noite de sábado, com a habilidade paga da sua manicure e vai se conformar com um companheiro marromeno? no way.

assim sendo, estarão algumas pessoas, as não-ótimas, condenadas a viverem avulsas para todo o sempre? no, no, no. uma classificação objetiva das pessoas em dois grupos opostos, um desejável e um imprestável, não tem sentido: entre os sujeitos reina a subjetividade - o que é ótimo pra mim pode ser menos que meia-boca pra você. não há as pessoas certas, mas o acerto entre as pessoas. vale errar e começar de novo, vale cola e consulta, vale mudar de alternativa no último minuto; só não pode adulterar o gabarito da auto-realização por preguiça.

martes 1 de abril de 2008

cores de mila feiten, cores.

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sabe quando a gente é criança e sonha em ter um lápis mágico que escreva por conta própria todas as respostas corretas das provas da escola? pois eu até hoje sonho em ter algo parecido: um giz de cera mágico. ou melhor, uma caixa de gizes de cera mágicos de todas as cores do mundo. cores de mila feiten, cores. não falo de barrinhas capazes de desenhar conforme o gabarito da vida, mas de objetos que permitissem a seu usuário dar um pouco mais de suavidade ao preto-no-branco da realidade.

eu queria saber graduar os tons da minhas escolhas, eleger a intensidade de absorção e reflexão da minha luz. queria poder variar realces, relevos do meu colorido, mas até hoje engenheiro nenhum foi capaz de executar meu projeto da paleta perfeita e muito menos de transferir essas cores pra barrinhas deslizantes com cheiro de jardim de infância.

ultimamenta ando meio assim, passeando no escuro do de-fato, despencando no abismo branco das dúvidas que são o universo e o espírito - meio lockiana, meio kantiana, só mais uma fulana. giz mágico que é bom, nada.

viernes 28 de marzo de 2008

devolve minha bunda, gata!

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vamos falar de orkut. e vamos falar de plágio. e de bundas também.

é a coisa mais comum do mundo ver miguxos internautas colando letras de música e textos de qualquer natureza em seus fotologs/perfis de orkut sem colocar os créditos. não é muito legal, mas passa, desde que a criatura não assuma a autoria. pra quem produz esses escritos é ingrato, mas ainda assim uma massagenzinha no ego. enfim, parte do ônus de pôr a cara na tela.

o que me "derrubou o cu da bunda", como diria meu digníssimo e desbocadíssimo mexicano de estimação, foi encontrar uma foto do meu derrière no álbum de fotos de uma desconhecida como se [a bunda] a ela pertencesse. o pior: até a legenda foi copiada - "é tudo uma questão de ângulo".

o que fazer numa situação dessas? a) sentir-se a última delícia do universo; b) mandar a mina malhar a própria bunda, fazer umas fotos e ter fé no photoshop; c) sugerir à mina pegar uma obra; d) nada; e) n.d.a. pois foi letra e: educadamente pedi minha bunda de volta. e minha legenda também. egoísmo? vaidade? pode ser. mas a bunda é minha e nela ninguém tasca. até tasca, na verdade, mas com minha permissão. muito justo.

bem sei que é impossível dar crédito a tudo o que se divulga porque muito do que circula pela internet tem origem incerta. entendo perfeitamente o intuito desses ctrl+c/ctrl+v: parecer bem na foto. até aí, perfeito. agora, assumir a propriedade intelectual de um texto, de uma música ou mesmo de uma bunda que se sabe de onde veio é muita falta de noção. falta de noção ponto, assim mesmo, porque inexiste continuação não ofensiva possível pra essa frase. 

sem aspas nem referência, vá lá; assinar em nome de outro ou, pior ainda, se apropriar do bumbum alheio é pedir pra ser mandado carpir uma roça [pra não dizer outra coisa, porque depois de ler dener - o luxo decidi tentar ser uma pessoa phi-na. tá difícil...]. questão de honestidade, senhores.

jueves 27 de marzo de 2008

stop!

era sempre um quase cada momento como se fosse o último cada momento feito o último pra fazer sentido como se a vida fosse uma despedida de cada h0je porque não haveria amanhã e antes que acontecesse eu já não estava lá tudo efêmero passageiro recomeço atrás de recomeço sem que houvesse propriamente um final sempre a novidade prazeres sem cicatrizes a adrenalina da queda livre livre livre se derramando eu ilesa livre pra outros saltos sem sequer ter atingido o chão até que num desses passeios suicidas outra estrada esburacada desnivelada com um precipício no final o novo ficou grudou entrou fundo bem fundo choveu sobre minha flor da pele sem alagar tudo de tédio sem barreira contra o vento que acaricia minhas pétalas nada apodreceu nem perdeu a cor e o novo se renova a cada dia e o telefone sempre toca e os passos no corredor sempre vão rumo à sala de estar do meu derretido coração eu também quero aquele flit paralisante nada de bomba quero outro modelo de artefato pra perpetuar o prático efeito de frases feitas e noites perfeitas quero mais quero a vida sem sobressaltos quero a doçura que eu não entendo e que me faz ter vontade de devorar o mundo pelo centro não pelas beiradas porque pouco é pouco e menos que tudo é insuficiente pra transoformar a tempestade em arco-íris e me fazer enxergar novas cores todas as cores que existem numa brincadeira de felicidade não quero mais ser café-com-leite não quero esconde-esconde quero pegar e ser pega de jeito de todos os jeitos sem correr sem fugir sem me esconder sem licença STOP! onde é que vende aquele flit mesmo?

martes 25 de marzo de 2008

analisando: síndrome da fração de 1/2

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o amor romântico, esse sonho de consumo que a cultura ocidental nos soca goela abaixo desde que chegamos ao mundo, traz mais tristeza que felicidade aos humanos que me cercam. as pobres criaturas têm a crença inabalável de que sua alegria está escondida no mesmo local não sabido que sua cara-metade, um ser predestinado a fazê-las felizes para sempre.

acredito que um casal pode encontrar a felicidade no convívio, mas a alegria de cada um vem de sua auto-realização - da sensação de estar onde se quer estar e na companhia que se escolheu. não há certezas absolutas e imutáveis nesse departamento das relações humanas: o homem ou a mulher de nossas vidas é a pessoa que cada um de nós elegeu pra esse posto, e só vai permanecer ali enquanto quisermos e permitirmos, enquanto essa pessoa nos for um bem. sempre é tempo de mudar de idéia, de desamar, de notar que não era bem assim; sempre existe a possibilidade de uma das asas do par mudar de ritmo e desequilibrar o vôo.

encaremos os fatos: não existe uma pessoa sob medida pra acabar com os ais de cada um de nós. a felicidade reside no eu, é pessoal e intransferível. há afinidades, há olhares pra uma mesma direção e há, sem dúvida, o amor. agora, metade-amputada-de-mim, só um eventual gêmeo siamês e o pedaço saudoso do chico.

somos ímpares, não metades; o nós formado pelo "você e eu" é mera circunstância.

viernes 21 de marzo de 2008

nerd pride


estudei em colégios relativamente bons, tenho uma carga razoável de leitura semanal, consigo escrever textos, cartas e listas de supermercado inteligíveis, mas outro dia me dei conta do quão impreciso é meu vocabulário.

tudo começou com o livro de cartas da clarice lispector. achei graça quando joão cabral de melo neto escreveu pra ela que construía suas poesias com palavras garimpadas em dicionários. amarante e camelo, tudo bem, a gente já sabia; agora, mestre joão, com todo aquele esnobismo poético, cria um textinho marromeno e vai ao aurélio fazer substituições? como assim?

abandonei temporariamente as cartas e abracei meu velho mini dicionário aurélio da língua portuguesa [acabadinho, coitado, me esclarece dúvidas há quinze anos] pra tentar entender o porquê dessa busca pela melhor palavra. após algumas páginas de sinônimos e significados, fez-se a luz na minha cabecinha "que não vê o óbvio" [não achei palavra pra isso]: pra quem escreve, o dicionário é a ferramenta da precisão e, muitas vezes, da sutileza.

por exemplo: belo é aquilo que tem formas perfeitas e proporções harmônicas, que agrada aos sentidos e ao espírito, enquanto bonito é o que agrada aos sentidos ou ao espírito sem ser propriamente belo. ou seja, brad pitt e benicio del toro, respectivamente. implosão: conjunto de explosões que se combinam de tal forma que seus efeitos tendem para um ponto central - para um ponto central, bróder! uma do camelo, pra causar um sorrisinho em quem ouve e nunca parou pra pensar: negacear: atrair pelo meio de negaça; negaça: engodo, isca; recusa, negação [em geral fingida]. haja léxico... e uma do manuel bandeira, na qual eu nunca tinha parado pra pensar: "tem alcalóide à vontade" em pasárgada, certo [além de prostitutas bonitas pra gente namorar, claro]? cocaína: alcalóide tóxico encontrado na coca. é muita classe, muita sutileza! [acredito que quem produz livros didáticos pro ensino médio ou fundamental e coloca o retumbante vou-me-embora pros adolescentes estudarem, das duas, uma: ou não sacou a do alcalóide ou acredita que nenhum pirralho vai se dar ao trabalho de consultar um houaiss da vida, porque, cá pra nós, maneco flag não foi politicamente correto ao descrever o lugar onde era amigo do rei.]

tudo isso pode parecer inútil, já que qualquer alfabetizado funcional consegue decodificar a mensagem de um texto mesmo sem saber o significado exato de todas as palavras nele contidas, ainda que intuitivamente. mas, creio eu, na precisão vocabular reside muito da beleza de um bom escrito.


a propósito, ao contrário do que o povo diz por aí, seu aurélio não tem parentesco algum com o chico e tim burton não é o willy wonka do primeiro filme [além de dicionários dei pra ler artigos da wikipédia e seus respectivos links, como os senhores podem perceber].

miércoles 19 de marzo de 2008

com açúcar, com afeto

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- chico? é você?

- hãm... sim.

- cara... preciso te confessar uma coisa. sou apaixonada por você há mais de dez anos. juro. [suspiro profundo]

- [sorriso sem graça]

- casa comigo?

- [gargalhada sem graça]

- tá... não precisa casar, mas me deixa ser sua arrumadeira, faxineira, cozinheira, objeto sexual...

é óbvio que a conversa acima nunca aconteceu, mas acho que se algum dia francisco buarque de hollanda cruzasse meu caminho, a tietagem seria algo nesse nível.

admito que assédio desmedido de fã é cafona, mas, quando se trata do chico, consigo entender as miguxas que choram copiosamente ao encontrar um justin timberlake da vida - deve ser sobrenatural estar cara a cara com a pessoa que inspira um milhão de coisas bonitas todos os dias, e chico é o homem que embala meus pensamentos mais delicados. ouvi-lo me traz orgasmos poéticos - carícias plenas, obscenas aos ouvidos.

mais que um músico talentoso, chico buarque é um grande poeta: constrói quebra-cabeças de palavras cuja beleza só pode ser apreendida por inteiro às custas de várias leituras e de muita sensibilidade. ele é o pai das metáforas mais bonitas [a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu], brinca com homônimos como ninguém [éramos nós, estreitos nós ou vou cobrar com juros, juro], cria com precisão mulheres de atenas, de amsterdã ou do rio [lígia, cecília, ana, bárbara, carolina, a mulher que só diz sim do juvenal antena]. pra completar, o homem é bonito de doer. é ou não é digno de tietagem descarada, minha gente? até clarice lispector se rendeu aos seus encantos, descrevendo-o numa crônica [de 1968, se não me engano] como lindo, tímido e triste. eu não seria tão classuda, admito, ao manifestar minha admiração pelo homem dos olhos de neon - que com certeza me meteriam mais medo que um raio de sol ao cruzarem com os meus.

hoje a gente nem se fala, mas a festa continua. quem sabe um dia...

lunes 17 de marzo de 2008

poisentão

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tomo o desvio da esquerda ou sigo toda a vida reto? engulo um dormonid ou uma dose de vodca? faço um filho ou um livro? fico rica ou viro professora? débito ou crédito? obedeço ou opto? café ou chá preto? rock ou jazz? paz ou tormenta? qual certo e qual errado, cara pálida? 

há cores que não têm nome, há aquele intervalo em que o dia não acabou nem a noite chegou, há situações a que o maniqueísmo não se aplica, há os hiatos - sem erro e sem acerto. perturbadoramente simples.

analisando: orkutstalker

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todo mundo sabe que o orkut é uma vitrine. logo, quem mantém uma página quer ser visto, sabido, acessado, sim senhor. mais que isso: quer ter sua imagem conhecida de uma maneira específica, já que ali é possível expor os atrativos e omitir o lado menos interessante do eu. delineia-se uma realidade virtual com base no que se considera bonito, descolado, enfim, digno de não ser escondido embaixo do tapete. já viu alguém dizer que ronca, tem mau hálito ou verme em seu perfil? obviamente não.

calma, não estou escrevendo isso com um ar blasé de quem [faz de conta que] despreza orkut/fotolog/blog. assim como você que me lê agora, me dou ao desfrute ocasional dos prazeres vouyeurísiticos da net. digo tudo isso pra chegar o ponto que tem me deixado com um balão de interrogação flutuando sobre a cabeça há alguns dias: onde acaba a curiosidade e começa a perseguição virtual? que tipo de pessoa acessa todos os dias a página do orkut de outra com a qual não mantém contato algum? o acessado deve interpretar o fato como lisonja ou assédio?

o verdadeiro vasculhador, aquele que acompanha a vida das vítimas eleitas com mais afinco que aposentada noveleira, sabe que sua presença é percebida, mas jamais se manifesta. não manda recado, não se apresenta e, o pior de tudo, finge que não sabe que o perseguido existe no caso de um eventual encontro real. ora, se a pessoa busca informações sobre alguém constantemente, se tem manifesto interesse de qualquer natureza nesse alguém, o que a impede de mandar um oi-tudo-bem-tudo-bom quando uma oportunidade se apresenta? independente das respostas aos meus questionamentos inúteis, o fato é que [orkut]stalker tem um quê de loser - sentar-se na platéia e assistir passivamente à vida alheia acontecendo quando se tem seu próprio palco não faz muito sentido.

martes 11 de marzo de 2008

king of gain

                                  My_Heart_Bleeds_No_More_by_end0rphine

não desencanou depois de algumas noites de sono, até porque o sono não veio. não conseguiu não telefonar. não quis arriscar reticências passíveis de se tornarem o último ponto final daquela história.  não pôde deixar a cabeça engolir o coração.  não teve medo de enxergar o que todo mundo via. não teve preguiça de começar tudo de novo com mais uma mulher nem vontade de desistir dessa mulher por todas as outras disponíveis. não preferiu realizar um sonho com itinerário certo e ponto de chegada definido ao custo de sacrificar outro com rumos e caminhos desconhecidos. não respeitou aquela placa de pare que na verdade significava siga-em-frente-por-favor. não trocou a ponte hercílio luz pela tower bridge. não deixou que sua hesitação azedasse as coisas além do aceitável. não esperou a certeza que não brota do nada pra se mudar pra casa dela naquele dia mesmo. não teve que esperar muito pra que a certeza viesse.  não demorou pra cair no ridículo do euteamo-eutambémteamo. não tirou aquele sorriso bobo do rosto por um minuto sequer desde. não sabe precisar o momento em que passou de solteiro/putão a quase-casado-muito-bem-amado. não vê explicação lógica pra esse descompasso num coração tão gasto, mas não quer outra coisa na vida. não, nada vai impedi-lo de viver cada segundo desse clichê com a devida intensidade.

sábado 8 de marzo de 2008

yo, juan ramirez.

                                        MEX

essa noite sonhei que eu era um roqueiro-trintão-tatuado-sujinho. pra agravar o quadro, tinha o físico do verdadeiro mexicano - estatura mediana, pele tostada, cabelo cor de azeviche escorrido, sorriso de coringa permanentemente estampado no rosto e um nariz "con personalidad", pra não dizer avantajado. impressionante o realismo da coisa: dava pra sentir a calça colada nas perninhas finas e o coturno apertando o calo do dedinho esquerdo.

não bastasse a sensação de ter a alma habitando o corpo de um latin lover roquenrôu, também os pensamentos eram condizentes com os de uma criatura desse naipe: caminhava eu pelas ruas de uma grande cidade qualquer - los angeles, nueva iorque, san pablo, ciudad del mexico, quizás - sintiéndome la última delicia de la via láctea y pronto pra mandar hacia el infierno la inocencia de todas las chicas guapas que cruzaban mi camino. sí, porque yo me sentía el gigolô soberano de la noche undeground, señor absoluto de los baños de boate utilizados para fines sexuales.

freud explica? me encaixaria eu no perfil das invejosas do pênis [e de suas utilidades, dentre as quais a mais fenomenal, pra mim, é permitir o proprietário fazer xixi em pé]? ou terá sido tudo manifestação de uma vontade inconsciente minha de encarnar a putajunkielatina sem remorso dentro da sociedade machista/moralista em que vivemos? ou, ainda, um sinal dos céus [ou do inferno, vai saber...] de que eu não nasci pra ser mulherzinha?

é, dona madalena... não tem livro de significado dos sonhos que explique certas coisas...

poison ivy

marilyn11

sozinha, ria alto e revirava os olhos na mesa central do bar mal iluminado. já tinha a atenção da platéia garantida há alguns minutos quando berrou um ô-seu-garçooooooooom! e deu palmadinhas na cadeira vazia pedindo que ele se sentasse. armado o circo, começou a cena mais estapafúrdia que já presenciei.

- colocaram boleta na minha bebidaaaaaaaaaaa! eu tô "dogradaaaaaaaaa"! colocaram "tóchico" na minha bebidaaaa! - gritava como uma voz muito fina, bagunçando as sílabas e prolongando os as do final.

o bar inteiro olhava abismado. um riso aqui e outro ali, mas, de modo geral, o clima era de apreensão. o garçom suava num pedido silencioso de socorro, mas a mulher não parava de falar.

- quem colocou "dogra" na minha bebidaaaaaaaaaaa? eu tô "gávidraaaaaa"! quem vai cuidar da criançaaaaaaaaaa? essa criança é filha da boleta que colocaram na minha bebidaaaaaaaaaa! eu quero pensão! vou chamar a "puliça" agoraaaaaa!

nesse momento um segurança se aproximou, mas não se atreveu a se dirigir à mulher. o garçom ensaiou uma saída, mas a foi puxado pelo braço:

- não sai daqui não! quero saber quem vai cuidar da criançaaaaa! que boleta é essa que você colocou na minha caipiraaaaa? que "dogra" é essa que deixa a gente "gávidraaaaaaaaaa"? eu quero uma indenização! não vou pagar a contaaaaa! chama o gerente agoraaaaaaaaa! ô-seu-gerente! ô-seu-gerente! eu tô "drogadaaaaaaaa"! eu tô "drogadaaaaaaaa"!

levantou-se agitadíssima e cambaleou rumo à saída com um sorriso-de-coringa deformando o rosto.

- chama a help! chama um padre! chama a flávia alessandraaaaa! quem vai me levar pra delegaciaaaa? eu quero denunciar a "dogra" da bebidaaaaaaa! e quero saber quem vai cuidar da criançaaaaaaaaaaaa!...

antes que as pessoas pudessem assimilar o que acontecia, staff e clientes, a mulher ganhou a rua sem a menor dificuldade - e sem pagar a conta. durante alguns segundos, só se ouvia mick jagger anunciando a próxima música no telão. nenhum suspiro, nenhuma voz, nenhum barulho de copo - só dezenas de pares de olhos arregalados voltados pra porta do lugar, até que se instalou a desordem: gargalhadas, manifestações calorosas de revolta, gente levantado e formando fila pra sair, palmas, enfim, o espírito da mulher reinando absoluto sobre o happy hour daquela quarta-feira.

assim foram os dois minutos mais surreais da minha breve vida. se era "dogra", sem-vergonhice, pegadinha do malandro ou manifestação de alguma enfermidade mental, só a mulher sabe.

miércoles 5 de marzo de 2008

garçom, um paradigma novo. bem temperado, por favor.


fui educada pra ser uma mulher convencional. não uma boneca de porcelana dona de casa, mas uma mãe com residência fixa e emprego estável/rentável esposa de um bom pai com residência fixa e emprego estável/rentável. a idéia sempre me pareceu boa, já que fui criada numa família feliz nesses moldes.

há alguns anos saí de casa rumo ao mundo. vivi em alguns lugares e convivi com várias pessoas. com isso, acabei digerindo e assimilando idéias e ideais diferentes, se não opostos, aos que me foram dados como base.

primeiro veio a negação; depois, a confusão; e enfim, a compreensão de que repetir fórmulas por preguiça em vez de vislumbrar as demais possibilidades é como não começar a leitura de um livro por desânimo diante de centenas de páginas estranhas a serem decodificadas, possivelmente recheadas de histórias deliciosas.

sim, eu quero uma família linda e um teto pra cobrir minha cama king size pra dois, um trabalho com remuneração proporcional a meu tempo dispendido e continuo achando o lar de onde vim uma ilha de felicidade. mas não, o mundo não acaba no limite onde alcançam meus olhos, eu não preciso ficar eternamente plantada num mesmo lugar pra ter estabilidade e não se resume a uma conta bancária obesa a tal da realização [apesar de o dinheiro colaborar bastante pra que a vida se torne mais prazerosa]. e não, não adianta fechar os olhos - não somos os mesmos nem vivemos como nossos pais.

reproduzir modelos cegamente é estagnar; um pouco de ousadia é o tempero capaz de dar sabor à nossa transitoriedade.

martes 4 de marzo de 2008

carta ao senhor destino


caríssimo senhor dos tempos,

gostaria de agradecê-lo pelo sopro de ar fresco que o senhor me mandou nesses últimos dias. tenho que confessar que me surpreendeu esse seu surto de inspiração que o fez inaugurar em minha vidinha uma trama sem personagens superficiais ou acometidos por algum tipo de psicose. decidiu deixar o sadismo de lado por uns tempos, é? bom menino.

não posso deixar de elogiá-lo pela escrita enxuta, elegante, ritmada e repleta de diálogos dignos de post-its cor-de-rosa a serem grudados na minha memória.

o senhor bem sabe que não sou de contos; gosto de romances com páginas infinitas. portanto, tenha a bondade de manter a linha de ação e não me aparecer com um desfecho xexelento entre uma cena colorida e outra.

prometo mastigar palavra por palavra bem devagar, virar cada página que chega ao fim com um suspiro e sorrir bobamente a cada ponto final se não cairmos no cru nem no cruel mais uma vez.

beijomeguia.

seu joguete,

mila f.

sábado 1 de marzo de 2008

... se a alma não é pequena.



ando esperançosa demais, e não acho a esperança uma coisa bonita. vejo esse sentimento como primo da pena e irmão da resignação. gente esperançosa é gente boazinha, gente queridinha, gente evangeliquinha. esperança me dá a idéia de sentar e esperar acontecer, de dar chances e não se mexer, de acreditar no inexistente. péssimo, isso. principalmente quando se deposita todo esse tomara-que-venha em alguma pessoa.

pessoas não são boas. pessoas são egoístas e limitadas - não vêem muito além do seu umbigo nem fazem força pra mudar isso. pessoas são rancorosas, inseguras, fábricas de sentimentos mesquinhos. pessoas não entendem que tudo vale a pena se a alma não é pequena, e mantêm-se em seu tamanho mínimo pra não ter que viver coisas que ultrapassem seu entendimento. pessoas são a decepção materializada, são amargas, são um pedacinho do inferno caminhando sobre a terra.

sabendo de tudo isso, por que é que a gente insiste em vivê-las? é realmente impossível ser feliz sozinho? não sei, mas, mesmo na maior tempestade, a tal da esperança sempre dá as caras, me pega pela mão e me guia rumo a essas decepções homo sapiensesianas. já-conheço-os-passos-dessa-estrada-sei-que-não-vai-dar-em-nada-lalalala, e, ainda assim, continuo aumentando minha coleção de retratos em branco e preto. é sempre uma certeza burra de que as coisas podem se ajeitar, de que as pessoas podem crescer e aparecer, de que, por não existir um ser perfeito, as chegadas e principalmente as partidas devem ser pensadas com muita generosidade de espírito.

acho que minha alma cresceu demais, porque eu realmente acredito que vale, e vivo cada perecível como se fosse eterno.



jueves 28 de febrero de 2008

la vie en rose

                                         Rose_by_AtrophyRegression

a vida espera um segundo e acontece no minuto seguinte.

 

no meio do caminho tinha uma rosa. tinha uma rosa no meio do caminho. e minhas retinas andavam re-al-men-te fatigadas, a respiração entrecortada por suspiros doloridos-doloridos. mas hoje eu ganhei uma rosa.

depois de doze noites mal dormidas, de sete tentativas de fuga, de dezoito telefonemas infinitos, de três sessões de closer com sorvete-direto-no-pote e de cinco releituras das orelhas mais amélias [ou amélies] dos meus caios, hoje eu ganhei uma rosa.

hoje aquele que também bate no peito dos desafinados enfim se rendeu à vizinha da loucura, aquela senhora vermelha traficante de endorfinas. porque a vida é agora, e hoje eu ganhei um rosa.

martes 26 de febrero de 2008


põevodcabaratanessecaféporqueassimnãovaidarmuitachuva
nessatardedosinfernosmuitoinfernonessachuvaumdoisnove
cigarrostrêsquatrodezcomprimidosnãotomaquevaifazermal
profígadoetylenolnãomatasessasdoresdecriançamimadaaliás
cadêocadernoquemandeipracarolinadosolhostristesequeela
naoleuporpreguiçadehistóriastoscasdapequenaburguesados
cabelosressecadosqueescrevepratapearessavontadedemandar
tudopraputaquepariuedepassarumaborrachanessapalhaçada
todaecomeçardozeronumoutrolugarcomoutrasvisõespras
minhasretinasentediadasodeioquemechamemdelindahhhh
tiraesseinterpoldavitrolaquesofrimentodeamoréocaralhoe
temmuitomundopelomundoeeunãoqueromaisficaraqui

lunes 25 de febrero de 2008

el sucio y el mal lavado 3


- i hate that i'm hurting you.
- then why are you?

entre uma garfada de macarrão de arroz e outra de hambúrguer de soja, perguntou se eu achava que ele tinha o vocabulário limitado. porque ele tinha lido meu blog, oras! não, beibe, você não tem o vocabulário limitado. pelo contrário: pensa demais, escreve demais e fala ex-ces-si-va-men-te, senhor intelectual. ao menos em comparação com os cafajestes-delícia que nós, bethânias, trazemos à tira colo habitualmente. sim, você é um roqueiro sujinho com camiseta xs. sim, você é uma delícia. e sim, te encontrei na seção dos congelados com uma etiqueta de prazo de validade iminente. mas tudo virou do avesso e agora, além das borboletas em festa no estômago, me habita um nó no peito. porque cada vez que você chega me dá uma vontade filha da puta de chorar por saber que tudo isso tem dia marcado pra acabar. arde o nariz, mas antes que a latina em mim se manifeste, vem aquela vontade de engolir o mundo, de devorar cada segundo da vida, e tudo se materializa em você, com você, pra você. ridícula, eu, como uma carta de amor. sim, porque mais ridículos que as cartas são os amantes. e eu penso trinta e nove vezes por dia em jogar o chip do meu telefone pela janela, em parir um não dessa minha boca teimosa, em reduzir os danos futuros e inevitáveis, em fugir por uns tempos pra rondônia, curitiba, são paulo, buenos aires, quem sabe... mas além de cego e surdo, meu coração deu pra ser burro ultimamente. e vem você dizer que tá a ponto de jogar tudo pro alto pra me viver... com isso não se brinca, moço! assim você alimenta em mim a pior coisa que eu poderia sentir agora - as tais "pequenas esperanças", as sem fundamento. então, controla o verbo pra eu não ter que dormir todos os dias esperando a hora de te encontrar na portaria do meu prédio com aquela flor na mão. porque eu ainda espero.

- i'm your stranger. jump!

viernes 22 de febrero de 2008

hand me your stella and fly, dona glorinha



eu tenho uma amiga que anda pelo mundo divertindo gente. e chorando ao telefone. ah, essas atrizes... volta e meia ela, dona glorinha, toma um chá de sumiço pra tentar se encontrar, se entender, se saber. coisa de artista, presumo eu.

ela se acha meio errada, meio confusa. e é, pra falar a verdade. e aí está todo o encanto daquela pessoinha. é o clichê da mulher ultra-moderna [tem até um coração roquenrôu tatuado no braço, veja só!], e a mais única das criaturas. ímpar, como cada uma das pessoas sensíveis que ela e eu [e você, se tiver também um pouco de sensibilidade] queremos pra dividir nossos cafés de final de tarde.

dona glorinha sabe que tem à sua volta as pessoas mais legais do mundo, que ela escolheu a dedo [algumas literalmente, outras não]. mas, quando se deita na sua caminha de casal pra um, antes de o sono vir, é dominada por pensamentos maléficos tão comuns nas cabecinhas das mulheres avulsas - coisas do tipo por-onde-andará-o-chantilly-desse-morango-suculento-que-eu-sou? do que ela não parece se dar conta, como a maioria das mulheres avulsas [inclusive esta que escreve], é que o chantilly fica na geladeira do supermercado, e não na seção de congelados.

digam-me, donas glorinhas desse mundo, o que é que se pode esperar dos bofes que nos fazem suspirar, ou seja, aqueles caras sujinhos da noite, com barba por fazer, rolled up sleeves and skull t-shirts e vocabulário limitado? cá pra nós, só falta o crachá de "menino-problema" no peito. sim, eles são deliciosos. sim, é diversão garantida. e sim, eles se fazem descartáveis, porque tem muita dona glorinha suculenta pelo mundo louca por uma vida mais ordinária.

deixemos esses vazios pra um futuro idoso e distante, senhoritas, com uma tacinha de champanhe numa mão e um capri-mentolado-contrabandeado na outra, ao som de um jazz empoeirado e carregando na bagagem nossos 15 livros publicados, 24 filmes lançados, 6.348 pacientes atendidos ou 4.456 processos sentenciados.

no, no, no! porque a noite é uma criança e já somos bem grandinhas.


miércoles 20 de febrero de 2008

don't you stop loving me, daddy


eu preferia ter sido levantada do chão pelas duas orelhas como quando menina. preferia ter levado tapas de havaianas número 44 na bunda até ficar marcada. juro.

atravessou minha alma com o olhar e disse com toda a seriedade do mundo que eu não sou nada, que eu não existo, que estou me matando aos poucos. falou que faço tudo errado, que não tenho objetivos concretos e que meus dias são um desperdício. que eu sou um desperdício - de inteligência, de beleza, de dinheiro, de dedicação.

pela primeira vez em todos esses anos vi aqueles olhos verdes claríssimos, emoldurados por uma pele muito bronzeada em contraste com cabelos brancos, marejados. pela primeira vez disse que pensa em mim todos os dias e que me ama, na terceira pessoa - o pai te ama, minha filha. e pela primeira vez senti que eu existo, que sou alguém - que sou o mundo de outro alguém.

miércoles 13 de febrero de 2008

el sucio y el mal lavado 2


[...]

- e quem é o tal do mal lavado?
- ah, um mexicano dos braços coloridos aí...
- mas é namoro ou amizade colorida?
- um pouco dos dois, acho.
- como assim?
- namoro com data pra acabar...
- como assim?
- long story... london calls, roça calls, mommy calls, money calls, everybody calls...
- entendo. and everybody hurts, se bem conheço o significado das suas reticências.
- é... talvez...
- e ainda assim você se joga de cabeça! tsc, tsc... bem o seu tipinho...
- poisentão... bem minha cara mesmo...
- por isso a história da stripper?
- o que tem a ver?
- beibe, que tipo de mulher dá uma puta de presente pro pretendente?
- eu, oras! a mulher dos sonhos de qualquer cara sem muito juízo! e era só pra fazer uma dancinha...
- aham. claro. só você, dona maria emília. e quer que o cara te leve a sério?
- não me venha com machismos antiquados! tenho certeza que seu bofe colorido também iria adorar! e se não gostasse, não serviria pra você. certo?
- é... a coisa é grave. tô vendo que é esse o homem que entrou na sua vida pra acabar com a sua vida. artilharia pesada pra ver se ele se assusta de vez ou se muda pra sua casa hoje mesmo...
- sem drama, beibe. deixa eu brincar de ser feliz!
- só não deixa pintarem o seu nariz!
- sabia que essa seria a resposta.
- óbvio. você e seu coração suicida...
- ei! tá tudo bem! tá tudo lindo! só quero encontrar o cara...
- ...que vai conseguir manter sua faquinha na bota, eu sei: o homem da sua vida, que talvez seja esse tal mariachi. ridiculamente romântica.
- graças a deus.

martes 12 de febrero de 2008

ponto g? cadê?





martha medeiros diz em uma crônica que o ponto g feminino fica nos ouvidos: não adianta apalpar, beijar, lamber com toda a habilidade sem umas palavrinhas bonitas, piegas e/ou safadas sussurradas ao pé do ouvido. pra levar qualquer moçoila aos céus, portanto, nada tão eficiente quanto um linda-gostosa-mulher-da-minha-vida-te-amo-loucamente. faz sentido, em parte.

acho uma grande bobagem esse mito nada moderno de que homem faz sexo e mulher, amor. tem horas e horas, noites e noites, camas e camas - tem o sexo e tem o amor. quando um acompanha o outro, melhor; quando não, pode ser bom também. aqui é que se encontra o porém da teoria da mrs. m. m.: o orgasmo pode começar pelo ouvido [não literalmente, presumo eu] tanto pro menino quanto pra menina quando há o amor, a paixão, o friozinho na barriga. quando é só pega-pega, entretanto, soaria até ridículo um prazer-meu-nome-é-fulano-tira-a-roupa-eu-te-amo - acaba com o tesão de qualquer mortal.

eliminada a hipótese do mero corpo a corpo, marthinha tem razão. quando as borboletas se fazem presentes, nada como declarações bem melosas pra fazer arrepiar a nuca. um cafuné, um cheirinho, a palma de uma mão quente estendida sobre as costas - indescritíveis sensações.

amemos, senhores. e soltemos a língua e o verbo - é ponto g na certa.



depois vem o ninfeto dizer que eu sou feminista na minha pseudo-literatura... quer coisa mais mulherzinha que isso? hunf!

martes 29 de enero de 2008

el sucio y el mal lavado



- me responde uma coisa.
- fala.
- você quer putaria ou romance?
- eu também estava querendo saber isso... eu queria romance com putaria, mas parece que você não tá muito no clima de romance. sei lá... o que você quer?
- romance, sexo e álcool. mas como as coisas vão, não vai dar em nada. você sabe.
- como assim? não entendi. você acha que a gente não vai dar em nada? por quê?
- ah... você sabe.
- não sei. como a gente pode saber se vai dar certo? acho que só tentando. você tá desanimada comigo... já?!
- não, não. só me conheço.
- o que você está querendo me dizer? diga. sei lá. eu estou indo atrás de ti...
- não tô querendo dizer nada. só tô analisando a situação. e você não tá vindo atrás de mim. tá vindo atrás da minha cama. diliça!
- não é mesmo. tô indo atrás de ti. você sabe. sabe mesmo.
- saber não é sentir... nossa! tô profunda...
- acho legal a gente ter esta conversa mesmo. na boa.
- claro.
- sei lá. não estou só querendo fazer sexo contigo. isso também, mas eu te acho foda. de verdade.
- bom, a essa altura, você não tem por que mentir.
- eu sei disso. eu só estou deixando rolar. sei lá. eu sempre sou impulsivo, você percebeu isso. estou me controlando.
- hum...

[to be continued]

lunes 28 de enero de 2008

a arte do cinismo



meu olhar é falso, minha risada é de mentira, as atitudes forjadas.

cheia de graça é aquela de ipanema. eu disfarço e me concentro pra atravessar cada dia com o bom-humor mais masoquista do mundo, mas ainda assim bom-humor. me escondo atrás dessa máscara de euforia, incorporo a personagem e jogo todas as cores possíveis e imagináveis nessa tela cinza.

acho que é isso a felicidade: saber travestir os vazios de carnaval - ou seja, puro cinismo. sim, porque não acredito que exista alguém pleno, completo e cem por cento realizado o tempo todo. sempre tem um hiato, um não, uma ausência batendo no peito - sempre pesa um passado desviado ou um futuro inviável. o que varia de pessoa pra pessoa é a maneira de encarar e de lidar com o não ter / não ser. é aquela velha história: rir pra não chorar.

como disse um grande amigo meu [?], é melhor ser alegre que ser triste. se é assim, enganemo-nos a nós mesmos, caríssimos! com risadas, olhares e brincadeiras capazes de convencer nossas almas fatigadas de que toda essa loucura vale a pena. de vez em quando dói, mas só naqueles breves momentos em que o cansaço ainda não se transformou em sono sem sonhos. ou com sonhos que nos libertam.

my heart's a tart, your body's rent.


meio mundo se esconde atrás de calças justas, quilos de rímel, hálito etílico, dançarada, sexo e muita risada. vamos muito bem, claro, mas sem dúvida cada vez mais sós. não por escolha consciente, mas por força das circunstâncias.

quanto mais se vive, quanto mais se conhece esses bichos complicados que são as pessoas, mais duros e resistentes nos tornamos. frios, eu diria, e acabamos confundindo comodidade com felicidade. falo por mim, pelo menos, já que acho excelente ir pra cama bem acompanhada, mas muito melhor acordar em boa companhia sem ter pressa pra ir embora. por que isso é tão raro?

tudo me leva a crer que o homem ou a mulher da sua e da minha vida só existem dentro de nossas cabeças, e com certeza são seres mutantes, assim como cada um de nós. a beleza, o encaixe e o encontro definitivo, em última análise, não é com o outro, mas com nós mesmos. visão narcisista do amor? ora, francamente: a vaidade move o mundo, queridos, inclusive nesse departamento. encontrar um par é se ver no outro - afinidades que adocem o convívio e discrepâncias que o temperem sem azedá-lo.

assim sendo, será que um dia vai chegar a pessoa cuja ausência tornará a existência de cada um de nós, avulsos, um relógio só com o ponteiro dos minutos? someone to fill our every breath with meaning and to make us loyal not only to our own pleasure zones? e se chegar, teremos olhos pra enxergar, paciência pra deixar o tempo mandar embora nossa dúvidas e, principalmente, grandeza de espírito pra não optar pelos deleites da vida bandida? sei não...

jueves 17 de enero de 2008

vou-me embora pra gay-island, digo, pra desterro

vou-me embora pra desterro
lá sou amiga do rei do rock
lá tenho as mulheres que eu quero
no café do centro que escolherei
vou-me embora pra desterro

vou-me embora pra desterro
aqui eu até sou feliz
mas lá a existência é pura presepada
de tal modo inconseqüente
que dona glorinha medeiros
rainha dos badulaques e um pouco demente
vem a ser contraparente
da terceira irmã que nunca tive

e como jamais farei ginástica!
só andarei de carro preto
dançarei em queijinhos aleatórios
tomarei banhos de mar com as baleias!
e quando estiver cansada
me jogo no meu cantinho listrado
mando chamar a vó joana modificada
pra me contar as histórias
que no tempo de eu menina
a band de sábado à noite vinha me contar
vou-me embora pra desterro

em desterro tem tudo de bom e de ruim
é quase uma civilização
tem um porto seguro
pra acalmar o coração
tem bichas trabalhadas e travas operadas
tem de tudo [eu disse TU-DO] à vontade
tem meninas pagando peitinho
para a gente... bom, para a gente fazer o que quiser com elas.

e quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito
quando de noite me der
vontade de chupar uma gilete
— lá sou amiga do rei do rock —
terei a birita que eu quero
na festa que escolherei
vou-me embora pra desterro.

miércoles 9 de enero de 2008

será a suécia o paraíso?


a suécia é um país localizado na europa das noites sem fim, região também conhecida como vodka belt [a absolut é fabricada lá]. a população local é composta por 79% de idosos ricos do sexo masculino; dos 21% restantes, 82,5% são suecas loiras, altas, magrelas, peitudas, bem-educadas e dominadoras, na faixa etária entre 17 e 28 anos.

econômica e socialmente, os suecos vão muito bem, obrigada. todos têm acesso à educação e à saúde. o índice de desemprego é mínimo, já que o mercado de trabalho no ramo de filmes adultos é amplo. no último ano, a balança comercial sueca fechou com superávit de 142 milhões de euros devido às exportações de cães geneticamente modificados e de loiras-delícia.

os nórdicos têm uma cultura típica conhecida mundialmente. são os criadores da lap dance e expoentes máximos da luta de mulheres no chantilly, esporte praticado por 9 entre 10 suecas. quanto aos nativos célebres, destacam-se victoria silvstedt, ingmar bergman, greta garbo, ingrid bergman, abba, the cardigans, the hives, roxette e the hellacopters.

a religião predominante é o neo-hedonismo, já que os suecos não têm alma. talvez por isso ocorra o suicídio em massa de jovens no inverno, fenômeno denominado svår-emo. para erradicar esse mal, o governo sueco acaba de lançar um novo pacote de diversões, que inclui a construção e manutenção de saunas mistas em todas as cidades.


*a título de curiosidade, a suécia é também conhecida pelo nome de pasárgada, popularizado pelo poeta manuel bandeira.

jueves 3 de enero de 2008

o homem e seu passado



bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim.
rubem braga


benditos seu pai e sua mãe, que ensinaram a você seu jeito de enxergar o mundo; bendita sua infância linda, que te tornou essa deliciosa criança grande; benditos seus amigos de infância, que te proporcionaram aqueles tempos de vidros quebrados; bendita a mulher que tanto te amou e que, ao partir seu coração, à custa de muito sofrimento te ensinou o que é amar; benditas as mulheres com quem você adquiriu suas habilidades de cama; bendito problema de joelho que te obrigou a nadar quilômetros e desenhou suas costas; benditas as tempestades que moldaram o seu humor; e as presepadas impublicáveis que você aprontou e a auto-confiança que isso te trouxe; benditos os tapas na cara que a vida te deu e que te ensinaram a conversar como gente grande; benditas todas as suas paixões; e todas as marcas e cicatrizes que você carrega no peito; bendita a doçura cafajeste com que encanta tantas mulheres; bendito o acaso que me apresentou a você do jeito errado e na hora errada. bendito seja você, que virou o improvável ao avesso.

lunes 24 de diciembre de 2007

carta para tia noela



querida papita noela,

gostaria de pedir à senhorita que me mandasse embrulhado pra presente um gentleman. sim, um homem nouvelle vague, daqueles dos filmes antigos. não precisa estar de terno, chapeuzinho e cigarrilha no canto da boca, mas o temperamento deve ser de lord inglês.

sabe, santa, cansei de ser o machinho das relações e de ter que suar o decote pras coisas funcionarem. não quero mais saber de ter que decidir tudo, de não poder discutir relação pelo fato de o bofe não saber o que é isso, de ter que carregar bêbado pra casa.

bem de amiga, minha cara diva de cetim vermelho, traz aí no seu trenozinho envenenado um moço beirando os trinta, maduro mas não podre, que me faça sentir toda feminina. pra isso, só precisa ser educado, bem resolvido, safadinho entre quatro paredes, inteligente e alfabetizado funcional [!], bonito, cheiroso, me matar de rir várias vezes ao dia, me achar a mais linda das mulheres depois da madonna e da beyoncé, ter um abraço de encaixe perfeito e um beijo suculento. é pedir demais? tá, é. mas não precisa pagar as contas nem abrir a porta do carro, só se oferecer pra fazer isso é suficiente. também não precisa gastar o dinheiro da cerveja com rosas chilenas - as flores podem ser roubadas do canteiro do meu prédio mesmo.

enfim, tia noela, quero um bofescândalo que mantenha a faca da minha bota salto sete ali, quietinha, na bota. faz uma forcinha, vai. juro que vou me comportar melhor no ano que vem.

um beijo, querida.

m.

sábado 22 de diciembre de 2007

analisando: clichê pós-pé-na-bunda



penso que as pessoas são muito parecidas em matéria de relacionamento. a reação a um pé-na-bunda levado de quem se ama, por exemplo, é o clichê dos clichês. se não, vejamos.

logo após o "i don't love you anymore. goodbye.", o deixado perde o rumo. desidrata de tanto chorar, tem a mais absoluta certeza de que o mundo acabou e de que NUNCA vai encontrar outro alguém tão maravilhoso quanto a pessoa que partiu [seu coração]. são noites de sexta e sábado mofando em casa, sentimento de auto-piedade e perda total do amor próprio.

o manual da etiqueta dos descornados aconselha o sofredor a chorar sozinho e escondido entre travesseiros e edredons até passar a dor pra manter um mínimo de dignidade. entretanto, alguns miguxinhos burros insistem em ir atrás de seu algoz implorando por migalhas. bobagem. se a pessoa chegou ao ponto de tomar uma decisão assim, deve ter pensado bastante antes e não vai mudar de idéia por causa de um chôro - mesmo que sincero. pior que isso é miguxinho mal-educado: aquele que procura chamar a atenção de quem deu o pé através de violência, verbal ou não. esses acabam se afundando ainda mais, e merecidamente.

esse período de tristeza profunda não tem duração determinada, mas acaba quando o apunhalado deixa de sentir pena de si mesmo e decide dançar com outros pares.

seco o mar de lágrimas, começa a fase da putaria. muita sociabilidade, vida noturna intensa, porres [i]memoráveis e drogas em excesso, pra quem vê graça na coisa. nesse período, o abandonadinho fica mas fácil que puta de beira de estrada, já que nem cobra pra passar de cama em cama. é uma fase boa pra realizar fetiches, pra soltar um "eu quero fazer sexo com você[s]" praquelas pessoas que se deseja há tempos, enfim, pra sair completamente da casinha. tudo isso é uma forma inconsciente de recuperar a auto-estima, claro.

a fase deixem-me-ser-biscate! é extremamente prazerosa, e pode durar para todo o sempre - caso dos cafajestes incuráveis -, mas normalmente chega ao fim no momento em que o ex-sofredor percebe que o mundo tá cheio de gente interessante e especial, e que o grande amor perdido nem era tão grande assim. aí... bom, aí o coraçãozinho tá pronto pros sobressaltos de uma nova novela.

é clichê ou não é, minha gente?

lunes 17 de diciembre de 2007

carta rasgada para o cabeça



[...]

e a vida me presenteou com um mimo dos mais delicados: você com a mão estendida em convite. não tive pernas pra fugir.

antes daquele beijo eu já era sua.

sábado 15 de diciembre de 2007

carta para baleia



bale,

tenho pensado muito em você nesses dias. saudade já paira por aqui, embora ainda possa sentir o cheiro do seu abraço de terça-feira. o que me inquieta é essa dor tão velha que você insiste em mastigar de novo e de novo e de novo. me tira o sono a certeza de que mais uma vez você vai até o fundo desse poço procurando aquele mesmo final feliz das outras vezes – e que nunca deu sinal de existir. não me conformo com essa sua paixão pela contramão.

depois da nossa última conversa, quando você me contou que ela disse que te entende, mas que não pode fazer nada agora e te pediu pela milésima vez pra esperar, lembrei do dia em que te encontrei sentada no corredor em frente à porta do meu apartamento chorando descontrolada por ter encontrado um fio de cabelo vermelho no chão – que provavelmente nem era dela, mas meu. olha a que ponto você chegou por essa mulher, amada... logo você, a mais soberba das criaturas, literalmente rastejando no chão por alguém que não te oferece o mínimo.

pra mim, é um soco na boca do estômago te ver alimentando esses seu amor louco com as migalhas que ela te oferece de vez em quando. me dá vontade de entrar nessa sua cabeça dura pra te fazer se saber linda, interessante e muito amável, pra te dar a mais cavalar das doses de amor próprio e te puxar pela mão da beira desse abismo.

lê, uma pessoa que brinca com você, que se nega a assumir pra si mesma e pro mundo que te quer [ou que não te quer], que te sujeita a ser a outra sem a menor cerimônia, que some e reaparece quando bem quer, no mínimo não serve pra você. tanta gente especial no mundo e você aí, beijando a sapa pela centésima vez com a esperança que num belo dia ela se torne uma princesa. sei não...

você merece mais, flor. enquanto não se der conta disso, esse nó não vai ser desfeito. pensa nisso.

te mando um abraço de pescoço, peito e barriga.

sua,
m.

lunes 10 de diciembre de 2007

dose única ou medicação contínua?




nunca vi graça em devorar pessoas como se come um sanduíche na hora da fome: engolindo rápido, mal sentindo o gosto, limpando os restos com o guardanapo que logo vai ser jogado fora. nunca entendi esse tipo de coisa, pra ser mais exata. pensava eu, amadora: sem romance perde o brilho.

numa bela noite, entretanto, resolvi seguir o conselho da ana e começar a arriscar. pensei cá comigo: ou eu enfim aprendo a desfrutar as delícias do corpo-a-corpo-com-gente-aleatória ou esse meu coração gangrenado volta a bater - perigo e redenção. qualquer das possibilidades seria mais interessante que a vidinha de planta assexuada que vinha levando desde.

me joguei, então, de corpo e alma nas ciladas da vida noturna [mais de corpo do que de alma, por supuesto] a fim de executar meu planinho mirabolante. já que era pra morder a nuca do bofe sem conversar muito antes nem depois, que fosse pelo menos o mais delicioso e com cara de safado possível.

antes que eu pudesse pensar em desistir, tropeço no homem mais cremoso* desde [sempre desde... maldita rogéria!]: lindíssimo, levemente idoso, ar blasé, cheiro de verão e, o melhor de tudo, sofrendo&facinho-pela-perda-do-grande-amor - perfil de senhor "a little less conversation, a little more [satisf]action, please". enfim, perfeito pras minhas [segundas] intenções.

beijoliguei. beijomeligou. até que.

inconclusa a presepada, brotou no asfalto [sente a metáfora pobre...] um homem magro e alto. cremosíssimo. além de ter a nuca mordível, o boneco conversa coisa com coisa, toma banho de mar, ri comigo e com minhas amigas desbocadas, tem um abraço que super encaixa, precisa de poucas horas de sono e fala coisas fofas que toda mulherzinha adora ouvir.

felicidade em dose única ou stomach about to be filled with fluttering butterflies [um novo desde]? não sei dizer, mas é esse o agora que eu quero pra mim.

plano 1 abortado até segunda ordem.





*as características essenciais da cremosidade masculina são estatura elevada e ossos levemente à mostra, entre outras. qualquer dia analiso esse assunto.

jueves 6 de diciembre de 2007

não me afague, não se afogue.



raul,

estou indo embora. dessa vez, de vez. não me peça calma. não me peça pra ponderar. não me diga que me ama. não me afague, não se afogue.

a única coisa que me prendia a esse lugar era um homem, que não era você. ele partiu. partiu de mim, e o espaço que ocupava não serve pra você. e tem outra pessoa, interessada e interessante, na medida pro meu carnaval. tem também a mulher com pernas de dançarina, o vizinho bonito, o cara grisalho, o surfista evangélico, o gay afetado, o designer barbudo, e tantos outros corpos errantes que gritam silenciosamente pra eu não insistir nem resistir mais. não é certo com você e, sinto dizer, uma delícia pra mim.

não adianta colocar maquiagem no que não tem remédio. eu não quero mais errar. não com você. não merecemos o morno, mas a mesa farta, a cama desfeita e a casa em festa.

esmago seu coração e te liberto.

seja feliz e se cuida.

m.

miércoles 5 de diciembre de 2007

chupa uma gilete.



3099
bate outra vez com esperanças o meu coração, pois já vai terminando o verão enfim.

6162
ok, cartola. põe rosa. e verde.

3099
ai, rata, tô querendo ser da mpb agora e vc só me avacalha. sério, agora eu quero ir num show do chico pra sentir a VIBE dele [?]. UNO DOS TRES CATORCE! SE JOGA! como está esse corpo com extra falta de melanina?

6162
branquinho, tenro, pronto pro abate e tendo aula sobre união homoafetiva [?]. e vc?

3099
salto sete e gorfando no banheiro da conca. eu gosto é de bicha trabalhada [?].

6162
maria, aloka, esposa de dom joão número romano [?]. já tomou sua dose de quiboa adoçada com vidro moído hoje?

3099
rata, preciso de outro líquido pra beber. quiboa já não faz mais efeito. acho que vou apelar pro jimo cupim com iscas pra formiga dissolvidas. o que vc acha?

6162
se joga. chupa uma gilete depois.

3099
já tentou o treco de seringa usada? eu tava pensando também em chupar uma naftalina.

6162
masca um refil de protector.

3099
protector? não sei o que é isso. vou ficar com as iscas mesmo.

6162
protector! aquele negócio de pôr na tomada pra matar mosquito! as pastilhas azuis são as melhores.

3099
aquele negócio verde? adorei! tá aprendendo, heim? mas acho que vou brincar de lança-perfume com sbp mesmo... mas lombarde, quais os prêmios de hoje?

6162
silviooo, hoje temos essa linda batedeira britânia no valor de 200 reaissss!

3099
meu, que vontade de comer um higiênico churro da velha ridícula [?].

martes 4 de diciembre de 2007

quem é você?



híbrido de coração gelado, abominável homem das neves, veruca salt, peter pan e pedreiro presidiário: não sinto, não me comunico, não sei amar, não cresço, acredito na sininho e só penso putaria.

miércoles 28 de noviembre de 2007

comme il faut



te olho de soslaio e rezo catorze ave-marias pra que você continue distraído e me deixe aproveitar mais um pouquinho a sua presença. você não imagina como é bonito assim, sorrindo, flertando, ensaiando uma dancinha com o pé direito... só não me olha nos olhos pra não me desequilibrar, por favor. guarda seu abraço com cheiro de verão pras outras pequenas, porque se não eu vomito...

[pausa]

vomito??? é, quem me conhece sabe que nervosismo me dá vontade de vomitar. vou falar em público: ânsia de vômito; "passa a carteira, se não morre!": ânsia de vômito; "quer namorar comigo?": ânsia de vômito. terrível, isso.

[play]

pensando bem, me olha sim. juro que controlo meu estômago e te dou o sorriso mais tomara-que-me-coma do mundo. me olha, sorri pra mim e me abraça [e me aperta e me chama de mon bijou, digo...] antes que passe a coragem, antes que o curta rodando na minha cabeça chegue ao fim.

vem pra que eu possa inventar uma desculpa qualquer pra gente sair desse lugar e passar o resto da noite falando coisas sem importância. vem pra eu te mostrar meu novo eu e te contar minhas tantas velhas histórias. vem tomar um café da manhã [amanhã] comigo. vem me ouvir dizer umas bobagens românticas e outras sacanas, todas sinceras. vem pra eu te despir [com a boca] desse seu figurino psicológico de lone-ranger-desencanado e te vestir de menino-feliz-bem-acompanhado.

5, 4, 3, 2, 1.

lunes 26 de noviembre de 2007

carta de ana



miloca,

doeu o puxão de orelha porque faz todo o sentido do mundo. tenho andado meio desnorteada mesmo, e me conforta o fato de você entender meus motivos. você sabe que sou meio sem noção, meio de extremos. se bem me lembro, foi por isso que a gente se encontrou tanto uma na outra, não? tenho me passado um pouco, verdade, mas não tinha percebido que isso tava te afetando até agora.

peço desculpas e prometo tentar ser uma boa menina. agora, escuta aqui, cara pálida, não era você que me dizia, parafraseando caio f., que a solução não está na temperança? pra eu ser quente ou fria, mas morna jamais? falar é bem fácil...

e que papo é esse de "tem coisas que se quebram e pronto"? falou a rainha da super bonder! milinha, você é a última pessoa no mundo de quem eu esperaria ouvir isso. não que seja ruim. também acredito nisso, mas logo você, que luta até o último suspiro pra conseguir o que quer? ai, ai, ai!

entendido o recado e retribuído o safanão, ouça um bom conselho que eu lhe dou de graça: "procura aí dentro, bem fundo, o que você quer e assume isso. assume pra você. só vale a pena se for para O SEU BEM". para o seu bem, guria! pára um pouco de pensar nos outros, no tal do karma, na felicidade alheia, na puta que pariu a geni! manda tudo pro inferno pelo menos uma vez na vida e vive o agora sem pensar demais! vai ser feliz e paga o preço depois, quando vier a fatura. arrisca, bonita.

prometo parar de me afogar raso assim se você tirar essas bóias de braço. afinal, as pessoas realmente não são descartáveis, mas uma fast food de vez em quando vai bem.

um beijo na bochecha,

ana.

domingo 25 de noviembre de 2007

carta para ana




anita,

tenho andado preocupada com você. de uns tempos pra cá, você não é mais a mesma. acho normal as pessoas se perderem um pouco depois do final de um grande amor, mas você se perdeu por inteiro: olho pra você e vejo uma estranha. não gosto.

pra começar, quero reafirmar o que você já tá cansada de saber: meu círculo de amigas-pra-todas-as-horas é mínimo, e te escolhi a dedo [não literalmente] pra fazer parte dele por tudo de bom que você esbanja com a maior espontaneidade. me apaixonei por você à primeira cerveja. acontece que, como você também já cansou de ouvir, minhas paixões não são incondicionais.

compreendo sua confusão, suas dúvidas. entendo seus medos e suas incertezas. mas não acho que isso justifique seus atos. ao contrário: penso que toda essa desordem seja um sinal vermelho, ou ao menos amarelo, pra atitudes que atinjam pessoas que te querem bem.

talvez seja essa a sua hora pra tomar a pílula do amadurecimento. talvez esse tapa na cara que a vida te deu seja um indício de que suas atitudes fazem quem você é. talvez você ainda não tenha se dado conta disso, e com toda certeza é essa a razão pras coisas estarem demorando pra se acertarem pra você.

ana, tem coisas que se quebram e pronto. você pode até juntar os pedaços, mas vai sempre ser um punhado de cacos colados. pensa se vale a pena o dispêndio pra consertar e se o resultado vai ser bom o suficiente pra te fazer bem. se decidir que sim, faz as coisas sem atropelo, sem desespero, e pensa sempre: só vale a pena se for para O SEU BEM.

não posso pensar, sentir nem decidir por você, mas posso te dizer coisas com a experiência de quem já se arrebentou muitas vezes e já atropelou algumas pessoas queridas: procura aí dentro, bem fundo, o que você quer e assume isso. não pra mim, pras suas amigas nem pros meninos que te cercam. assume pra você. escolhe uma verdade e faz dela o seu caminho. assume os riscos sem medo, se joga de cabeça e vai até o final, seja qual for sua decisão. só não continua se afogando raso assim. as pessoas não são descartáveis. não as trate assim e, principalmente, não se torne uma pessoa assim. it's up to you.

te mando um abraço demorado e um puxão de orelha com todo o carinho do mundo.

sua,

mila f.

miércoles 21 de noviembre de 2007

analisando: doctor larry wanking and i



dan: hey big larry, what d'you wank about?
doc: ex-girlfriends.
dan: not current?
doc: never.



entendo doctor larry*. na hora de fantasiar, é mais interessante com os ex que com os atuais. pra ele, com a mão em vai e vem; pra mim, com os dedos passeando PELO TECLADO [que fique claro].

o raciocínio é lógico: pra que só imaginar situações de qualquer natureza quando dá pra concretizá-las simplesmente passando a mão no telefone? pra que só pensar numa pessoa durante uma sessão de sexo solitário se é possível tê-la com você [em cima, em baixo, ao lado ou de costas, nham!]? pra que escrever sobre os pés de uma pessoa se você pode passar horas olhando pra eles e, dependendo dos ânimos, fazendo uma massagem com hidratante de mousse de maracujá?

pros ex, a gente reserva pensamentos e palavras escritas; pros atuais, o corpo, a alma e palavras sussurradas ao pé do ouvido.

o que muita gente não entende, e que eu e o senhor wanker ali compreendemos muito bem, é que passado fica no passado. pelo menos no plano real. dentro de nossas cabecinhas, todo devaneio é válido, inclusive em relação a arquivo morto. sim, porque quando um relacionamento acaba pra valer, os escombros da relação demolida - lembranças boas e ruins - são automaticamente movidos pra pasta "game over" do coração.

oras, assim como o doc passou noites e mais noites em claro brincando com as sortudas londrinas peladas, eu dediquei anos da minha vida e cômodos enormes do meu castelo pros meus antigos amores. eu, ele, você, a madonna, a dercy, todos nós temos mais é que revisitar essas histórias de vez em quando. pretérito perfeito ou imperfeito, cada um tem o seu e vai ser por ele acompanhado enquanto respirar [ou até que uma improvável amnésia o delete].





*refrescando a memória, doctor larry é o "fucking cave man" do filme closer, interpretado deliciosamente por clive owen.

martes 20 de noviembre de 2007

vão-se os amores, ficam as músicas



eu encontrei e quis duvidar: tanto clichê deve não ser. entre tanta gente chata sem nenhuma graça, você veio. e eu que pensava que não ia me apaixonar nunca mais na vida.

eu vi quando você me viu. seus olhos pousaram nos meus num arrepio sutil. foi só por um segundo, todo o tempo do mundo e o mundo todo se perdeu. e até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei.

ao te conhecer dei pra sonhar, fiz tantos desvarios. eu, que te vejo e nem quase respiro. o contorno dos teus lábios pelos meus imaginares, frases tuas de insuportável beleza. na tua presença palavras são brutas. o meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você. entre risos nervosos tenho os olhos meus sobre os sonhos teus.

entre por essa porta agora e diga que me adora. você tem meia hora pra mudar a minha vida. vem, vambora, que o que você demora é o que o tempo leva. vem pra misturar juizo e carnaval, vem trair a solidão. vem pra se arrumar na minha confusão, vem querendo ser feliz. vem me trazer calor, fervor, fervura, me vestir do terno da ternura. sexo também é bom negócio: o melhor da vida é isso e ócio. carícias plenas, obscenas.

apenas prometa-me amor discreto e agudo. me abraça, me aperta, me prende em tuas pernas, me prende, me força, me roda, me encanta, me enfeita num beijo. vamos viver agonizando uma paixão vadia, maravilhosa e transbordante, como uma hemorragia.

se alguém tocar seu corpo como eu, não diga nada. já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada. se tudo correr bem, vamos nos odiar.

chega. não me condene pelo seu penar. eu não pertenço ao mesmo lugar em que você se afunda tão raso, não dá nem pra tentar te salvar. é uma pena mas você não vale a pena. não vale uma fisgada dessa dor. não cabe como rima de um poema de tão pequeno.

nossa relação acaba-se assim: como um caramelo que chega-se ao fim na boca vermelha de uma dama louca. deixe a porta aberta quando for saindo. você vai chorando e eu fico sorrindo.

cheiros




hoje eu te vi parado numa esquina do calçadão com seus inseparáveis fones de ouvido e óculos escuros gigantes. provavelmente esperava por alguém pra tomar um café ali por perto. fiquei do outro lado da rua durante uns dois minutos observando sua tristeza.

você continua absolutamente igual desde toda a sua eternidade. esguio, queixo empinado, mão no bolso e escorado na parede com uma expressão grave. acendeu um cigarro, tragou lento e soltou sua fumaça ansiosa. mecheu no cabelo algumas vezes, ajeitou a camisa. mesmo claramente à espera de alguém, não olhava para os lados.

voltei pra casa pensando nessa cena e tentando buscar na memória outras lembranças de você. me surpreendi ao não me recordar de muita coisa diferente do quadro que tinha visto minutos atrás: você calado e de cara amarrada, cabelos desalinhados, camisa surrada e fumaça de cigarro.

me incomodou o fato de que tudo o que você representou tenha se resumido apenas a isso hoje - uma imagem previsível e sem muita graça. fiz um esforço pra desenterrar de algum vão em mim toda aquele encantamento que me fazia tremerem as pernas só de pensar em te ter perto de mim, mas não consegui identificar o porquê de toda aquela minha loucura.

tentei, então, lembrar dos toques, das risadas que compartilhamos, de momentos felizes. aí, me deu o click: era dos seus cheiros que eu sentia falta [sim, o amor sempre tem cheiro].

foi difícil me acostumar com a idéia de nunca mais dormir com você colado em mim com cheiro de cama. nunca mais acordar com a casa com cheiro de cigarro e café fresco. nunca mais domingo na lagoa e seu cabelo com cheiro de fritura. nunca mais seu cheiro de cansaço no final do dia. nunca mais o cheiro de incenso barato da sua casa. nunca mais o cheiro de álcool no seu hálito nas noites de dias-feiras. nunca mais minha casa com seu cheiro de banho. nunca mais o cheiro do seu edredom. nunca mais nossos cheiros parisienses fake misturados nas baladas. nunca mais seu cheiro no meu travesseiro. até do cheiro das suas roupas lavadas mensalmente sentia falta. mas o que mais doía era nunca mais aquele cheiro entre o seu ombro e o seu pescoço - fatal.

agridoces, aqueles tempos: meus pensamentos mais bonitos vestidos de você, com suas cores, com seu ritmo e, principalmente, com seus cheiros. agora somos eu aqui e você aí-longe-não-sei-onde. melhor assim.

jueves 15 de noviembre de 2007

analisando: se cuida.


a verdade que não quer calar: amor acaba. existe, sim, mas acaba. da mesma forma como surge - naturalmente - chega ao fim. sem cuidado, sem atenção, sem respeito, sem sexo de qualidade, enfim, sem a base de sustentação, a coisa desanda. menos doloroso quando é simultâneo, recíproco o desamor. mas e quando não? e quando um deixa de amar e o outro ainda centra boa parte de sua existência naquele? ah, aí começam as novelas das separações dolorosas.

separação unilateral é, cá pra nós, abandono, em bom português. praticamente abandono de incapaz, em linguagem jurídica. é um grito de liberdade da parte que toma a iniciativa e uma violência das mais cruéis para o que é deixado. a [agora] pobre criatura, privada da presença do até então homem/mulher de sua vida, passa a se questionar de hora em hora: será que chupo uma gilete ou tomo pequenas doses diárias de quiboa? obviamente a escolha é, via de regra, uma terceira opção: muito álcool e sexo casual com pessoas aleatórias.

fora o vazio que fica e preenche as infindáveis horas das semanas [ou meses] seguintes ao final [com o qual o abandonado teima em não se conformar], a pior parte desse tipo de separação é saber que o outro continua vivo, belo e formoso saltitando por aí, e completamente disponível. doem terrivelmente os encontros, casuais ou não, sem a possibilidade de contato físico, sem a antiga liberdade pra usar os apelidos antes carinhosos ou falar qualquer coisa sem importância com toda a naturalidade de quem tem vidas casadas - toda uma artificial falta de intimidade. e vem uma vontade incontrolável de dizer: eu te amo, volta! mas o amor pelo outro esbarra no amor próprio e acaba sufocado nalgum lugar entre o estômago, ainda agitado pelas borboletas, e o coração.

normalmente, nessa fase, a pessoa que pôs fim à relação costuma ser muito gentil, educada, compadecida com o sofrimento do ser que atropelou. se pouco determinada, pode mesmo ceder ao apelo silencioso por carinho do outro e sofrer falsas recaídas [leia-se: sexo]. havendo noites esparsas de flash back ou não, os reencontros são invariavelmente pontuados por aquela frase fatídica: "se cuida".

convenhamos: "se cuida" é a morte. o apaixonado tende a criar falsas esperanças do tipo "ah, ele se preocupa comigo", mas não é por aí. o outro tá dizendo: se cuida, porque eu não vou mais cuidar de você. ou: seja feliz. entenda-se: seja feliz sem mim, dá seus pulos, porque eu tô muito bem, obrigado, sem você. duro, mas é esse o real sentido da coisa...

domingo 11 de noviembre de 2007

analisando: los hermanos e os miguxos pseudo-intelectuais


"los hermanos acabou por causa do bando de adolescente pseudo-intelectual que fica citando as letras deles em orkut, blog e fotolog por aí". me sairam com essa num dia desses. entendi como bola fora em vez de tapa na cara intencional, já que eu ouço o que convém [e digo o que condiz]. eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir e rir.

em tese, nós, miguxos pseudo-intelectuais, achamos as letras lindas e não entendemos porra nenhuma do que elas dizem. isso explicaria a residência fixa de dicionários em nossas cabeceiras e mesinhas de computador. de fato, nunca tinha ouvido a palavra "deletério" até "condicional". corri pro houaiss pra descobrir o que era. achei lindo. e, cá pra nós, deletérios? imbróglio? quiproquó? tenho para mim que almirante e camelo também são devotos do santo aurélio. e tem que ser por aí mesmo. vai escrever letras rimando amor com dor, acabou com passou? ah, faça-me o favor!

aliás, imagino que o processo de criação dos barbudinhos é mais pseudo-intelectual [pra usar o rótulo que me foi conferido] do que muita gente boa imagina. por exemplo: [toda rosa é rosa porque assim ela é chamada]. tanto clichê deve não ser. e não é. saiu com certeza do [what's in a name? that which we call a rose by any other name would smell as sweet], shakespeare.

o fato é que ninguém tá muito a fim de novidade. todo mundo recria, copia ou se inspira, pra dizer de uma forma não ofensiva. a diferença é que nós, leitores assíduos de best-seller-da-lista-da-veja a guimarães rosa, entendemos as piscadelas que letras de música, filmes, blogs e afins trazem implícitas.

que ninguém se atreva a me dizer que encontrar a palavra certa ou a mais bonita ou a com melhor efeito no contexto não requer uma ajudinha do pai-dos-burros. mas quer saber? deixa estar. e prepara uma bebida que a gente vai passar.

viernes 9 de noviembre de 2007

nutella






3099
acabou de passar um monte de recruta correndo de short verde e regata branca. me vieram perversões com nutella à cabeça agora, digo...rata, deixa eu passar nutella em vc?

6162
só se você limpar depois. com a língua.

3099
começamos pela nuca, pode ser? beijostoansiosaprafazerisso.

6162
você que manda, rata. e, tipo assim, vamos fazer um ensaio pornográfico, digo, fotográfico durante a limpeza? podemos começar pelo umbigo.

3099
eu decido a ordem, ok? o fetiche é meu, a língua é minha, o boneco inflável é meu. muita nutella pelo corpo, misturada com xepa de marlboro pra dar um gostinho. prazer, luxúria e perversão.

6162
línguanutellacorponutellalínguanutellacorposatisfaçãoaocliente [?].

3099
depois manda os vídeos pro meu gaymail. beijosnatrave, digo, natrava.

lunes 5 de noviembre de 2007

analisando: pó

pornô, irvine welsh, é literatura, queridos. o que pode parecer foda-pra-caralho numa ficção [pretensiosa, diga-se], pode ser uma grande merda pra nós, reles mortais, adotarmos como way of life. porque não é só a cena, o carreirão, o spin sugar. tem o depois...

cocaína não é glamour, é decadência [e sem elegância]. gente travada é chata pra caralho. não seja maria-vai-com-as-outras. não tô falando de vício, mas de sem-vergonhice. compensa pegar de vez em quando umas anfetaminas da sua irmã gorda ou umas gotas de ácido da sua amiga terceiranista do curso de farmácia pra curtir uns momentos vive la fête.

digo isso porque é muuuuuuuito triste ver aqueles marmanjos-tatuados-com-costas-largas-pernas-finas-e-playmobil-bed-hair órfãos de endorfinas nas segundas-feiras. sim, porque o glamour dos meninos-roqueiros-pseudo-londrinos-sujinhos-com-os-cabelos-entupidos-de-sabonete-e-roupa-preta-tamanho-14-infantil acaba junto com o efeito do pó de sexta & sábado à noite.

pose de junkie é fim de carreira. muitas vezes, literalmente: o cara dá UM teco na balada moderninha de sábado e paga de william burroughs a semana toda. aí tem que se entupir de dormonid, prozac, rivotril, lexotan e afins pra tentar ter uma vida sóbria mais ou menos prazerosa.

e tem toda a questão do capitão nascimento também. sou apolítica, mas não tem como negar que são os playboyzinhos, underground [sim, tênis sujo de 200 reais, calça levis transformada em legging pela amiga costureira, roupinha do brechó da moda com preço de roupa da renner é indiscutivelmente coisa de playboy] ou não, quem faz os morros de florianópolis se assemelharem cada vez mais aos do rio. futuro glorioso aguarda nossa ilha e adjacências...

quer ficar feliz? tenha boas companhias. e leia uns livros de vez em quando pra ter assunto. pode ser revista também, ou mesmo um filminho da sessão da tarde.

precisa de um estimulante pra ficar aceso em festinhas de madrugada? toma uma xícara com 3 colheres das de sopa de nescafé: você fica ótimo.

se o problema é sociopatia/misogina nas situações mencionadas, aprenda a usar o olhar, porque, de fato, as melhores mulheres vão pra casa com os homens mais atrevidos.

quer relaxar? pessoalmente, acho maconha uma bosta, mas dos males o menor. quanto ao fudencial k, use como o brian molko: pra fazer alguma coisa bonita, e não dando uma de potranca pronta pra cesariana, derretendo no sofá de algum inferninho.

quer relaxar gostoso? senta numa churrascaria e se entope de carne gordurosa. serve um xis da ponte também. depois de comer, garanto que você nem vai sentir seu corpo [presumo que devido ao fato de todas as forças se voltarem pra digestão]. só não faça disso um hábito pra não virar uma baleia das drogas alternativas.

quer relaxar pra valer? sexo, queridinhos. solitário, de dois, de quatro, enfim. orgasmos. muita língua, muita saliva, mãos habilidosas e pudor nenhum. vai gostoso. você fica altíssimo durante e ralaxadíssimo depois. drogas internas, gratuitas e que não promovem estrago algum a terceiros que não têm nada a ver com a paçoca. só não vai dar uma de renan calheiros: yasmim e jontex sempre.

enfim, pros miguxinhos e miguxinhas que não assistem discovery channel antes de dormir, informo que aqueles carreirões de pó acabam com suas veias. primeiro acidentezinho no seu veículo envenendo, é aneurisma na certa. se for pra continuar fodendo com seu nariz [só pra constar, não dá nem pra fazer plástica depois], pelo menos levanta a tampa do vaso quando sair do feminino, por gentileza.

jueves 1 de noviembre de 2007

analisando: cafajestes e mulheres de perfil nelsonrodrigueano

é incrível a atração que os cafajestes exercem sobre a maioria das mulheres. cara de safado, jeito de safado, papo de safado. eles não são de pedir desculpas, tampouco de mandar recados. sua objetividade, aliás, é capaz de fazer corar as mais desavisadas. não, eles não são do tipo de homem que a gente costuma cultuar em nossas cabecinhas de eternas adolescentes apaixonadas. pelo menos não as sãs entre nós. alguma no recinto? creio que não.

o típico canalha é irresistível. pode ser feio, bonito, alto, baixo, mas invariavelmente é dono de um charme que beira o obsceno. homens desse naipe carregam estampado na cara uma indefectível tarja preta indicativa dos prazeres e posteriores males que podem proporcionar. os dizeres da bula, mulher que se preze já sabe de cor: "indicado para moçoilas de perfil nelsonrodrigueano [adoooooooram apanhar...]. fonte de prazer ilimitado por breve período, após o qual desaparece do mapa sem aviso prévio. pode rapidamente levar a um estado de dependência física e psíquica".

ao se deparar com um exemplar dessa espécie, mesmo conhecendo as contra-indicações, mulher que é mulher não dá bola e, sem pensar duas vezes, joga a bula fora e implora pra ser o prato principal do cafajeste. e como é bom o mundo dos deleites sem compromisso...

acontece que, num belo dia [ou, pior ainda, numa bela noite], o previsível se concretiza: o bonitinho vira as costas e vai embora. é então que começam os sintomas da abstinência: espera por horas a fio de um telefonema que não vem; pensamento obsessivo e planos mirabolantes de vingança; sentimento agudo de solidão noturna; manifestação de personalidades outrora vivas apenas em canções buarquianas; e o pior deles: a perda do amor próprio.

quando as coisas chegam a esse ponto, não adianta chorar nem bater o pé, porque as delícias, digo, os canalhas, têm formação física diferente dos outros mortais: carregam no peito um coração de pedra. apesar de frio, o órgão não é de gelo - impassível de derretimento, portanto.

num caso clínico como esse, recomenda-se à enferma, em caráter de urgência, a colocação do músculo involuntário que pulsa pelo bandido - o coraçãozinho entupido de mágoas - em estado de latência. essa medida deve ser acompanhada de imediata indução, via ingestão alcoólica, ao hiper-funcionamento do fígado. o tratamento não tem previsão de resultados definitivos a curto nem a longo prazo, mas um alívio das dores no decorrer do período de desintoxicação é comprovado empiricamente. saúde, senhoritas!




*a título de curiosidade, a transmutação do coração desses homens em pedregulho via de regra é conseqüência de trauma amoroso.

miércoles 31 de octubre de 2007

analisando: bolhas, redomas e chás de sumiço


as pessoas têm o terrível costume de poupar a alma. pode notar: principalmente quem já se arrebentou num relacionamento mal sucedido [quase todo mundo?] vive num esforço constante pra construir paredes em volta de si. em vez de deixar uma paixão criar asas e levá-las pro fabuloso reino das endorfinas, viram homens-bolhas, acomodados numa cápsula protetora contra sensações mais intensas.

e como a redoma é confortável! sim, ela é absolutamente eficaz contra qualquer dor romântica - vem com uma fonte infinita de chá de sumiço para os casos de a distância de outro mortal ultrapassar a linha de segurança da frieza-educadinha.

o problema é que a cápsula-anti-feridas-no-peito não é indestrutível, e, quando colide com entidade semelhante, pode subitamente entrar em processo de fusão. nessas circunstâncias, o chazinho de sumiço se torna extremamente amargo, e sua ingestão ocasiona severos efeitos colaterais: dor dilascerante no peito seguida de vômito de borboletas mortas. o habitante da redoma, sovina sentimental assumido, sabe disso muito bem, mas, diante dos prazeres indescritíveis da paixão nova, geralmente acaba adiando a tomada do tal chá.

tendo as bolhas virado uma só, contudo, elas têm curto período de sobrevida. progressivamente suas paredes vão desmoronando juntamente com a possibilidade de os poupadores de alma passarem bem sem ter um ao outro ao alcance da boca.

e aí... bom, aí a pessoa cai em si e se pergunta: economizar alma pra quê? de que vale carregar um coração estéril [leia-se centros produtores de drogas internas - endorfinas, dopaminas e afins - em baixa atividade]? uma linha reta de emoções, tudo o que se buscava até então, passa a parecer insossa diante da iminência de saborosas variações para o alto [acompanhada, sem dúvida, da possibilidade de baixos futuros].

tomados pela euforia de um presente açucarado, os ex-avulsos-convictos se vêem esbanjando o melhor de si, e assumem a renúncia, ao menos temporária, à estabilidade de ser homem-bolha.

mas afinal, polpar alma pra quê? a vida, pra ser vivida com a devida intensidade, requer certa prodigalidade sentimental.

martes 30 de octubre de 2007

pp/36



eu não sou anoréxica. tá, uso roupa pp/36 e tenho quase um metro e oitenta de altura. é pro número da roupa casar com o do sapato. mas não é anorexia. nem bulimia. só vomito quando vou ao mc donalds. 3 vezes por semana. minhas únicas refeições semanais, fora os pés de alface. sem tempero, óbvio. e tomo umas xicarazinhas de coscarque pra me manter assim - BO-NI-TA. como você acha que a gisele mantém aquele corpitcho? muito chá, muito dedinho na goela, muito xenical. mas xenical não tomo. muito caro. como ela, tive até que por silicone, porque os peitinhos caem quando a gente perde muito peso. pus em casa mesmo. silicone de construção, que é bem em conta.

pelanca? nãããão. passo renew, né? no corpo todo, 3 vezes ao dia. vem com protetor solar. a gente tem que se cuidar... quero morrer antes dos 40, porque tenho pavor de pele enrugada, flácida. por isso eu me exercito bastante. vou até ingleses e volto todos os dias de patinete. aproveito pra ganhar uns trocados: faço propaganda pro magrins, com uma bandeirinha cor-de-rosa pendurada nas costas, tipo capa-de-super-herói.

não, não vou ter filhos. não sei como as mulheres se sujeitam a passar 9 meses em forma de elefante pra depois ficarem cheias de couro sobrando, varizes, celulite, peito caído... ui! sem falar que não tem dior que caia bem em grávida! vou, no máximo, comprar um bebê. comprar direto da china, né, porque é mais barato e porque a fila de espera da adoção é muito longa aqui no brasil. engraçado isso... tanto pirralho abandonado e toda essa dificuldade pra pegar um pra criar. aí a mulher rouba o pedrinho da maternidade e o povo ainda acha ruim. tsc, tsc, tsc... ai, acho que vou acabar comprando um cachorro mesmo. mais limpinho, menos gastos, menos burocracia, a ração já vem pronta, né?

minha idade? olha, tenho 18 anos desde 1996. parei nos 18, porque daí pra frente é só decadência. pelo menos pra gente que não tem acesso ao botox, ao bisturi, aos personal trainners... sim, porque imagina a xuxa, por exemplo, com aquele nariz de tucano da época do filminho com o menino, sem aquelas próteses de 300 mililitros, sem ter lipado aqueles 5 quilos pós gravidez, sem aquele eterno bronzeado de máquina, com muita celulite, muita estria, as ruguinhas naturais da idade, sem hidratante monange nem no inverno nem no verão... olha... nem queira imaginar! mas é linda, a xuxa, depois de todas as recauchutagens. adoro ela. beijo, xuxa.

casar? ando meio desiludida com os homens. meu último namorado se descobriu gay depois de 2 anos de namoro. gostava tanto de brincar com pinto de borracha, daqueles que brilham no escuro... mas aconteceu bem naturalmente o outing dele. bem naturalmente nasceram os galhos na minha cabeça. bem naturalmente me trocou por um argentino com mullets gigantes [não só os mullets eram gigantes, presumo eu]. e bem naturalmente se mudou pra são paulo pra trabalhar na augusta como relações públicas. tudo muito natural. e eu fiquei aqui, né. até tentei trabalhar minha sexualidade, comprei um all star, uns cintos de rebite, fiz uma tatuagem 7/8 em cada braço e comecei a freqüentar uns locais fora do circuito ht, mas não deu muito certo. todas aquelas meninas de moleton e boné, pensei: homem e mulher, só o pinto de diferença mesmo. e faz falta né? de plástico não é a mesma coisa.

mas tô bem agora. freqüentando o mundinho glbttttts, com todo esse meu tamanho e meus peitos de silicone tamanho 48, consegui um empreguinho digno. sou hostess de uma boate gay. muita pluma, muita purpurina, plataforma salto 12 e bebidas e drogas a la vonté. todo mundo acha que sou trava. o bom é que fico com várias bichas lindíssimas que juram que minha cirurgia de mudança de sexo foi super bem sucedida. um luxo.